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Fábio Porchat
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Quênia

Às 6 da manhã eu acordo. Na verdade, sou acordado por um sonoro good morning de um dos guerreiros masaai que trabalham no Rekero Camp. De manhã, no Quênia, faz um friozinho daqueles friozinhos que eu sentia em São Paulo antes de ir para a escola.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2014 | 02h04

A luminosidade já me permite ver alguns hipopótamos no rio logo embaixo da minha barraca. Exatamente, eu estou numa barraca. Tudo bem que é uma barraca de dez por quatro, com banheiro, cama de casal e um sofazinho, mas ainda sim, uma barraca. Durante a noite, se você der sorte, pode sentir ela tremer com a passagem de um hipo (assim que chamamos por aqui) ou de um búfalo meio perdido. Seis e meia e já estamos todos no jipe para o Game Drive. Saímos pela savana em busca de animais.

Zebra, gazelas, gnus e búfalos já não chamam mais tanto a atenção pela quantidade deles pelo caminho. Estamos em busca de leões, leopardos, rinocerontes e chitas. Os crocodilos e hipopótamos estão em toda parte também, mas, realmente, eu não me canso de observá-los. Fico hipnotizado olhando para eles.

Enquanto escrevo esta crônica, dentro da minha barraca, ouço os barulhentos grunhidos deles aqui embaixo. Soam como porcos gigantes. Eles estão dentro da água, onde passam a maior parte do tempo. Após vermos girafas, elefantes e mais hipos, paramos à 9 da manhã para o café. Aonde? Onde nós quisermos. O guia/motorista para o jipe, arma uma mesinha e podemos comer e beber do lado de fora do veículo. Mas não dá medo? Absolutamente nenhum. Tudo é feito na maior tranquilidade. Medo é a última coisa que se sente aqui. Paz, felicidade, embasbacamento, tudo isso vem antes, muito antes.

Ao fim do café, voltamos à procura dos bichos. Mas mais que isso, estamos em busca de sangue. É difícil presenciar um ataque de leoa ou crocodilo, mas paciência é uma virtude. E a espera é excitante. Tudo pode acontecer a qualquer momento. De repente, surgem do seu lado hienas comendo uma carcaça do que um dia já foi um ser vivo. Algumas zebras estão na beira do rio. Os crocodilos já estão começando a salivar. Elas bebem água e, do nada, começam a travessia. As zebras vão cruzando e os crocodilos vão se aproximando. Não vou mentir pra vocês, eu estou torcendo pro dinossauro cheio de dentes, desesperadoramente. Só faltou tocar As Valquírias. E, após alguns minutos em que o mundo parou ao meu redor, todas as zebras saem do outro lado do rio, ilesas. Mas já valeu.

O almoço é na barraca. Ao som dos hipos. Comeu, bebeu, descansou uma horinha? Vamos de volta ao mundo de National Geographic. Até as 7 da noite a "caçada" continua. E, como quem não quer nada, duas girafas brigam na base da pescoçada pelo amor da fêmea que passa ao largo.

Fim do dia, estamos de volta ao hotel para um banho (de água quente) e um jantar que parece ter sido preparado pela sua avó. A que cozinhava, claro. Após ficar em volta da fogueira, tomando um vinhozinho, porque o frio voltou a dar as caras, vamos para as barracas dormir. Cedo, porque amanhã 6 horas começa tudo de novo. E, se eu der sorte, ainda vejo aquele crocodilo se dar bem!

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