''Quero ouvir os artistas''

Andrea Matarazzo, Secretário de Estado da Cultura

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

Quando chegar amanhã à tarde a seu novo gabinete, ao lado da Sala São Paulo, Andrea Matarazzo pretende deixar a porta aberta - e não se trata de mera figura de linguagem. Novo secretário de Estado da Cultura, nomeação ratificada pelo Diário Oficial deste fim de semana, ele pretende abrir um canal direto com profissionais de todas as áreas artísticas em busca de sugestões. "São eles que têm o melhor diagnóstico da situação", comenta Andrea que, no novo cargo, terá apenas sete meses de gestão, substituindo João Sayad, agora presidente da Fundação Padre Anchieta.

Andrea foi ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso e secretário das Subprefeituras de São Paulo, um dos principais cargos da administração municipal, quando José Serra ainda era prefeito. Aos 53 anos, o sobrinho-neto do conde Francesco Matarazzo é um homem culto, mas, como político, será a primeira vez que vai trabalhar com a cultura. Nada que o assuste - a partir de sua experiência na Prefeitura, garante ter noção dos espaços mais carentes da cidade. Sobre o assunto, ele conversou com o Estado na sexta-feira, em seu escritório, no chamado Centro Antigo de São Paulo.

O que pode ser feito em apenas sete meses de mandato?

Basicamente, é dar continuidade aos projetos já iniciados e, se possível, plantar algumas ideias para os futuros governos. Desde 2005, a secretaria de Cultura cresceu muito, teve seu orçamento quase triplicado, surgiram novos planos. João Sayad deixou a secretaria muito organizada, assim minha tarefa é continuar o que ele começou.

O modelo das organizações sociais (OS), em que entidades privadas recebem verbas públicas para gerenciar órgãos culturais do governo, é criticado pelo Ministério da Cultura, que defende um modelo mais estatizante. O que pensa disso?

A formação das OS é muito complexa. Várias obras já foram licitadas, algumas iniciadas e, se há algum complicador, é o aspecto burocrático, especialmente na montagem da equipe. Mas defendo esse modelo, pois agiliza e favorece a operação do Estado, especialmente em áreas especializadas. Cabe ao Estado a função de fiscalizar.

No Caderno 2 de sexta-feira, fomentadores culturais aprovaram eventos como a Virada Cultural, que termina hoje, mas criticaram ser uma ação isolada, sem deixar resultados perenes na dinâmica artística da metrópole. Como combater isso?

Como é um sucesso, a Virada Cultural já fomenta atividades na periferia - o problema é que poucos sabem. São ações independentes da presença do governo, que demonstram que a sociedade, quando compra uma ideia, desenvolve ela mesma.

A periferia continua como a área mais carente, certo?

Existem poucas áreas no Estado de São Paulo tão carentes de cultura como a periferia da capital. É preciso chegar àquela região. Temos nove Fábricas de Cultura sendo implantadas em diversos bairros periféricos, todos com a missão de fomentadores. É o caso do Centro Cultural Ruth Cardoso, em Vila Nova Cachoeirinha: lá, tanto são projetados filmes e encenadas peças como também existem estúdios que ensinam a edição cinematográfica e espaços para ensaios teatrais.

Mas ainda são projetos isolados, não?

Existem muitos projetos independentes, iniciativas particulares. Afinal, quantas pessoas não criam bibliotecas em suas casas por conta própria? Há muita sede de cultura, mas uma grande falta de opções. Veja o cinema na zona leste: há salas de exibição até a região do Aricanduva, depois não tem mais. A opção é aproveitar o avanço tecnológico (que permite improvisar uma sala apenas com um projetor) e utilizar espaços como escolas, igrejas, clubes. Espero encontrar parceiros na iniciativa privada para viabilizar projetos como esses. Pretendo também conversar com institutos culturais privados, como o do Itaú, Banco do Brasil, a fim de compatibilizar agenda e permitir que sua programação chegue até a periferia e também a outras cidades.

Como é a relação da Secretaria estadual com a municipal em relação à cultura?

É a melhor possível. Quando eu trabalhava na Subprefeitura, o (secretário municipal) Carlos Augusto Calil era meu principal parceiro. Ele é responsável por uma vasta programação de qualidade.

E com o Ministério da Cultura?

Ainda não sei com detalhes. Vai ser uma experiência nova. Confesso desconhecer ainda se há alguma parceria implantada. Mas não deveria ser um grande problema. Deveria, sim, ser uma relação apolítica.

Mas nem sempre isso acontece, não é mesmo?

Mas deveria acontecer! Não se pode permitir que haja uma politização da cultura.

Eis um ponto crucial, pois diversos intelectuais lamentam o fato de a cultura ter se transformado em uma área de negociação, na qual determinados interesses políticos são acomodados.

Isso é um absurdo. Não foi o que aconteceu no meu caso. Não sou um especialista em cultura, mas acredito que o ministro da Saúde não precisa ser necessariamente um médico. Meu objetivo é ser um catalizador das informações do meio cultural e executor dos programas que interessem ao Estado. Por isso é que eu pretendo ouvir muito os artistas.

Prepare-se para muitas reclamações...

O que é ótimo! Pessoas sensíveis têm a alma mais inquieta, são criativas. Eu gosto de ouvir, sentir, descobrir o que estão precisando. Antes de tomar qualquer medida, quero ouvir todos os segmentos. Quero saber quais são os ajustes necessários a se fazer.

O senhor avalia que os entraves políticos serão muitos?

Pior são os entraves financeiros. Por isso é preciso utilizar a criatividade. As estações do metrô, por exemplo, são lugares excelentes para a realização de mostras, peças. Acredito que os espaços públicos que possibilitam atividades culturais não deveriam ficar ociosos. Tenho, por exemplo, um plano para aquele casarão desocupado na Avenida Paulista, próximo ao novo parque Mário Covas.

Qual é o plano?

Gostaria de transformar aquele casarão, que é propriedade de um espólio, em um centro cultural ou em uma galeria. Algo semelhante ao Frick Collection, de Nova York (casa que pertenceu a um milionário do cobre e do aço e que hoje abriga uma das mais impressionantes coleções particulares de obras de arte). É uma área tombada, mas que está deteriorando. Não é grande, mas permite fazer algo integrado ao parque. E, como esse, devem existir outros móveis históricos, que estão degradando. É uma questão de propor parcerias às grandes empresas, que bancariam a reforma.

Se Geraldo Alckmin vencer a eleição para governador, o senhor vai permanecer no cargo?

Não tenho a menor ideia. Em política, faço o que sou designado a fazer. Hoje, penso em deixar algo planejado para o próximo governo. Com as conversas que terei com os artistas, certamente surgirão sugestões boas que podem ser elaboradas no futuro. Mesmo permanecendo apenas sete meses à frente da Secretaria, tenho de trabalhar como se fosse ficar dez anos, em termos de planejamento de ideias. O Brasil cresceu muito nos últimos anos, o setor privado está muito ativo, portanto, o momento é o de viabilizar projetos.

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