Querida Clara, amado Robert

Sting e sua mulher Trudie Styler interpretam as cartas trocadas entre o casal Schumann

Allan Kozinn, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2010 | 00h00

No reino da música clássica, os chamados projetos "crossover" - aqueles em que vários estilos são combinados - em geral envolvem cantores de ópera ao lado de instrumentistas caros, que tocam jazz, pop ou música folk, mas não tão bem como os músicos especializados nesses estilos. Mas, desde o fim da década de 80, esse tipo de parceria seguiu em outras direções.

Stewart Copeland e Roger Waters escreveram óperas; Paul McCartney compôs uma série de músicas para piano, coros e orquestra; Elvis Costello criou um balé; e Sting - que foi colega de Copeland na banda Police - realizou diversos projetos, entre eles o Songs from Labyrinth, CD de 2006 devotado às canções e peças para alaúde de John Dowland e interpretadas com a liberdade e a tonalidade vocal de um cantor pop.

Você pode facilmente criticá-lo por isso, mas em entrevistas Sting deixou claro que está consciente das suas deficiências. E falou das canções de Dowland e de outras obras clássicas com tal paixão, mostrando que ele ama essas músicas e quer que as pessoas as ouçam.

Isso também contribuiu, suponho, para a concepção de Twin Spirits, um híbrido de peça teatral e concerto, com duração de 100 minutos, que Sting e sua mulher, a atriz Trudie Styler, estrearam no dia 30 Allen Room. A peça, escrita e dirigida por John Caird e encenada pela primeira vez no Covent Garden em 2005, enfoca o romance entre Robert e Clara Schumann. Uma encenação de 2007, também no Covent Garden, foi lançada pela DVD Opus Arte.

Sting não tentou cantar as "lieder" de Schumann nesta produção; a música vocal está por conta de um barítono e uma soprano. Em vez disso, o cantor faz o papel do compositor, lendo as cartas que ele escreveu para Clara Wieck, durante o longo período de noivado, e o diário conjunto que o casal começou quando se casou em 1840. Trudie Styler interpreta Clara e lê a correspondência dela.

Não é exigida muita interpretação. Sting e a mulher permanecem sentados durante a maior parte da peça, mas imprimem na leitura dessas cartas uma grande dose de emoção; divertidas no caso das primeiras, mas também excêntricas e brincalhonas; e comoventes quando Clara fala sobre a loucura, a internação e a morte de Schumann.

Um narrador, David Strathairn, faz uma cronologia e mostra o contexto em detalhes, sentado numa cadeira tipo trono, numa plataforma atrás de Sting, Trudie e os seis músicos que interpretam músicas de Robert e Clara Schumann, com toques de Chopin e Mozart, entre as seções de leitura das cartas.

O roteiro de John Caird é eficiente e com ritmo rápido, embora, mais no final, quando a correspondência de Schumann diminui à medida que a doença toma conta dele, o texto se transfira para a narrativa e a parte musical fique mais longa.

Teclado. O preâmbulo do Carnaval, apresentado como introdução ao diálogo, começa como uma peça de Schumann para teclado. Mas o pianista Jeremy Denk toca apenas alguns compassos antes de a peça se transformar num trio, com o violinista Joshua Bell e a celista Nina Kotova unindo-se a ele.

Um outro movimento, a Marcha dos Companheiros de Davi contra os Filisteus, é mais dramático, com passagens que se alternam entre, de um lado, Jeremy Denk e Joshua Bell, e do outro Nina Kotova e mais uma pianista, Natasha Paremski. A ideia, claramente, é fazer um intercâmbio entre os pares masculino e feminino de músicos.

Similarmente, o Traumerei (Sonho) da sua obra Kinderszenen (Cenas infantis) foi transformado de uma peça solo para piano num diálogo entre Joshua Bell e Natasha Paremski. Um arranjo inócuo, mas os dois pianistas harmonizam o som e o fraseado muito bem. Mas na Marcha a tensão da peça escrita para piano fica sacrificada na sua tradução. O barítono Nathan Gunn, apoiado por Jeremy Denk ao piano, canta maravilhosamente as três canções do Dichterliebe (Amor de Poeta), no final do espetáculo, e também faz uma bela leitura introspectiva do Stille Liebe de Zwolf Gedichte (Doze Poemas).

A soprano Camille Zamora, acompanhada por Natasha Paremski, faz uma leitura dramática perfeita do Er ist gekommen in Sturm und Regen. Camille e Nathan Gunn interpretam elegantemente o "La ci darem la mano" do Don Giovanni de Mozart (incluída porque Robert Schumann deu a Clara uma cópia da partitura como presente).

Um trecho das variações de Chopin de "La ci darem" foi incluído também, servindo como um outro diálogo pianístico entre Jeremy Denk e Natasha Paremski. Com Nina Kotova tocando a parte da orquestra reduzida a uma linha, Natasha Paremski interpreta maravilhosamente o "Romanze" do Concerto nº1 para Piano de Clara Schumann. E Jeremy Bell imprime sua característica sonoridade delicada no segundo dos Romances Opus 24 de Schumann. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

QUEM É

STING

CANTOR, MÚSICO E PRODUTOR

Também ator, multi-instrumentista e ativista, Gordon Matthew Sumner, dono de 16 Grammys, nasceu em Wallsend, Inglaterra, em 2 de outubro de 1951. Antes da carreira-solo, fez sucesso como cantor, compositor e baixista da banda de The Police.

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