João Carlos Martins tem um sonho. "Mas não é nada original, é do Heitor Villa-Lobos", explica. Ele quer criar, nos próximos dez anos, mil orquestras de cordas em todo o Brasil - com crianças de escolas públicas.

04 de março de 2013 | 02h11

Além disso, está na batalha para voltar a tocar profissionalmente depois de doze anos. Para isso, passou por uma insólita cirurgia no cérebro e tem treinado diariamente, além de fazer duas horas de fisioterapia.

"Não acredita? Vem cá", convida. Provando que está mesmo estudando como um garoto, ele toca parte do Concerto para a Mão Esquerda. Mas, antes, faz um apelo: "Não grava, não. Eu fico nervoso. Sei que ainda falta muito para soar bem no ouvido".

Aos 72 anos, o maestro anda agitado: entre outras estripulias, quer subir em um monumento público ("talvez o Cristo Redentor"), no dia 24 de dezembro, para reger, virtualmente, 60 orquestras de cordas em todo o Brasil. Se ele tem fôlego? "Time is running para mim", brinca.

A seguir, os melhores momentos da entrevista, concedida num final de tarde na sede de sua Bachiana Filarmônica Sesi, no centro de SP.

O senhor tem três concertos importantes este ano. Um deles, com a Condoleezza Rice.

Esse foi uma surpresa maravilhosa. Quando ela esteve aqui no Brasil (em dezembro), fiquei sabendo que queria me conhecer. E a assessoria me convidou para jantar. Colocaram um piano na sala onde nós estávamos. A Condoleezza, então, tocou um trecho de Schumann. E eu não pensei duas vezes. Disse: "Você vai ser minha solista". (risos) Ela toca profissionalmente. Na juventude, ganhou prêmio e tudo. E pratica duas horas todos os dias. Eu falei: "Escolha a causa e vamos fazer um concerto beneficente, porque você dará um exemplo de amor à arte a todos os políticos da América". Ela aceitou. Será no dia 3 de novembro, na Sala SP.

E qual será a causa?

Ainda não batemos o martelo, mas será uma causa pró-saúde da mulher ou ensino musical para crianças. Ela é quem decide. E escolheu tocar Schumann...

Schumann não é fácil.

Não, é casca de ferida! Imaginei que fosse escolher algo mais tranquilo, mas ela quer mostrar serviço. Acho que assistiremos a um momento muito bonito da música, porque será uma demonstração do que a arte pode fazer. A Condoleezza tem fama de durona, foi secretária de Estado dos EUA... Mas, quando se senta ao piano, é de uma sensibilidade que toca fundo. Ela se emociona.

Além disso, o senhor vai voltar a tocar profissionalmente.

Vou, e estou muito nervoso. É verdade... Porque o sonho de voltar a tocar sempre existiu durante esse tempo todo. Faz doze anos que não toco piano profissionalmente. E estou fazendo fisioterapia duas horas por dia, sete dias por semana.

Mas o senhor passou por uma operação também...

O Paulo Niemeyer (Filho, neurocirurgião) abriu minha cabeça, tirou o tampo mesmo, deixou o cérebro exposto. Como Hannibal (alusão ao serial killer vivido no cinema por Anthony Hopkins), sabe? Ele mexeu lá dentro e conseguiu abrir minha mão esquerda. Eu estava acordado o tempo todo. Ao conseguir que a mão abrisse, colocou um fio que desce pela cabeça, pelo pescoço e vem até aqui (abre a camisa e mostra o peito, onde se percebe, sob a pele, o contorno de um aparelho do tamanho de um cartão de crédito). Fiquei biônico. (Ele faz uma pausa longa) Eu nunca vou desistir, entende? Nunca. Sempre disse que, antes de morrer, eu tocaria profissionalmente.

E qual a função do aparelho?

É um estimulador. O problema é que ele não escolhe o músculo que precisa ser estimulado. A saída foi anestesiar os tendões flexores e deixar o aparelho estimular só os extensores. Agora, há doze anos sem tocar e aos 72 anos de idade... já viu o tamanho do trabalho, né? No dia 23 de novembro, também na Sala SP, se tudo der certo, o Roberto Minczuk vai reger a Orquestra Sinfônica Brasileira e eu tocarei o Concerto para a Mão Esquerda, de Maurice Ravel.

