Renato Rocha Miranda/ Divulgação
Renato Rocha Miranda/ Divulgação

'Queria, sim, criar um herói nacional', diz roteirista de 'O Brado Retumbante'

Euclydes Marinho fala da dificuldade de escrever sobre política e sobre os bastidores de sua minissérie

DANIEL JAPIASSU, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2012 | 03h07

A primeira semana foi de sucesso, apesar do horário ingrato. A minissérie O Brado Retumbante tem entrado no ar depois das 23h... Mas Euclydes Marinho, autor da trama, está satisfeito. "Queria mudar de ares, acho que me cansei um pouco de escrever sobre os mesmos temas, as mesmas histórias".

Às vésperas de completar 62 anos, 33 dedicados aos roteiros, Marinho ostenta no currículo alguns ícones da telinha, como Malu Mulher, o juvenil Armação Ilimitada, Desejos de Mulher, Confissões de Adolescente, Andando nas Nuvens, Capitu e Mico Preto - entre muitos outros.

 

Agora, enveredou pela política, "que não é a minha praia", enfatiza. E gostou. "Queria que o Paulo Ventura fosse uma inspiração, um Capitão Nascimento de terno e gravata", diz, entre risos.

 

Pelo telefone, de sua casa no Rio, Marinho conversou com a coluna sobre os motivos que o levaram a escrever O Brado, a equipe que o ajudou no roteiro, a obsessão pelos detalhes e a troca de 70% dos nomes dos personagens - "para não dar problema com os políticos reais", conta. Se o Brasil tem jeito? "Olha, é difícil".

 

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

 

A Globo gostou do projeto logo de cara?

 

Gostou, mas foi um processo difícil. A direção estava muito cautelosa. Queria ter certeza de onde estava pisando: se era uma oposição ao governo, se era sátira etc. A partir daí, fomos encontrando o tom certo para a série. Acho que consegui passar incólume pelos obstáculos. Porque não poderia haver alusão a políticos reais - embora algumas características sejam inerentes à classe política. As negociações com a Globo foram bem cansativas.

 

Mas nada que rivalize com os tempos em que você enfrentava a censura, né?

 

(risos) Não, claro que não! Se bem que... é engraçado dizer isso, porque havia, no final dos anos 70, início dos 80, um gostinho bom também, sabe? (risos) "O que é que nós vamos fazer para driblar a censura?" (risos). Nem sempre a gente conseguia. Por exemplo: no primeiro episódio de Ciranda Cirandinha, meu primeiro trabalho na TV (em 1978), já tive de ir a Brasília. Fomos eu e o Daniel Filho, que morria de medo de avião. A negociação foi cena a cena, palavra a palavra. Na época, a gente era obrigado a conviver com um censor interno - o coronel não-sei-das-quantas. Ele ficava numa salinha lá da Globo. Também enfrentei problemas com Malu Mulher.

 

O texto era bastante forte.

 

Na época, sim. Hoje, seria considerado uma bobagem (risos). Mas era terrível assistir aos capítulos na companhia do censor. A gente ficava pensando: "Meu Deus, ele vai descobrir tudo!" (risos)

 

A política, hoje, está mais para cômica ou para trágica?

 

Difícil... é uma palhaçada, mas é uma palhaçada trágica, porque reflete no País. Causa desgaste, acaba com a autoestima. A corrupção é extremamente trágica para o Brasil. Olha, uma coisa interessante: quando a gente estava trabalhando no roteiro de O Brado Retumbante (eu, Nelson Motta, Guilherme Fiuza e Denise Bandeira), todo dia era um problema, porque a realidade supera a ficção. Sem falar nos nomes dos políticos, que parecem personagens prontos.

 

 

Quanto tempo vocês levaram para finalizar o roteiro?

 

Oito meses. Foi o trabalho mais lento que eu já fiz, porque havia muita preocupação. A Globo me botou milhões de grilos na cabeça: "Não pode isso, não pode aquilo", "cuidado para não fazer alusões", "esse e aquele temas são complicados". Tivemos de trocar vários nomes de personagens, várias vezes. Porque qualquer político real que tivesse um nome parecido podia criar problema. A Globo fez uma pesquisa minuciosa nesse sentido. No final, 70% dos nomes tiveram de ser trocados.

 

Não há tradição no Brasil de se falar sobre política na TV, né?

 

Com certeza. Nos Estados Unidos eles fazem séries como essa brincando. O presidente é personagem onipresente na TV e no cinema. Todo grande estúdio tem um salão oval no seu depósito de cenários (risos).

