Paulo Giandalia/AE
Paulo Giandalia/AE

''Quero ficar aqui. Sou feliz no São Paulo''

Aos 18 anos, Lucas do São Paulo fala sobre propostas e sua trajetória.

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2011 | 00h00

Encontros com o Estadão

Na mesma semana em que recebeu uma proposta de 25 milhões de euros da Inter de Milão, Lucas aceitou conversar com a coluna no centro de treinamento do São Paulo. Considerado um dos atletas mais valiosos do futebol brasileiro, o jovem craque procura manter os pés no chão. Ou melhor, no Tricolor. "Sonho em jogar em um grande clube da Europa, mas sou muito novo ainda. Quero ficar aqui. Sou feliz no São Paulo", afirma. Não é para menos. Seu contrato com o clube - que vai até 2015- tem uma multa rescisória de cerca de R$180 milhões.

Nova promessa da Seleção Brasileira, ao lado de Neymar e Ganso, o meia-atacante mostra que tem personalidade forte. "A última palavra é sempre minha", diz, sobre as decisões profissionais. "Confio no meu talento. Antes de ir para Europa quero dar alegria aos torcedores e à diretoria que apostou em mim", enfatiza.

As ações maduras do jovem não se restringem ao futebol. Se o universo que cerca alguns jogadores é composto de mulheres, carrões e badalações, Lucas parece ser uma exceção a regra. Com apenas 18 anos, o jogador esboça um respiro nas extravagancias cometidas frequentemente por jovens craques brasileiros. "Sou um cara tranquilo", diz. "Minha rotina é vir para o clube, jantar com a minha família e ás vezes sair com amigos. Ir ao shopping ou a uma churrascaria".

A fama de bom-moço não passa despercebida aos olhos dos colegas de time. Rogério Ceni, considerado "um exemplo" para Lucas, foi um dos primeiros a chamar a atenção para a modéstia do novo ídolo tricolor, que se autodefine como "muito tímido" e nada "gastão". "Não tenho essa fissura por carros. Até curto, mas não cometo a loucura de gastar tanto dinheiro em um carro". Nenhum sonho de consumo? "Ah... uma casa, em condomínio fechado com quadra de futsal, que é uma das minhas paixões".

As movimentações financeiras de Lucas são feitas pelo pai, Jorge. É ele quem administra todo dinheiro do filho. "Eu só ganho uma mesada para comprar uma roupa, um tênis, só. O resto meu pai investe", relata o jogador - vestindo uma camiseta Armani - e que, entre um clique e outro, pede ao fotógrafo da coluna para enviar as imagens para seu e-mail.

Não é só na ostentação que Lucas se difere do que se diz de alguns futebolistas. O jogador também é avesso a noitadas, bebidas e odeia o cheiro de cigarro. "Sou uma pessoa do dia", diz.

A carreira de Lucas, como de todo craque, começou cedo. Na Zona Sul de SP, desde menino, optou por morar nos centros de treinamento, longe da família. Agora, com a idade que poderia ganhar sua independência, quer mais é ficar perto dos pais: "não existe melhor comida do que a da minha mãe", fala, rindo. Leia trechos da conversa.

Seu contrato com o São Paulo vai até 2015. Não tem planos de ir para Europa antes?

Quero ficar aqui. Sou muito feliz no São Paulo. É o clube que me projetou no futebol, que apostou no meu talento. E gosto do meu país. Sou muito novo ainda. Quero continuar muito tempo aqui perto dos meus amigos e da minha família.

Mas a Inter de Milão fez uma proposta recentemente...

Fui pego de surpresa. Vi pela internet. Eu fiquei feliz, né? É legal que grandes clubes tenham interesse pelo meu futebol. Mostra que estou fazendo meu trabalho direito. Claro, todo jogador sonha em jogar em um grande clube da Europa. Eu também, mas não agora, só mais para frente.

Existe algum clube que está no objetivo da sua carreira?

Sonho em jogar em um grande clube europeu. Hoje todo mundo fala no Barcelona. Seria um sonho jogar lá. Mas existem outros como o Real Madrid, Inter de Milão, Milan... Mas antes de ir para Europa quero dar alegria aos torcedores e a diretoria que apostou em mim.

Suas decisões profissionais você toma sozinho ou tem orientação do seu empresário e da sua família?

Meus pais me ajudam, mas a palavra final é sempre minha. O empresário está ali só para dar um apoio, ajudar em algo, negociar uma renovação de contrato. No fim sou eu quem decide.

E o seu dinheiro você mesmo que administra?

Meu pai cuida de tudo. Eu só fico com uma mesada para gastar no shopping, comprar uma roupa, um tênis, (risos)... Eu não sou muito gastão, não. Sou bem tranquilo. Meu pai aplica tudo.

Não tem nenhum sonho de consumo: casa, moto, carrão?

Ah... meu sonho é uma casa em condomínio fechado com uma quadra de futsal, que é uma das minhas paixões. Não tenho essa fissura por carro. Eu até curto, mas não cometo a loucura de gastar tanto dinheiro em um carro. Prefiro gastar em bens que me darão retorno depois.

Você é religioso?

Sou católico. Tenho muita fé. Rezo todos os dias e agradeço.