Por isso o nervosismo?

Ah, sim. Além de treinar muito, eu preciso estar emocionalmente preparado. O que me move, além do sonho de voltar a tocar, é saber que a exposição desse concerto na mídia pode ajudar gente que tem deficiências muito mais graves do que a minha. E inspirar as pessoas é algo que me motiva muito.

A fisioterapia dói?

Não. Na minha vida, cheguei a ter dores tão fortes, que, se eu falasse com você durante três minutos, começava a chorar. Quando tive a lesão cerebral, naquele assalto na Bulgária em que me acertaram a cabeça com uma barra de ferro (em 1995), tive de fazer uma reprogramação cerebral para devolver os movimentos ao meu braço direito. E voltei muito bem, fazendo concertos ótimos. Só que eu podia tocar, podia dormir, mas não podia... falar. O espasmo nos músculos quando eu falava provocava dores indescritíveis na mão. Meus médicos, Dr. Young, um dos principais conselheiros do Christopher Reeve (que ficou tetraplégico ao cair de um cavalo, também em 1995), Dr. Green e Dr. Brucker, chegaram à conclusão de que algumas células cerebrais responsáveis pela fala acabaram tomando o lugar das que permitiam os movimentos. Daí os espasmos. Então, os médicos me disseram: "Para voltar a ter qualidade de vida, teremos de cortar os nervos da sua mão. Só que você nunca mais poderá tocar piano". Resisti à operação durante dois anos. Quinze minutos antes de entrar no palco para me apresentar com a Filarmônica de Londres, telefonei para eles e falei: "Este será o último concerto da minha vida". Eles cortaram o nervo. Quer dizer, o espasmo continua, mas a dor não chega ao cérebro.

Muita gente diz que o senhor usa a deficiência para gerar mídia. O que acha disso?

Já ouvi muito essa conversa. Nunca usei em benefício próprio. Acho que, se você pode dar um exemplo para as pessoas... por que não fazer isso?

E o terceiro concerto?

Vai se chamar Back to Bach. Serão os Concertos de Brandemburgo no auditório do Metropolitan Museum, em NY. É um espaço para 800 pessoas, onde eu vou reger a orquestra de St. Luke's - que é excelente, um dos melhores conjuntos de câmara do mundo.

Como está o projeto da Bachiana Filarmônica Sesi? Ele atende quantas crianças hoje?

Quatro mil, espalhadas em dez núcleos. São quatro anos de trabalho. Mas, se você me perguntar se eu estou feliz... ainda não. É 10% do caminho que eu quero trilhar. Mas comemoro, claro, os talentos que a gente já descobriu e o quanto a música ajuda essas crianças. O pulo do gato é o método que desenvolvemos durante dois anos com o Ênio Antunes. São 64 aulas para professores que já tocam violino, viola, violoncelo ou contrabaixo. Eles é que passam adiante o método, ensinando meninas e meninos. Para o professor é complicado, ele é que sofre. Mas os garotos aprendem de forma lúdica, por intermédio de figuras. É como andar de bicicleta, o aluno nem percebe que está aprendendo. Eu não tenho dúvidas de que é um dos melhores métodos do mundo.

Por associação de imagens?

Exato. Eu mesmo fiz o curso... para me convencer de que funcionava. Tive de aprender a segurar um violino, segui todos os passos, como se fosse uma criança de 6 anos. No final, mandei imprimir o método.

Quais os próximos passos?

Cadastrar os responsáveis pela cultura e encontrar professores em todos os municípios do Brasil. Cidade por cidade. Já estamos fazendo isso no estado de São Paulo. O duro é ver que, em muitos lugares, não existe nenhuma estrutura. Feito isso, elegemos um professor por município, que levará o método para as crianças. Esse professor será monitorado online - e faremos visitas regulares. O objetivo é encontrar 21 garotos e garotas de talento em cada cidade, que formarão uma orquestra de cordas. Qual o grande problema brasileiro? É que você encontra muitas fanfarras, que são conjuntos baseados em metais. Só que, em uma orquestra de cem elementos, 60% são instrumentistas de cordas. É o contrário. E aí é que está o desafio.