 

Essas dificuldades mexeram com seus conceitos sobre a democracia brasileira, Euclydes?

 

Ah, sem dúvida. A própria luta para aprovar o projeto foi encarada como uma luta em defesa da democracia. Não podemos ter medo, vergonha de falar sobre esse assunto. Ele é caro ao Brasil, permeia a nossa vida.

 

Porque você optou por um presidente de ocasião?

 

Acho que me senti mais livre dessa forma. Porque o Paulo Ventura é um político que está desanimado com a política. Pretende abandonar a carreira ao final do mandato e voltar à vida normal. Ele é advogado. Aí, graças a uma armação, acaba no Planalto. Alçado à presidência da Câmara, ele se torna líder da nação quando o presidente eleito e seu vice morrem em um acidente de helicóptero. Achei que seria mais interessante se fosse assim, eu teria mais liberdade de agir se ele não tivesse uma carreira como político, se não fosse um profissional da política.

 

O Paulo Ventura é uma válvula de escape para o espectador?

 

Um dos objetivos sempre foi que os telespectadores se projetassem no Paulo Ventura. A tentativa de criar um herói nacional, um Capitão Nascimento de terno e gravata (risos).

 

Você gosta de Tropa de Elite?

 

Muito. Assisti várias vezes. Os dois filmes. E até passou pela minha cabeça chamar o Wagner Moura para ser o Paulo Ventura. Sou apaixonado pelo Capitão Nascimento. Quando ele esbofeteia o deputado, no segundo filme... é como um gol da Seleção Brasileira! (risos) Mas houve, sim, essa vontade de fazer do Paulo um herói. Porque temos tão poucos heróis na nossa mitologia, né?

 

Herdeiros de Macunaíma.

 

(risos) É isso mesmo. O herói da preguiça.

 

Mas você não acha que a escolha do Wagner Moura, por exemplo, poderia diminuir o impacto do Paulo Ventura? Afinal, o Wagner "é" o Capitão Nascimento!

 

(risos) Sim, a escolha de um galã da TV poderia suscitar na mente das pessoas os personagens prévios desse ator. Por isso decidimos procurar alguém menos conhecido do público. Não podíamos correr o risco de ter um ator que fosse maior que o papel. Até porque o Paulo Ventura não é um político conhecido... e essa é uma característica fundamental do personagem. Creio que fizemos a escolha certa do elenco nesse sentido.

 

 

Quais são seus personagens favoritos na trama?

 

Além do próprio Paulo Ventura (muito bem feito pelo Domingos Montagner), meus preferidos são a mãe do Paulo (Julieta, feita por Maria do Carmo Soares) e o tio (Beijo, vivido por Otávio Augusto), que seria, inicialmente, irmão dele. E fiquei apaixonado pela Maria Fernanda Candido, que fez um trabalho fantástico. Aliás, o casal tem uma química muito legal, é inteligente, interessante. Posso dizer que me encantei com o elenco inteiro. E senti, em cada um deles, a alegria de estar participando do projeto.

 

Por que um filho transexual para o Paulo Ventura? Ele já não tem problemas demais?

 

Eu queria transformar a vida do Paulo num inferno (risos). Em todos os sentidos. Então, ele tem uma mãe que o enlouquece, o tio que quer levar vantagem, a filha bipolar, está em crise conjugal e separado da mulher (que o botou pra fora de casa). E ele recebe a notícia de que vai ser presidente num apart-hotel, bêbado. Quanto ao filho transexual, o Paulo meio que expulsou o garoto de casa achando que ele era homossexual. Na verdade, era uma mulher em corpo de homem. É outro drama. O objetivo é dramático, criar complicações para a vida dele. E, no meio de tudo isso, o Paulo precisa governar o País... tarefa para a qual tampouco está preparado.

 

O fato de a maior parte da ação se passar no Rio, não em Brasília, pode ser encarado como uma homenagem à antiga capital?

 

Talvez tenha sido inconsciente. Sou carioca e ainda peguei o Rio de Janeiro como distrito federal. Mas o que mais pesou nessa decisão é que eu acho os interiores de Brasília feios. O exterior é bonito, o traço do Niemeyer, o Planalto... mas os interiores não são bonitos. E eu queria um pouco mais de pompa, um palácio com cara de palácio. Por outro lado, trazer para o Rio ajudou a descolar a ficção da realidade.

 

O roteiro foi trabalhado a oito mãos. Conte como era o dia a dia dessa equipe.