E como lida com o assédio feminino? Existem muitas "Marias Chuteiras" no seu pé?

Ás vezes tem, né (risos)? Aparece algumas são-paulinas roxas (risos). É complicado falar que tem maria chuteira, mas também não posso negar. Pessoas que antigamente não me davam bola e que agora correm atrás. Mas tem que saber lidar com isso. Estou solteiro faz pouco tempo. Tive dois namoros. Um durou três anos e esse último, dois meses. Mas não deu certo. Bola pra frente. Sou muito novo ainda.

É verdade que você não é muito chegado em noitada, badalação?

Não curto muito balada. Sou mais do dia mesmo. Não gosto de noitada, gosto de dormir (risos). Não bebo, não fumo. Sou caseiro, tranquilo, sossegado. Odeio cheiro de cigarro.

Você tem 18 anos, está no começo da sua carreira profissional e já vive nos holofotes. Como lida com o assédio, pressão e a fama? Não caiu minha ficha ainda. Em menos de um ano muita coisa mudou na minha vida. Veio a Seleção Sub-20, a Seleção e ser titular no São Paulo. Saio na rua como se fosse um desconhecido, porque nem lembro que sou jogador. As pessoas vem falar comigo e eu sou muito tímido (risos), mas atendo todo mundo numa boa. Gosto do carinho e de ser reconhecido pelo que eu faço.

É verdade que você foi muito estudioso e bom aluno na escola? Nem tanto assim (risos). Na verdade sempre fui bom aluno. Levava a escola a sério. Não era "nerd", de ficar 24 horas estudando, mas era aplicado, me dedicava. Tudo que eu faço, gosto de fazer bem feito. Não faço nada pela metade. E isso acaba sendo positivo pra mim.

Com essa disciplina e comprometimento, não sente que está perdendo parte da sua juventude?Consigo equilibrar. Perdi minha infância muito cedo. Fui morar no CT de Cotia e foi um período difícil. É complicado ficar longe dos pais. A gente sente saudade. E hoje eu voltei a morar com a minha família. Quando tenho um tempo, saio com meus amigos e procuro aproveitar.

Como foi sua experiência no futebol de base?

Graças a deus cheguei na base do SPFC, que é uma das melhores do Brasil. Aproveitei muito o período que eu fiquei em Cotia. Eles se preocupam com a formação do jogador. Tem professores de reforço no Centro de Treinamento. Eles levam e pegam na escola.

A maioria dos seus amigos jogavam com você na base. Como é fazer sucesso no profissional e eles continuarem lá?

Futebol é complicado. Queria que todos meus amigos tivessem aqui comigo. Mas nem todos conseguem. Eu continuo torcendo por eles. Vou lá visitar, assisto alguns treinos e jogos do campeonato da base.

Você passou por um treinamento para ficar mais forte.

É para dar uma estabilidade maior. Nada exagerado. A ideia é ficar mais firme para aguentar o tranco dos zagueiros. Mas sem deixar atrapalhar minha velocidade.

Como é, aos 18 anos, estar na Seleção Brasileira?

Uma responsabilidade grande e um passo enorme na carreira. Todo jogador sonha em chegar na seleção. Quando estou lá, cantando o hino, lembro da minha mãe. Ela não entende muito de futebol, mas quando é a Seleção, é bem patriota (risos).

E o que aconteceu na Copa América?

Foi chato, né? A pior parte do futebol é perder. Mas acontece. A seleção está em um período de reformulação com jogadores novos: eu, Neymar o Ganso. Leva um tempo até se adaptar e fechar um grupo bom.

Um dos problemas apontados nos jogadores brasileiros é a falta de estabilidade emocional. Você concorda?

Ás vezes acontece isso sim. Jogador toma um gol e não está com o psicológico legal para reagir. Precisa trabalhar isso aí. Ficar calmo e partir pra cima. Porque futebol é assim: se faz gol, beleza, você é bom. Se não faz e o time perde, já não presta mais. Então, tem que ter a cabeça boa. E na Seleção a pressão é ainda maior.

Jogadores brasileiros estão sendo vítimas de racismo periodicamente. O que pensa disso? Hoje em dia não tem mais espaço para o racismo. Está mais que provado que todo mundo é igual, independentemente da cor. Acredito que quem comete essas ações tem que ser punido. Eu sou feliz com a minha cor. E se um dia eu sofrer esse ato, vou relevar.

E a história do apelido de Marcelinho (referência ao jogador Marcelinho Carioca), te incomodou?

Desde os sete anos tinha esse apelido. Era normal. Mas quando eu comecei a aparecer no profissional, queria ter minha identidade. Usar o nome de batismo que meus pais me deram. Minha mãe me pediu isso. Comecei a pensar que eu ia ser famoso com o nome de outra pessoa.

Como é a sua rotina?

Fico bastante aqui no clube. Acordo, venho para o treino, depois volto para jantar em casa. Ás vezes eu saio com os amigos, vou ao shopping, churrascarias e restaurantes. E quando tenho tempo, visto meus familiares no bairro onde eu cresci na Zona Sul. E é isso. /MARILIA NEUSTEIN

Colaboração

Débora Bergamasco debora.bergamasco@grupoestado.com.br

Marilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

Paula Bonelli paula.bonelli@grupoestado.com.br

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