Então, aquela sua meta de criar mil orquestras de cordas em todo o País ainda está de pé?

Claro. Em dez anos, teremos as mil orquestras. E a palavra para isso é motivação. Motivar os políticos, fazê-los compreender que a arte é importante.

E o que é mais fácil: ensinar música para as crianças ou convencer os políticos?

Infelizmente, é mais fácil ensinar os garotos... Por isso o Villa-Lobos lutou como louco durante os anos 40. Mas, no dia 24 de dezembro deste ano, se Deus quiser, eu vou subir num monumento brasileiro - talvez o Cristo Redentor - e, sem nenhuma orquestra à minha frente, vou reger Jesus Alegria dos Homens, de Bach, para pelo menos 60 orquestras formadas por este nosso projeto. Cada uma delas, onde quer que esteja, me verá pela televisão e seguirá os meus movimentos. Na hora em que isso acontecer, tenho certeza de que haverá centenas de prefeitos interessados no projeto.

É um ideal? Não tem apelo financeiro nenhum?

Nenhum. Eu recebo um salário da Fundação Bachiana e é só. O resto é ideal. Se eu tivesse 20 anos de idade, talvez fosse o contrário, mas hoje não. The time is running para mim (risos).

Alguma prefeitura ajuda?

Nenhuma. É matando um leão por dia. E eu não quero oferecer um projeto musical com custo elevado a um prefeito que acabou de assumir, porque ele não vai aceitar. O que a gente pede às prefeituras é que nos deixe eleger uma pessoa para fazer o curso, para aprender o método. Depois, cada prefeitura escolhe uma escola de tempo integral e nós mantemos esse profissional lá. Nosso cálculo é o seguinte: passar uma maquiagem musical em todas as crianças que participam do projeto. Ou seja, elas terão apreço pela música, poderão gostar a ponto de assistir a concertos. Desse universo, um grupo muito menor poderá ter a música como hobby; um grupo ainda menor poderá tocar profissionalmente; e, por fim, restará o grupo quase impossível, que é o dos diamantes a serem lapidado. Ou seja, num grupo inicial de, digamos, mil garotos, estamos falando daqueles 21 de que a gente conversou.

E o que é preciso para se tornar esse diamante?

Disciplina. Nosso lema é "disciplina de atleta e alma de poeta". Até o final de março, queremos estar em 60 ou 70 cidades. Hoje, nos países asiáticos, a música já ultrapassou o esporte como ferramenta de inclusão. Mas não adianta inclusão sem a luz no fim do túnel, a luz da profissionalização. Quando a gente descobre um talento, ele se torna uma referência para a comunidade onde vive.

O senhor citou Villa-Lobos como exemplo, mas ele recebia verba do governo federal...

E quem sou eu para me comparar ao Villa-Lobos. Olha, se ele fosse vivo, estaria fazendo isso com um pé nas costas. Já eu vou ter de dar um duro danado, vou ter de lutar feito um condenado (risos). Mas sabe por que ele não conseguiu unir o Brasil pela música? Porque não havia televisão nem internet. Meu sonho é o do Villa-Lobos. E quer saber uma coincidência incrível? Eu lancei a ideia das mil orquestras no dia 12 de agosto de 2011. Estava em Itapetininga, dando uma entrevista coletiva, e o Ênio me avisou que, em mais um ano, o método de ensino estaria pronto. De repente, no meio do público, uma senhora se levantou e disse: "Maestro, eu estou arrepiada. Nesta mesma mesa em que o senhor está, o Villa-Lobos disse que queria criar corais em todo o País. Foi no dia 11 de agosto de 1931". Ou seja, 80 anos depois, a ideia voltava a se cristalizar. E há uma frase na carta que o Villa-Lobos escreveu naquele dia que demonstra bem o espírito do nosso projeto: (João Carlos Martins lê o xerox do documento) "Não será um público inculto que irá julgar as artes; as artes é que mostram a cultura de um povo". /DANIEL JAPIASSU

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