Quem somos nós?

Faça o teste. Pergunte para dez dos seus melhores amigos qual é o seu maior defeito. Ou pergunte para seus ex-parceiros amorosos aquilo que mais os incomodavam durante a relação.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

Garanto: nenhuma resposta será parecida.

Cada um vê em você defeitos que se referem a ele mesmo, numa prática inconsciente de transferência pura. Defeitos que talvez você nem saiba que tem. E é claro que, dependendo do humor do outro no dia do pedido, a lista será como a de queixas de uma telefônica no Procon.

Há quem diga que o que nos incomoda no outro é aquilo que gostaríamos de ter, ou ser aquilo que não conseguimos. As mulheres que o digam. Por que sempre reclamam do tamanho dos seios, traseiro, nariz, calos e cabelos que herdaram, e fazem de tudo para transformá-los?

Que somos nós? Não somos pedras. Nem pneus. Nem insetos. Nem cometas.

"Eu é um outro", imortalizou Rimbaud, numa carta para o ex-professor, que se tornou o documento chave para entender o mito do moleque poeta louco dentro do bom menino. Ou que um homossexualismo latente se escondia no aluno aplicado de uma França turbulenta, fedorenta e católica.

Na introspecção, acreditamos ser o que pertence a outros. Uma metade dentro de nós nos observa (ego?) e é diferente de nós. Em Kafka, um pobre coitado acreditava ser uma barata.

"Isto é evidente para mim: assisto à eclosão do meu pensamento, eu o vejo, eu o escuto, rejo com um movimento de batuta, a sinfonia faz seu rebuliço nas profundezas, ou aparece num átimo sobre o palco", escreveu Rimbaud. O absinto deve ter batido. E era do bom.

Eu é o que você vê? Eu é o que você quer que eu seja. Ou você vê em mim o que você vê em si ou o que é? Eu sou você, você é eu? Eu e você somos um? Um você ou um eu?

Me disseram que meu gato pensa que eu sou ele, dele, para ele. Dorme grudado em mim, como se eu fosse um colchão. Mas implica com o seu rabo, como se uma cobra coral o ameaçasse. Ou será que é o rabo que pensa que é um gato?

Um exemplo simples de ser comparado é a forma como o ciumento projeta no outro seus vícios. O cara ou a mulher que desconfia muito do parceiro é porque apronta, diz a sabedoria de botequim. É porque se vê e desconfia de todas as desculpas.

Em qualquer manual de teoria literária, se lê que o bom personagem é o esférico, regido por conflitos e movido por contradições.

Hamlet, dentro da sua loucura, e se utilizando dela, descobriu a verdade da trama palaciana - o fantasma do pai contou as sacanagens do reino "podre".

Riobaldo, cangaceiro impiedoso e fiel, apaixonou-se por outro vaqueiro - antes de assistir ao filme O Segredo de Brokeback Mountain -, que descobriu ser uma mulher, ao limpar seu cadáver.

Hitler, que odiava os judeus, acreditava que a união de outras raças ou etnias deveria ser combatida. Como? Por uma raça superior. Propôs exterminar uma, para solidificar a sua. Porém, nem teve filhos. Não contribuiu para o florescer da sua teoria.

Em outras proporções, os judeus, perseguidos por milênios, encontraram o seu lugar em Israel e cercaram com o Muro da Vergonha quem os ameaça, projetando guetos no formato dos em que viveram seus ancestrais; a forma que encontraram para se proteger da insana ameaça do homem-bomba, besta fundamentalista que se explode levando quem estiver em volta.

Edgar Hoover, o cabeça da repressão americana, que combateu gângsteres e a Máfia, se vestia de mulher entre as quatro paredes do bunker. O macarthismo caçava comunistas e homossexuais. Paradoxalmente, o promotor assistente do senador McCarthy era um.

E se um dos motes do cristianismo foi combater a desigualdade e a riqueza, o Vaticano criou um império tão poderoso e rico, que envergonha a própria crença. A Igreja lutou contra os poderosos - e a favor da brilhante ideia de sermos todos iguais perante a Deus - se enriquecendo.

Combateu crenças. Perseguiu quem duvidava da sua. A Bíblia era considerada "o livro". Só havia uma verdade, uma ciência, a da Igreja. Curiosamente, seu maior inimigo, o comunismo, propunha o mesmo: todos são iguais perante as forças de produção, e só existe uma verdade, a do partido.

O filósofo René Girard chama isso de Teoria da Rivalidade. Odiamos no outro aquilo que odiamos em nós mesmo.

Para ele, o mimetismo, espécie de camuflagem, é a origem da violência humana, que desestrutura e reestrutura as sociedades: quando o objeto de desejo é apropriável, a convergência dos desejos conflitantes em sua direção produz uma rivalidade mimética.

Getúlio Vargas encabeçou a revolução que acabaria com o poder da elite café com leite. Em anos, instaurou uma ditadura e lutou com os aliados pela democratização da Europa.

O Golpe de 64 colocou os tanques nas ruas para acabar com o suposto avanço comunista. Instaurou outra ditadura, apoiada pelos EUA, defensores do "mundo livre".

É, a cabeça dá um nó, se olharmos para a História e o próprio umbigo. Espere. Será que somos um umbigo que pensa que é gente?

Jesus, preciso de umas férias. E deixar meu umbigo me levar...

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