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Ignácio de Loyola Brandão
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Quero ouvir o som de meu sangue

Aquele som a certa altura do exame sempre me alvoroçou agradavelmente, me tranquiliza

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

09 de junho de 2017 | 03h00

Quando abri a janela de manhã, quase fiquei cego. Depois de dias chuvosos, havia um céu sem uma única nuvem. Translúcido, diria o poeta que usa clichês. Fiquei feliz porque fazia um friozinho. Por um instante, esqueci os exames que me fizeram acordar várias vezes. Se precisasse me exilar – e uma pequena debandada já começou no país, iria para a Islândia, terra do gelo. Quase zero graus e saio de camiseta, no elevador do prédio as pessoas se espantam: “Cuidado com a gripe, com a pneumonia. Não vá me pegar uma tuberculose”.

Tinha acordado cedo, preocupado com um check-up de rotina. Ultrassons do abdome, da próstata, doppler de carótidas, ecocardiogramas e mais uma dezena de investigações. “Estou para morrer?”, indaguei do doutor Ophir. Ele me olhou, entre bravo e sarcástico: “Estamos apenas prevenindo”. Passei horas ao telefone para agendar várias coisas no mesmo dia. Quem tentou planificar, sabe. Não é culpa do laboratório, é das pessoas que insistem em fazer um ultrassom no mesmo dia e mesma hora que temos disponível. A atendente mostrou paciência e conjugando astros aqui, algoritmos ali, chegamos a um acordo.

Era preciso chegar em jejum uma hora antes do primeiro exame. Faria um dos procedimentos, esperaria, faria o segundo, daria outro tempo, voltaria para mais um. Então, pausa de duas horas, os últimos exames seriam às 14 e às 15 horas. Tudo em jejum. Saí de casa duas horas antes, enfrentei trânsito, cheguei com folga. Não facilito. Minha sábia mãe dizia: quem tem pressa, sai cedo. E ela nem tinha ideia do que seria São Paulo hoje. Saio cedo, chego cedo e abro meu livro. Como leio vários, tendo um para o laboratório, um para banco, outro para o correio, um terceiro para a fila da lotérica, quando jogo. 

Para os exames, levei o Prisioneiras, do Drauzio Varella, fantástico, último volume da trilogia sobre o Carandiru. Lê-se de uma assentada. Lembro-me do jovem médico Drauzio, décadas atrás, me mostrando rascunhos tímidos, quando começava a escrever. Depois, foi o sucesso que se viu, vários livros, programas de televisão, etc. Fui dos primeiros a ler Nas Ruas do Brás, delicioso relato de infância. Todos sabem quem Drauzio é, um ícone. Agora, sou eu que mostro a ele esboços de escritos esperando aprovação.

Continuemos. Na manhã do exame, preocupado, acordei antes das 5, prazo-limite do jejum. Corri à geladeira, não podia tomar leite, nem queijos, eram as recomendações. Encontrei uma pera, uma maçã. Tentei voltar a dormir. Nada. Chegaram os jornais. Abri o computador e imprimi um artigo do José de Souza Martins, que sigo religiosamente toda semana, ele me ilumina o mundo.

Claro que às 9 da manhã eu tinha fome. Às 10, a fome aumentou. Jejum é um problema. Quando a ciência que tem descoberto coisas impressionantes vai eliminar o jejum antes dos exames? Esta para mim será a grande revolução. É só não poder comer, a fome vem. Claro, me voltaram cenas de infância, rituais da Semana Santa, um dia inteiro sem comer nada. Carne na Sexta-Feira Santa? Meu Deus, era caminho para o inferno! Eu fugia para o quintal, chupava mangas, comia goiabas ou abacate com limão. 

Segurei a fome, pensando no lanchinho que nos dão, fiz o primeiro exame, o segundo e descobri uma situação que me emocionou. Estava ali enquanto aquele aparelho gelado, lambuzado de gel procurava anormalidades no interior de meu corpo. Eu quieto. Sou daqueles que não fazem perguntas nem quando o procedimento acaba. De vez em quando, consigo escrever essa palavra, procedimento. Louco para saber se estou bem, mal, o que, porém, calo-me. A idade passa, temos receio de aparecer uma coisinha, ou uma coisona.

Também não abro mais exames, desde a minha cirurgia de aneurisma, 21 anos atrás. Mas quando a doutora Simone, que me examinava, acionou uma tecla e passei a ouvir o ruído do sangue borbulhando, gelei. De alegria, contentamento. Era meu sangue agitado, entrando e saindo do coração ritmado, forte.

Como o mar batendo na boca de uma caverna. Naquela hora, senti paz e a beleza da situação, assim como 21 anos atrás, ao ouvir a expressão “veia bailarina”, vi que há poesia na gíria hospitalar. Veia bailarina é aquela que “dança”, recusando a agulha. Aquele som a certa altura do exame sempre me alvoroçou agradavelmente, me tranquiliza. Contei a sensação à doutora Simone e ela sorriu e me revelou: “O senhor sabia que quando bebês muito novos choram, basta ligar para eles esse som do sangue pulsando, que se acalmam imediatamente? Bebês passam nove meses na barriga das mães ouvindo esse borbulhar, sabem que estão protegidos, seguros. O bater do coração tranquiliza-os”.

Evidente que percebi que devem ter feito pesquisas, experiências, testes. Se eu tivesse um gravador no bolso – desses que qualquer delator usa –, teria gravado o som do meu sangue e deixaria o tempo todo aqui no estúdio. Prometi que da próxima vez vou gravar o som de meu coração para ouvir quando as coisas estiverem bravas, caóticas, amedrontadoras, fora de controle. Ou seja, a cada segundo, minuto, hora, dia, semana, mês dessa época tenebrosa tortuosa em que estamos vivendo.

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