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Leandro Karnal
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Quem pode ser sincero?

O cancelamento é uma arma, sim, porém, é uma confissão de fraqueza

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2021 | 03h00

Sinceridade é uma virtude. Dizer a verdade é louvado por filósofos e por teólogos. A boca veraz garante o caminho da razão e a estrada do céu. Mentirosos são, universalmente, condenados. Quem pensa uma coisa e diz outra é hipócrita, gritam os povos do Tietê ao Potomac, do Rio Amarelo ao Tâmisa. Pessoa “duas caras”, enganador, dissimulado, embusteiro, falso, desleal: abundam palavras para o horror que temos à mentira. Todos devem dizer a verdade. Será?

Em primeiro lugar, a mentira abunda onde existe o poder. Começamos mentindo para pais e para professores. Queremos algo que alguém acima não concede ou queremos uma desculpa para algo errado que fizemos ou deveríamos ter feito. Começamos cedo no caminho da inverdade. Depois de formados em deslizes com o correto em casa, passamos para o ambiente pedagógico e chegamos ao ambiente de trabalho. O que possuem em comum pais, professores e chefes? Sendo uma fonte de algum poder e podendo tomar decisões que contrariem meus interesses imediatos (ou punições), acabam criando, com seu poder, o solo onde vicejará a mentira. Pensem: Deus, Todo-Poderoso, não mente. O demônio, sem a onipotência, é o pai da mentira. Quanto mais poder alguém tem (desde que esse poder não dependa de outros), mais sincero pode ser. Ditado conhecido no Brasil: manda quem pode, obedece quem tem juízo. A mentira atropela o que é correto, porém, ataca o poder, esta é a raiz do sucesso da falsidade. O argumento precisa ser matizado: poderosos mentem, e muito. A diferença: todos mentem, porém, quem tem comando pode punir a falta de verdade alheia. 

O mestrando ou doutorando recebe uma “espinafrada” na banca? Deve responder bem, e com cuidado, porque não é a verdade que está em jogo, todavia o teatro de poder. Você terá o título se, além da pesquisa, claro, tiver aprendido hierarquias. O ano se encerra na empresa e fazem uma avaliação diante do dono? Qualquer funcionário equilibrado sabe os limites estreitos da crítica possível. Mesmo no âmago amoroso das famílias, nem tudo pode ser dito ao cônjuge, aos filhos, aos cunhados, aos avós. Algum medo, pitadas de diplomacia, um traço de misericórdia, uns gramas de compaixão e muita vontade de não incomodar e... dou uma “disfarçada” tão poderosa na minha opinião que ela... sai oposta.

A liberdade de ser sincero é um privilégio que a Revolução Francesa não conseguiu instituir como direito universal. No caso da França, burgueses sucederam aos duques e presidentes, aos reis. O poder perdeu pompa e se manteve imune aos ataques. O mundo contemporâneo acrescentou punições extras. Voltaire, no Antigo Regime, foi condenado à Bastilha por dizer o que pensava. Flaubert e Zola foram processados no mundo pós-Revolução. A nova Bastilha é o cancelamento. 



Tudo isso pensei quando li, há alguns meses, o romance de António Lobo Nunes: Memória de Elefante. A narrativa é muito interessante, envolvendo uma personagem que é psiquiatra (como o autor) e que analisa seu casamento, sua solidão e seu ódio por tudo. Como eu nada sabia do autor antes do livro, fui procurar outras informações.

Em uma entrevista, o literato e médico português solta esta pérola: “Fernando Pessoa me aborrece até a morte”. A frase me esbofeteia. Nunca encontrei alguém que odiasse Pessoa. Para mim é como Shakespeare ou Bach: imune a críticas. Encontrei um detrator do poeta do Livro do Desassossego! Eu me senti como algum jornalista soviético que, após as críticas de Kruschev, pergunta, atônito, se já seria possível falar mal de Stalin? Também me lembrei de uma aula com uma professora da USP que atacava o talento de Leonardo da Vinci. Podemos?

Talvez a liberdade de António Lobo Nunes nasça da sua origem aristocrática. Lembrei-me do príncipe Dom João Henrique de Orléans e Bragança em um almoço que tivemos quando eu trabalhava em uma exposição sobre as fotografias do imperador Pedro II. Ele adorou o pão italiano servido no almoço e pediu para levar um inteiro para casa, sendo prontamente atendido pelos promotores. Eu pensei: sou um professor de classe média, não poderia fazer isso; ele é príncipe, pode. Minha bisavó era uma camponesa alemã, a dele era a princesa Isabel. 

O poder, parece, embasa a capacidade de ser sincero. Pessoas pequenas, se forem ousadas nas palavras em um bar, podem causar danos aos dentes. Funcionários podem perder emprego, alunos podem ser reprovados e jovens autores começando jamais podem desdenhar de um monstro sagrado como Fernando Pessoa. A internet permitiu a uma rede maior cometer mais verdades, porém, amparada pelo anonimato ou pela multidão de opiniões. “Sincericídio” ainda existe nas redes, nos casamentos e nas escolas. O cancelamento é uma arma, sim, porém, é uma confissão de fraqueza: só posso ser significativo se dezenas ou centenas de milhares concordarem comigo e também cancelarem. Sozinho, continuo não valendo nada. Preciso de um exército ao meu lado. Sou fraco como uma bactéria: a infecção depende do volume. De novo: poderosos mentem, porém, podem condenar. 

Você, querida leitora e estimado leitor, consegue imaginar um mundo no qual você pudesse dizer tudo, absolutamente tudo o que você pensa, sem limites ou códigos? Não haveria indiretas, ironias, desculpas: tudo seria dito “na lata” (amo essa expressão popular). Esse mundo do domínio total da verdade seria o céu ou o inferno? Apenas sei que não seria a Terra. É preciso ter alguma esperança e muito cuidado com o que dizemos...

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

 

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