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Quem não roubou?

Um ex-ministro disse: no ministério, não é preciso roubar. Se entrar na máquina pública, acaba rico

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2021 | 03h00

Honestíssimo leitor, eu tenho a impressão de que roubei, ou melhor, tirei, afanei ou, para ser mais honesto, apanhei. Foi como pedir emprestado a prazo e sem falar com o dono - um pegar sine die -, como ocorre com as verbas públicas desenhadas para o “arranjo” que nos alivia do “trabalho” e “das durezas da vida” - esse “batente” que leva a contar (e descontar) tostões, mil réis, cruzeiros, cruzados (novos e velhos) e o real. 

Todos aspiramos a não ter de contar dinheiro, sintoma de “pendura” ou, pior, de entrar “no vermelho” e, eis a praga: virar pobre. Todos idealizamos um “ficar bem”, um gastar sem pensar porque há grana no colchão ou na conta bancária. Não foi por acaso que um ex-ministro me confidenciou: no ministério, não é preciso roubar. Você tem todas as despesas pagas, diárias generosas, de modo que o seu salário (que é “alto”) vai todo para o banco. Se você entra na máquina pública, você acaba rico.

Aliás, pra ser franco, eu não sei se realmente roubei porque não sou ladrão. Veja bem: ladrão vive do roubo, mas nós, no máximo, “tiramos” quando ninguém está olhando. Trata-se de um inocente aproveitamento malandro, alinhado a uma oportunidade que anula a culpa porque “ficar rico” é um estado pouco discutido e um valor social sem competição entre quem não é otário. 

Tal faz prova o caso do compadre ao embolsar o cofre a ele confiado pelo capitão do navio como herança para sua filha no livro do Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias. Ele não roubou, “arranjou-se”...

Um senador liberal, é claro, deu para uma prima petista (ele era imparcial e ela gostosíssima) um carro do ano e para uma de suas 25 assessoras mais assíduas, um apartamento no Leblon, mas quando o jornal denunciou que era verba federal e um cronista o chamou de ladrão, ele declarou - com aquela calma artificial dos políticos - que tudo havia sido feito “dentro da lei”, mas abriu-se para os amigos.

Com lágrimas nos olhos, confessou que se sentiu magoado pelos sacrifícios que, como “homem público”, ele presta ao País. Chamá-lo de ladrão era um insulto, porque tudo foi feito “dentro da lei e da lógica”: verbas públicas pertencem a pessoas públicas e não ao povo ou ao país. Você não acha que é preciso discutir esses conceitos?

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