Quem vai falar de Cabo Verde?

Serena, pés livres, vestido solto, olhar tranquilo e uma voz que saía como se estivesse sempre embalando um filho nos braços. A gente olhava para Cesária Évora de longe e tinha a sensação de que palco e plateia não existiam. Ela estava logo ali ao lado, como mãe tranquila, sem querer mostrar força sendo, naturalmente, um colosso da natureza.

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h06

A serenidade de Cesária Évora foi o que a conduziu por seus 70 anos. Morna foi o gênero que a consagrou em sua terra, Cabo Verde, e o que a ajudou a lutar sem armas seja pela liberdade de seu país, conseguida de fato em 1975, seja pela própria liberdade. Terna em tudo que fazia, não viveu sempre em águas calmas. O álcool, consumido até durante os shows, quase acabou com sua carreira. Entre meados dos anos 70 e 80, ficou por quase dez anos fora de cena para se dedicar à família. Foram anos duros, de arrochos financeiros e pessoais, que ela chamava em entrevistas de 'época negra'.

O que a fazia cantar com sentimento? "Ah, os cigarros, é com eles que eu afino a voz", disse em entrevista ao Estado, em 2001.

Se quisesse, poderia ter partido de Cabo Verde desde que a elite artística passou a reverenciá-la - tardiamente, é fato. Mas Cesária, que veio ao mundo com quase 50 anos, preferia as terras quentes de sua ilha. E sobre sua insistência em ficar fincada ali, perto de dois filhos e dois netos, dizia: "É muito difícil. Temos o desemprego alto, a fome e a falta de chuvas. Mas temos o sol, o mar e as pessoas simpáticas. São coisas que fazem valer a pena viver aqui."

Em 2009, já com dificuldades físicas que a levariam logo a se despedir dos fãs em uma carta emocionada, Cesária deixou Nha Sentimento, um álbum definitivo de seus talentos, com canções que mais pareciam testamentos. "Trabalha, luta e canta / Rega a tua vida com o suor da tua alegria / A fatalidade acabará / E o teu dia virá, sim o teu dia …", dizia em Fatalidade.

Embora em volume baixo e tonalidades que deixavam sua voz confortável em regiões médias, Cesária disse muito de uma África lusófona que vai sentir sua falta. Até porque não há chances de surgir outra dessas filhas tão cedo.

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