Quem quer casar com ele

Quem quer casar com ele

Sergey Dvortsevoy viveu 29 anos no Casaquistão. Hoje, divide-se entre Moscou, de onde conversa pelo telefone com o repórter do Estado, e o Casaq, onde ainda moram sua mãe e o irmão. Dvortsevoy fez sensação em Cannes, há dois anos, quando ganhou o prêmio da mostra Um Certain Regard por Tulpan, filme belíssimo, que estreia hoje. Foi um filme que nasceu, literalmente, no ar. "Era engenheiro de bordo da empresa Aeroflot. Durante anos, duas ou três vezes ao dia, voava sobre as estepes do Casaq. Aquela imensidão sempre me fascinou. E, do alto, podia ver as manchas dos rebanhos de ovelhas. Os casaqs são basicamente nômades e pastores de ovelhas. Mas foi preciso pisar em terra firme para que o sonho se concretizasse."

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

Dvortsevoy direcionou-se para o cinema. Fez um documentário sobre os pastores do Casaquistão. Foi a base de Tulpan, mas ao elaborar sua ficção, ele se lembrou de um amigo que tinha orelhas muito grandes e por isso foi rejeitado pela namorada. Surgiu assim Asa, interpretado por Askhat Kuchencherekov, que volta às estepes, sonha se casar e ter o próprio rebanho. Asa possui muitas qualidades pessoais e entusiasmo pela vida, mas tem essas orelhas enormes. Conseguir a noiva revela-se muito mais difícil do que pensava, e ainda existe a pressão do amigo, que quer partir (e que Asa vá com ele).

Conhecida a origem do diretor, não surpreende que a ficção de Tulpan se construa nos limites do documentário. A paisagem é uma personagem decisiva. "Filmei no sul do Casaquistão. A cidade mais próxima ficava a 500 quilômetros. Podia mover a câmera 180 graus e só via estepe." Num cenário desses, não é difícil escolher onde colocar a câmera? "No início, sim, tudo tudo parecia a mesma coisa. Mas eu contava com uma grande diretora de fotografia e, aos poucos, fomos nos deixando envolver e até possuir pelo cenário. É um pouco o tema de Tulpan. Os casaqs são nômades, mas têm uma ligação muito profunda com a terra."

O filme levou cerca de quatro anos para ser feito. Foram muitos problemas. "Dificuldade de acesso, falta de dinheiro, mas também a própria história. Filmar com animais é complicado. Precisava do ciclo da vida, ovelhas prenhes, o tempo que passa." Dvortsevoy conta que havia esc rito um roteiro detalhado. "Uma das primeiras cenas que filmamos é a mais longa, o parto da ovelha. A cena não muda só a vida de Asa. Mudou o filme todo. Percebi que não conseguiria seguir o roteiro. Gosto de improvisar, de me surpreender. Só assim, acho que vou surpreender o público."

Tradições. O embate entre a tradição e a modernidade é essencial no Casaquistão. As comunidades de nômades vivem segundo tradições antigas e os jovens querem ir para as cidades, mas não se adaptam. O elenco mistura atores e não profissionais. Antes de começar a filmagem, Dvortsevoy fez com que todos habitassem juntos, para se acostumar. O diretor tem ideias bem precisas sobre documentário e ficção. "No documentário, você invade a privacidade de uma pessoa. Dez documentaristas farão dez filmes diferentes sobre a mesma pessoa. Qual será o retrato real? É uma responsabilidade muito grande. A ficção permite ir diretamente ao ponto e até ser mais profundo em questões íntimas." Qual é o tema de Tulpan? "Para mim, é o sonho de Asa e a paisagem." Um produtor independente norte-americano persegue o diretor para fazer um filme nos EUA. "Não creio que seja interessante para mim. Quero fazer filmes onde a vida me levar. Os roteiros prontos me desconcertam. O cinema não é uma fábrica de imagens e sons. Quero descobrir meus filmes ao fazê-los. Quero me descobrir no processo."

Trailer. Veja trecho do filme Tulpan no site

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