Andy Kropa/AP
Andy Kropa/AP

Quentin Tarantino: 'O cinema me permite reescrever a história'

Quentin Tarantino fala sobre política, racismo e conta que correu para terminar Django Livre, de olho em uma indicação ao Oscar

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2013 | 02h08

Foi na mesma sexta-feira em que os EUA foram atropelados pela chacina de Sandy Hook. Um atirador solitário havia disparado numa escola de Newtown, Connecticut, matando 26 pessoas, incluindo 20 crianças. O próprio Quentin Tarantino, acostumado a lidar com a violência em seus filmes, estava atarantado. "Uma coisa é a violência dos filmes, outra, a da realidade", comentou. A estreia de Django Livre - Django Unchained - seria adiada por uns dias pela distribuidora Sony, porque não ficaria bem encher as salas dos EUA (ainda traumatizados) com a história de um ex-escravo que promove um banho de sangue para libertar a mulher, escravizada por um rico senhor. No Brasil, Django Livre estreia dia 18. O herói, Jamie Foxx, ganha ajuda de um dentista que percorre o Oeste num consultório itinerante, mais um grande papel para o ator Christoph Waltz. A estreia norte-americana se realizou ainda em 2012. Se há coisa que Tarantino não negou, na entrevista num hotel de luxo, em Nova York, é que lançava o filme de olho no Oscar.

Filmes de guerra, de sabre, spaghetti westerns. Você é louco por cinema de gênero - seu Django é consequência do sucesso de Bastardos Inglórios?

Sim e não. A ideia de fazer um spaghetti western é anterior, me acompanha há mais de dez anos e talvez tenha me acompanhado desde sempre, mas começou a nascer efetivamente há uns sete ou oito anos. Foi precedida pelo meu desejo de escrever um livro sobre o outro Sergio (Corbucci). Revi seus filmes, fiz anotações. O meu Django começou a tomar forma. E já nasceu um ex-escravo. Estava num hotel no Japão, promovendo Bastardos Inglórios, quando a cena inicial me veio inteira. A fila de escravos, a explosão de violência, até o cavalo do dr. Schultz. Falei com os produtores e, neste sentido, sim, o filme foi consequência do sucesso de Bastardos. Eles toparam na hora.

Seu ex-escravo que pega em armas chega às telas com o Lincoln de Steven Spielberg e Barack Obama reeleito na Casa Branca. Há aí a intenção de fazer um comentário social?

Você teria de perguntar a Steve (Spielberg). De minha parte teria feito o filme até com (Mitt) Romney na presidência. Mas acho interessante, deve ser uma tendência de momento, que filmes grandes voltem às origens e mostrem como a América libertou seus escravos. Esse país sofreu muito tempo com o racismo para que a história não seja contada. Se você conversar com Jamie (Foxx), ele vai lhe dizer que o racismo permanece, e ele é um astro, tem fama, ganhou o Oscar.

Gosto do filme, mas talvez menos do que de Bastardos Inglórios, embora reconheça que são de grandezas diferentes. E Django, que lhe dá nome, não é a alma do filme. É o personagem de Christoph Waltz, o dr. King Schultz. O que pensa disso?

Não concordo 100%, mas entendo e faz sentido, até porque, no meu imaginário, o personagem de Christoph já estava definido, e era essencial, muito antes que eu terminasse de escrever o roteiro. O ex-escravo era necessário, mas Christoph já nasceu pronto, com ator e tudo. No set de Bastardos Inglórios, já antecipando Django Unchained, sabia que havia encontrado o meu ator. Django foi um pouco mais complicado. Cheguei a conversar com Will Smith sobre o papel, mas faltava alguma coisa. Quando me encontrei com Jamie (Foxx), a questão ficou resolvida. Will tem um lado bonachão. Jamie ressaltou o que há de duro, o rancor de Django. E eu acho que ele também assumiu o desejo do ex-escravo pela mulher. Jamie é um "ladies' man".

Escravos não se casavam, eram propriedades de seus senhores. Não há nada mais brutal em sua representação do sistema escravocrata do que a luta dos mandingos. Você conhece o filme de Richard Fleischer, de 1975?

Era um filme adiante de sua época. Creio que, de forma inconsciente, já havia me influenciado quando fiz meu blaxploitation movie, Jackie Brown. O sistema todo era brutal. Encarava os negros como bichos, e talvez pior que isso. O bom é que o cinema criou um sistema de representação, e ele me deu liberdade, não digo de exagerar, mas de me liberar. Quando escrevo e filmo, não me policio. O personagem de Samuel L. Jackson tem um lado "cabana do Pai Tomás" muito forte. A irmã do senhor da plantação, como testemunha privilegiada de todo aquele horror, tem de ser punida, como os nazistas de Bastardos Inglórios. O cinema me permite reescrever a história.

E o outro Sergio?

Corbucci filmou muito mais que Leone, mas foi Leone que se consolidou como autor. Corbucci fez comédias, épicos mitológicos e spaghetti westerns. Na sua obra extensa e desigual, fez grandes filmes. Basta olhar sem preconceito. O preconceito é uma m... Inibe seu gosto, sua capacidade de entender o mundo e o cinema. Em outra época, os críticos diriam que eu próprio sou um produto do cinema popular de mau gosto, mas o mundo mudou tanto que Enzo G. Castellari, Sergio Corbucci e os Shaw-Shaw Brothers (de Hong Kong) ganharam reconhecimento. O mundo que se reflete no cinema deles não é idealizado, é real. Gosto de dar visibilidade a autores que sofreram preconceito. A ditadura do gosto é como qualquer ditadura. Fuck, man. E com o outro Sérgio, trago o ator fetiche dele, Franco Nero. A cena de Franco com Jamie é ótima.

O filme vai para o Oscar?

Corremos para que ficasse pronto justamente para isso. Se não fosse para lançar agora, de olho no Oscar, poderíamos ter deixado para março, fazendo uma finalização mais tranquila. Acredito no cinema sob pressão. É bom experimentar a urgência que consome os personagens. Ela serve ao filme. E eu mentiria se dissesse que não ligo para o Oscar. Devo muito aos Oscars de Pulp Fiction (Tempo de Violência) e Bastardos Inglórios. Nunca ganhei tanto dinheiro na minha vida, mas não é o dinheiro, em si, que conta. Gosto de viver bem, quem não? Mas a conta bancária me interessa menos que a liberdade de criar. É bom saber que existem pessoas interessadas em bancar seus projetos.

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