Quero ser grande

As Melhores Coisas do Mundo põe em foco um universo quase esquecido na produção nacional, os jovens

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2010 | 00h00

No set de Tropa de Elite 2, no Rio, o montador Daniel Resende já confidenciara ao repórter - As Melhores Coisas do Mundo é o filme mais maduro de Laís Bodanzky. Embora jovem, Resende tem currículo para fazer afirmações deste tipo - montou Cidade de Deus, de Fernando Meirelles; Tropa 1, de José Padilha, e agora trabalha no 2. Uma carreira e tanto. Laís retribui o elogio - "O Daniel começou a montar quando ainda filmávamos. Deu contribuições importantes." As Melhores Coisas estreia hoje com 150 cópias em salas de grandes capitais e cidades do interior, um circuito bem diversificado. O filme nasceu de um convite - a Warner do Brasil queria adaptar a série de livros de Gilberto Dimenstein com o personagem Mano. Laís e seu marido, o roteirista Luiz Bolognesi, foram chamados para conversar. Ganharam carta branca. O filme baseia-se nos personagens e no espírito dos livros, mas o roteiro é original de Bolognesi.

O cinema brasileiro não tem por hábito frequentar o universo da adolescência. Ela é quase uma terra de ninguém na produção nacional, mas agora, por coincidência, As Melhores Coisas vem se somar a Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, ainda em cartaz, e a Antes Que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo, da Casa de Cinema der Porto Alegre, que estreia em seguida. A Casa de Cinema - leia-se Jorge Furtado - tem sido uma quase solitária seguidora do filão. E a Warner é que distribui As Melhores Coisas e Os Famosos. Os dois filmes têm muito coisa a ver, apesar das diferenças - falam de jovens que flertam com a morte; conferem grande importância à palavra e à internet como meio de comunicação da juventude. Em ambos, a música "estrangeira" desempenha um papel importante - Bob Dylan para Esmir Filho; os Beatles para Laís (e Luiz).

Ela conta como seu filme nasceu. "Formamos grupos para conversar com adolescentes de escolas de São Paulo. Não eram grupos grandes. Às vezes, a coisa virava meio que uma terapia de grupo. Queríamos saber tudo sobre eles e como gostariam de se ver retratados na tela. A proposta era fazer um filme do ponto de vista dos jovens. Eles foram incisivos. Não queriam se ver como numa comédia de Hollywood." O perfil de pais separados era uma constante nos grupos. Quando Bolognesi colocava na roda o motivo da separação dos pais de As Melhores Coisas - veja o filme -, a reação meio que se repetia. "Havia um riso nervoso nos grupos, exatamente como no público das pré-estreias", conta Laís.

A adolescência é vista como era de extremos. "É a fase da transição, do cresça e apareça. Tudo é radicalizado, a euforia como a depressão." O roteiro é o mais "preciso" de Bolognesi. "E é o meu filme mais "técnico". Tudo foi planejado. A própria improvisação - os jovens podiam reinventar os diálogos com suas palavras, mas, até quando isso ocorria, o timing tinha de ser mantido." Os atores jovens foram escolhidos por testes. Francisco Miguez é Mano, Gabriela Rocha é a amiga. Fiuk, o irmão mais velho, sofre o mesmo estigma de Rodrigo Santoro na época de Bicho de Sete Cabeças. É bonito, faz Malhação na Globo. Laís não se intimida. O importante é fazer a sensibilidade aflorar para que o ator sirva ao personagem. Denise Fraga aparece contra a corrente, num papel bem dramático. "Denise estava querendo alguma coisa assim. Foi de uma entrega muito grande."

Laís tinha medo de uma cena, a dos ovos. Achava exagerada muito "mexicana". Houve uma intensa preparação, a cena foi ficando para o fim e é uma das mais fortes. "Tudo se resolve com trabalho", ela avalia. O filme discute a cidadania quando os jovens são estimulados a vencer seus preconceitos, mas o repórter arrisca sua interpretação - é a história de amor de dois irmãos e, no limite, sobre como um salva o outro. "Foi assim que filmei", a diretora concorda. Os jovens pediram a cena do baseado, mas, como ela é vista do ângulo deles, o assunto é minimizado. "Eles experimentam, não são viciados, é tudo." Os Beatles eram uma referência musical em todos os grupos de jovens. Laís queria usar Black Bird. Os direitos eram impensáveis. Something era mais viável. A diretora prestou atenção à letra. Era perfeita. As Melhores Coisas do Mundo faz jus ao título. É, realmente, uma das melhores coisas do cinema brasileiro atual.

QUEM É

FIUK

ATOR E CANTOR

CV: Filho do ator e cantor Fábio Júnior, Filipe Kartalian Ayrosa Galvão nasceu em São Paulo, no dia 25 de outubro de 1990. Atualmente, ele concilia sua carreira de vocalista da banda emo Hori com a atuação na série adolescente Malhação, da TV Globo.

AS MELHORES COISAS DO MUNDO

Direção: Laís Bodanzky. Gênero: Drama (Brasil/ 2009, 107 min.). Censura: 14 anos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.