 

Fui casado com a Denise Bandeira nos anos 80. E continuamos muito amigos. A Denise tem uma formação muito sólida como socióloga. Foi aluna de Fernando Henrique e Darcy Ribeiro. Ajudou muitíssimo, porque é muito crítica, informada, politizada. O Nelson Motta é um velho amigo. Brother, mesmo, embora tenhamos trabalhado pouco juntos - fizemos só o Armação Ilimitada. Ele tem um senso de humor e de observação muito peculiar. E escreve muito bem. Já o Guilherme foi uma descoberta pra mim. Eu tinha consciência de que precisava de um jornalista político na equipe, alguém com experiência na cobertura do assunto. Já havia lido um livro do Guilherme (Meu Nome não é Johnny); depois, li o que ele escreveu sobre o Plano Real (3.000 Dias no Bunker). Pensei: "Esse cara tem uma veia na ficção, uma narrativa ficcional". Apostei nele e foi uma aposta mais do que vitoriosa. A gente se reunia, e cada um ia pra sua casa, escrever. No dia seguinte, voltávamos a nos ver para conversar sobre o que havia sido produzido. Costumo dizer que foi um "trabalho realmente muito trabalhoso" (risos). O mais difícil nestes 33 anos em que escrevo roteiros.

 

Mas era divertido?

 

Muitíssimo. A gente ria uma barbaridade. E se indignava também (risos). Uma bela experiência. Já estou com saudade.

 

E aí o texto encontrou Ricardo Waddington...

 

Eu que fui atrás do Ricardo. Assim que a Globo aprovou o projeto, fiz questão de tê-lo na equipe. Ele não pôde dirigir, porque já estava escalado para a próxima novela das oito... quer dizer, das nove, né? Sou da época da novela das oito (risos). Mas o fato é que o Ricardo foi fundamental. Porque ele luta pela qualidade, tem muito cuidado artístico. Com ele não tem mesquinharia, o Ricardo não faz economia. A gente trabalhou com os melhores equipamentos, os melhores profissionais. O Ricardo foi o diretor de núcleo (que seria o produtor). E escalou para dirigir a minissérie o Gustavo Fernandes. Excelente rapaz, dedicadíssimo, com muita personalidade. A melhor coisa que eu fiz foi juntar essa equipe, sabe? Só tenho a agradecer por tudo o que aconteceu. Espero ter outros projetos difíceis como este pela frente... (risos)

 

Você é famoso por ser obsessivo. Como foi na hora da edição do material gravado?

 

Sou mesmo obsessivo. E o Ricardo também, então casou direitinho (risos). Costumo dizer que tenho um pé na direção, embora não seja diretor. Mas gosto muito de todo o processo. Não sou um mero roteirista, tenho ambições outras. Dou palpite em tudo (risos), até em figurino. Sou realmente detalhista.

 

Algum de seus trabalhos no passado deu subsídio para esta minissérie?

 

Nada especificamente, mas... tudo! (risos) Quando me propus fazer esse projeto, o lado humano era essencial. Porque não acredito que uma série apenas política caísse nas graças do público. Minha seara são as relações humanas. As pessoas gostam do lado privado das figuras públicas. Do tipo: "O que será que rola entre quatro paredes quando o presidente está com a família?" Existe muita curiosidade. Por isso, acho que meus trabalhos anteriores podem ter ajudado, sim.

 

Você começou a vida como fotógrafo. Na hora das filmagens, também deu pitaco?

 

Eu me controlei (risos). Botei uma mordaça (risos). Porque, no set, o diretor é soberano. Eu entrava mudo e saía calado. Mas, depois de gravado... aí eu dei palpite mesmo. Fiz exigências, pedi regravação de cenas. E tive total apoio do Ricardo e do Gustavo.

 

O que achou da prova de redação da Fuvest deste ano, cuja questão-base era sobre política: ela é indispensável ou estaria superada?

 

Tudo é política. Até a negação da política é um ato político. Não dá para dissociar. A política faz parte da nossa vida. Participando ou não, estamos sujeitos a essa atividade. Interessados ou não, não há como escapar da política.

 

O Brasil tem jeito?

 

Depende de pessoas como Paulo Ventura (risos). O Brasil tem jeito, mas é difícil, porque a cultura da esculhambação, de meter a mão, é cada vez maior. É muito difícil. Fácil é resolver na ficção (risos). No meu país eu consigo mudar as coisas.

 

Qual é o seu brado retumbante pessoal?

 

Cheeeeega! (risos) Você não acha? Basta, já deu. Vamos partir pra outra, vamos tentar uma vida melhor, um país melhor. Chega de tanta esculhambação.

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