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Ignácio de Loyola Brandão
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Quem não derrama leite, levante a mão

A menos que venha segundo turno, cessou a tortura chamada programa eleitoral. Poucas vezes em minha vida, que não é curta, vi tanta insanidade, imundície, rancor, mentira. Assistia, por necessidade profissional ou como um dever de casa. Mas, sempre segui o conselho de Lidia Jorge, admirável escritora portuguesa (por que a Leya não lança aqui seu último romance, Os Memoráveis?), que me disse, semana passada: "assisti aos debates eleitorais aqui em Portugal. Depois, fui tomar banho. Vários banhos". Não tomei vários para não gastar água, porém a escrotidão do que foi dito durante semanas na tevê ficou impregnada na pele. Acho que só banho de descarrego.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2014 | 02h06

Dediquemo-nos a amenidades. Havia coisas mais fáceis antigamente. Não pensem que sou saudosista, apenas relembro o funcionamento de certos processos. Um deles era a entrega do leite. Vinha em vidros de um litro, com uma base de oito centímetros de diâmetro e uma boquinha de três. Em alguns dos frascos estava escrito: "Não precisa ferver". E também: "Não precisa lavar o frasco". Comprávamos na leiteria ou o leite era entregue em casa. Não me lembro se tais frascos eram retornáveis, como acontecia com as cervejas, mas deviam ser, porque vidro era caro. Ainda hoje vejo meu pai colocando os litros vazios no portão, assim que íamos dormir. Pela manhã, o leiteiro trocava.

Agora, ao lembrar fico pasmo. Porque, a cada manhã, o leite estava ali. Nem um pobre nem um ladrão tinham levado. Jamais, em toda infância e adolescência, ouvi meus pais dizendo: "Hoje levaram nosso leite". Era impensável, inadmissível. Com o leite, ficava o pão. Pensar que nos tornamos um país em que se rouba grosso na Petrobrás e nas obras, se rouba leve no pão e no leite. Aproveitando: não deixem de ver Sem Pena, de Eugenio Puppo, cruel e antológico retrato da Justiça brasileira, destaque no recente festival de cinema de Brasília.

Claro, havia famílias abonadas que possuíam uma caixa, embutida na parede, com uma chave que ficava com o leiteiro e outra com o padeiro. Eles colocavam o leite e o pão, fechavam e iam embora. Sabíamos quando o leiteiro estava se aproximando na madrugada pelo tilintar sonoro dos litros. Barulho musical que nos confortava. Nosso mundo estava em ordem.

Nos anos 50, vi uma comédia da Vera Cruz com Vicente Leporace (ou foi Sai da Frente ou Nadando em Dinheiro, ambas com Mazzaropi) em que ele, voltando para casa depois de uma esbórnia (como se dizia), para diante da porta de uma casa e toma todo o leite. Foi uma gargalhada só no cinema. Era uma contravenção bem-humorada, porque certamente muitos de nós tínhamos pensado em fazer aquilo, sem nos atrevermos, seria um roubo. Hoje, deixem o litro na porta da rua para ver!

Há outra cena de cinema em que o litro de leite surge emblematicamente, mas para mostrar a rebeldia do personagem. Em Juventude Transviada (Rebel Without a Cause), 1955, direção de Nicholas Ray, o jovem Jim Stark (James Dean) chega em casa à noite, abre a geladeira, apanha o litro de leite e bebe pelo gargalo. Foi um frisson, um arrepio, um grito em nossas gargantas. Aquilo era transgressão, rebeldia, revolta. Aquele litro de leite bebido pelo gargalo era a libertação das normas, regras, convenções de uma época cinzenta, entediante. Fuck you family.

O litro de leite era fechado por uma tampinha de alumínio, fácil de ser aberta. Apesar da recomendação de quem engarrafava (quase disse do produtor, mas a vaca é que era a produtora), todas as mães ferviam o leite. Passaram os anos, o plástico entrou em nossas vidas, surgiram os saquinhos retangulares. Tornaram-se um tormento, porque abria-se uma ponta com a tesoura e o que fazer? Colocar logo em uma leiteira (o que obrigava as famílias a comprarem jarras de vidro ou louça), porque era virar e derramar. Chegaram ao mercado vasilhas de plástico, horrendas, destinadas a acomodar o saquinho de leite. Vivemos anos no regime do saquinho, até inventaram as caixas retangulares.

Enfim, a civilização, dissemos! Os filmes americanos mostravam as caixinhas de leite em cores variadas e finalmente tínhamos no Brasil também. Quem viajava, via nos supermercados dos Estados Unidos ou da Europa as caixinhas. Tive uma conhecida que trouxe linda caixa, mas como a viagem demorou e não era leite integral, chegou azedo, a exibição foi um fracasso.

Porém as caixinhas brasileiras trouxeram problemas. Levantava-se uma ponta da parte superior e cortava-se com a tesoura ou uma faca. E, quando você inclinava a caixa, a primeira golfada ia para o chão, para a pia ou para o fogão. Ainda acontece.

Então, como a tecnologia está sempre buscando resolver problemas do cotidiano, abriram um buraquinho no alto da caixa, fechado por um alumínio ou plástico. Ergue-se um dispositivo, tira-se o alumínio, inclina-se a caixa. E a golfada vai para onde? Apareceu também uma caixa quadrada, 10 por 10 centímetros, com uma rosquinha de plástico como tampa. Maravilha. Tão maravilha, tão hermética, que sempre precisamos de um alicate para girar a rosquinha que tampa.

Não me queiram mal, nem desanimem "produtores" (entre aspas, porque, já disse, quem produz é a vaca) de leite. Continuem pesquisando embalagens, é importante para nós. Quem sabe um dia o leite virá por canalização como o gás de rua, com medidores? Abriu a torneirinha, recolheu a quantidade necessária, fechou. Pronto!

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