Quem precisa de sabedoria instantânea?

‘Nunca se sobressair ao chefe especialmente no campo do talento’, dica de livro de 1647

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

06 Junho 2018 | 02h00

O Século de Ouro hispânico (el siglo de oro, séculos 16 e 17) produziu Cervantes, Velázquez, El Greco, Tirso de Molina, Luís de Góngora, Calderón de la Barca, Lope de Vega, Francisco de Quevedo, Murillo, frei Luís de León, São João da Cruz, Santa Teresa d’Ávila, Sóror Juana Inés de la Cruz e dezenas de outros nomes peninsulares e coloniais. Administradora de um império no qual o sol jamais se punha, a Espanha dos Áustrias era senhora do mundo e fonte importante da cultura. 

Há um nome menos conhecido nessa época de titãs: Baltasar Gracián y Morales (1601-1658), jesuíta peninsular que, de modesta origem, produziu obras impactantes que brilham em meio a uma árdua concorrência naquele período áureo. A principal reflexão filosófica de Gracián é chamada de El Criticón. Um ser ilustrado, Critilo, encontra um “selvagem” na remotíssima ilha de Santa Helena: Andrênio. O europeu ensina a fala, as ideias e a história do mundo europeu sob prisma pessimista. Vivem uma espécie de Robinson Crusoé e Sexta-Feira, ainda que Andrênio seja mais matizado e denso do que o nativo concebido por Daniel Defoe.

Resgatados, saem em busca de uma personagem alegórica, Felisinda (a felicidade) e percorrem cortes e cidades europeias. Em meio a andanças e descobertas, a dupla apresenta uma Filosofia muito desenvolvida dentro do estilo que chamaríamos de conceptista. Que eu saiba (corrijam-me os bibliófilos), não temos versão portuguesa da obra-prima do autor citado. 

Irei além da opus magna. Gracián tinha esmerada formação filosófica e teológica. Conhecia os ardorosos debates de Francisco de Vitoria, prócer da escola de Salamanca. Dominava latim e grego e era dono de excelente prosa em castelhano. O inaciano tinha um incômodo: aqueles volumes das bibliotecas eclesiásticas eram inacessíveis à maioria das pessoas, mesmo às alfabetizadas. O leitor médio nunca acompanharia reflexões estoicas, tratados tomistas, sutilezas da Bíblia Poliglota Complutense e outros quejandos. O padre decidiu, por vontade de divulgação ou vaidade, criar uma obra em pequenos tópicos com conselhos práticos, diretos, sem muita especulação filosófica ou teológica. Surgiu um texto acessível, de fácil penetração entre o grande público. O leitor médio poderia alcançar grande aproveitamento dessas “pérolas de sabedoria”. Há algo similar nos Ensaios de Montaigne, ainda que o francês tenha pensado em um padrão mais elevado de interlocutor. No mesmo século de Gracián, surgiria na França outra obra de conselhos bem menos piedosos, o Breviário dos Políticos do cardeal Mazzarino. Se o século 13 foi o século das Sumas, o 17 parece ter sido o dos manuais de bolso. 

Gracián escreveu sem autorização dos superiores quase toda a sua obra. Suas relações com os companheiros de sotaina nunca foram muito tranquilas. Ele tentou mudar de ordem sem sucesso. Morreu jesuíta, porém rebelde em meio a um grupo que destacava a obediência como valor elevado. 

Vamos ao tema central da crônica. A obra de divulgação mais conhecida chamou-se Oráculo Manual e Arte de Prudência, publicada em 1647. A estrutura da redação é clara: aforismos sobre temas variados em linguagem bastante direta, muito distante da futura forma do El Criticón. São 300 máximas curtas, parágrafos rápidos, fácil leitura e aplicação imediata: eis a fórmula do sucesso do livro publicado pelo jesuíta sob pseudônimo. Era uma sabedoria profana, pouco mística e decididamente pessimista. 

Exemplos? Eis alguns excertos dos conselhos: nunca se sobressair ao chefe especialmente no campo do talento (7); relacione-se com pessoas que tenham algo a ensinar (11); não crie expectativas muito altas, pois “a realidade não se compara à imaginação” (19); saber esperar é importante, pois como diz um ditado “eu e o tempo podemos enfrentar quaisquer outros dois” (55); saiba dizer não aos outros deixando um vislumbre de esperança para amenizar o desapontamento (70); saiba dosar as brincadeiras porque tudo que é excessivo perde o valor, é cansativo e desgasta (76); os cautelosos sabem quando aposentar um cavalo de corrida sem esperar que ele sofra uma queda em plena competição (110); não ser sempre do contra para não parecer tolo e irritante (125); sem mentir, não revelar toda a verdade em qualquer circunstância ou a qualquer pessoa (181); no Céu tudo é alegria, no Inferno tudo é tristeza, na Terra (que está no meio) existem ambas as coisas (211); nunca romper definitivamente pois poucas pessoas são capazes de praticar o bem e quase todas são capazes de praticar o mal (257) e assim por diante. 

O filósofo Arthur Schopenhauer aprendeu espanhol para ler e traduzir Gracián para o alemão. Traduzido para o inglês, figurou entre os mais vendidos dos Estados Unidos, atingindo o público corporativo. Já existe Gracián para empreendedores.

No posfácio à edição da Viva Livros, a professora Monica Figueiredo observa que, séculos antes de Guimarães Rosa, Baltasar já tinha afirmado que viver era perigoso. Trezentos e setenta e um anos depois da sua publicação, o texto continua despertando reflexões e incômodos, ganhando releituras e desafiando novas safras de leitores, ainda em busca de pílulas de sabedoria e prudência. Boa e sábia semana para todos nós. 

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