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Quem seria o culpado?

Série 'Borgen' aborda os dilemas do poder na Dinamarca e faz refletir sobre o que faz um país funcionar

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2021 | 03h00

A Dinamarca é uma monarquia constitucional há mais de 160 anos. A rainha Margarida II (Margrethe) ocupa um trono que remonta à Alta Idade Média. O reino enfrentou alguns reveses graves como a Guerra dos Ducados contra a Prússia/Áustria (1864) e a invasão alemã na Segunda Guerra (1940-1945). Porém, é um país de notável estabilidade para seus 5,8 milhões de habitantes. Para dar referência aos nossos leitores, isso significa menos da metade da população da cidade de São Paulo. Seus quase 43 mil km² quase se igualam ao território do Estado do Rio de Janeiro. Sua capital, Copenhague, tem uma população próxima à de João Pessoa (PB). A terra de Hamlet é um país pequeno, estável, próspero, com debates ardentes sobre questões como migração. A renda per capita dinamarquesa ultrapassa US$ 60 mil, quase nove vezes a média brasileira. Tudo parece tão tranquilo como a estátua de bronze da sereia de Hans C. Andersen que adorna uma pedra da capital. Como se exerce o poder em uma terra que, de longe, parece um conto de fadas? 

Borgen é a forma comum de o povo dinamarquês se referir ao prédio onde estão tribunais, Parlamento e Gabinete do Executivo do país: Christiansborg Slot. O palácio serve para batizar uma série sobre política dinamarquesa escrita e concebida por Adam Price e dirigida pela dupla Søren Kragh-Jacobsen e Rumle Hammerich. 

Logo no início de cada episódio, a série coloca frases de pensadores como Maquiavel, Churchill, Lenin e Mao Tsé-tung. De alguma forma, pretende ser uma longa reflexão sobre a política realista: Realpolitik.

Surpresas para nós: há casos de corrupção, uso da máquina pública para benefícios pessoais, escândalos sexuais, traições, negociatas e jogos de poder similares aos que estamos acostumados abaixo do Equador. Há pessoas melhores e piores, sim, todavia ninguém parece isento de um pecado original de ambição/vaidade. A primeira-ministra interpretada pela atriz Sidse Babett Knudsen tenta fazer uma política mais transparente, e, mesmo assim, seu currículo não permanece puro. Há idealismo na personagem Birgitte Nyborg, porém o mundo real consegue se impor. No poder, ela negligencia marido e filhos, rompe com amigos antigos para redistribuir cargos, oferece recursos e cargos a inimigos para facilitar negociações. Por fim, ela até cede à carne de forma ambígua. Em resumo, uma pessoa normal: possui valores, luta por eles e, eventualmente, negocia sua flexibilização com algum drama de consciência. 

O curioso da série é que o país Dinamarca parece funcionar bem ainda que sua política formal aproxime o reino de uma republiqueta instável. No Brasil, deploramos a política e ficamos horrorizados com muitas coisas. O brasileiro médio não reconhece um país perfeito mal governado por uma elite diabólica, mas problemas estruturais que vão do trânsito à residência, do saneamento básico ao sistema de ensino. Sim, os políticos são os que possuem pior avaliação em meio a tantos desafios. Sim, nós nos escandalizamos com a política tupiniquim, porém achamos que faz parte de um quadro geral de defeitos “de fábrica” no nosso país. 

Pensemos: o numerador da fração é a política. Os responsáveis por ela estão administrando o denominador: a realidade nacional. Na Dinamarca, o denominador médio está muito melhor do que o país em quase todos os itens. Se a política mostrada na série Borgen é equivalente à nossa visão de Brasília, a questão remete ao exercício do poder em si. Tanto faz se o país é desenvolvido ou não: basta existir o político para que o mal se instale. Será?

Claro: alguém pode, com razão, dizer que os defeitos dinamarqueses são menores mesmo na política. A série começa com um político que, em função de circunstâncias e de forma impensada, usa um cartão corporativo de governo para pagar contas da esposa. Ele devolve logo o dinheiro, mas o escândalo custa-lhe o cargo. Usar mal cartão corporativo não parece ser excepcional no Brasil. Estamos mais acostumados a mandonismos, privatização do Estado e mistura patrimonial entre o público e o privado. Aqui, a lisura existe, no entanto parece menos comum do que entre aqueles descendentes de vikings. 

A pergunta permanece: seria uma percepção ficcional imaginar a política sempre como negativa? Demonizar a política é recurso autoritário: já que nenhum político presta, o ideal é retirar poder deles e dar a...? Aí que temos um problema. A quem daremos um poder se as outras instituições também apresentam dificuldades? Monarquias e repúblicas parlamentaristas apresentam um chefe de Estado simbólico e que parece exercer um poder unificador e que busca a “isenção”. Seria uma solução para introduzir um fiel da balança, um poder acima dos outros poderes. Funciona em alguns lugares como Alemanha e Reino Unido. Um poder mais contínuo que paira acima dos poderes que oscilam ao sabor da vontade eleitoral. Mesmo assim, a primeira-ministra é obrigada a incorporar vários partidos para poder governar. Imaginei, vendo a série, se alguém criou lá a expressão “Parlamentarismo de Coalizão”... Resta a dúvida: se a política dinamarquesa é ruim e o país funciona e aqui a política é ruim e o país não anda, o que move o êxito e um fracasso de um país? O que faremos se não pudermos mais acreditar que os políticos são o grande mal? Enquanto não acho a resposta, acompanho a série... e nosso país. Boa semana!

*Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de A Coragem da Esperança, entre outros

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