Quem mantém acesa a chama libertária?

Embora nem todos tenham conseguido sustentar a coerência dos ideais do período, alguns parecem conservar intactos a resistência e o inconformismo

Ubiratan Brasil; de O Estado de S. Paulo

10 de maio de 2008 | 14h43

O historiador Eric Hobsbawm disse, certa vez, que o movimento de 1968 não foi um começo nem um fim, apenas um sinal - "As pessoas daquela época acreditavam que estavam derrubando uma velha sociedade ou pelo menos fazendo o possível para isso. Em retrospectiva, o movimento de 68 é sinal de uma importante revolução cultural, com diversas raízes", afirmou. Passados 40 anos, o desafio de alguns pensadores é detectar quem ainda sustenta aquele espírito libertário.   Afinal, para alguns historiadores, como o inglês Tony Judt, aquela foi uma época marcada pela "auto-indulgência narcisística". Nunca, segundo ele, uma geração falou tanto de si própria em seu próprio tempo. E hoje, observando alguns nomes que foram símbolo do movimento, é possível perceber que o envelhecimento físico não foi tão acentuado como a decadência ideológica daqueles que picharam nos muros palavras de ordem como "A imaginação no poder" e "Os sonhos são realidade".   Nem todos conseguiram sustentar alguma coerência como, por exemplo, Daniel Cohn-Bendit, o jovem líder estudantil de Nanterre, apelidado de "o Vermelho" por seu radicalismo de esquerda, e que hoje, passados 40 anos, tornou-se deputado do Parlamento Europeu pelo Partido Verde da Alemanha. Para ele, sua geração ainda enfrenta dificuldades para lidar com a globalização. Mais antenado parece estar o grande colaborador de Cohn-Bendit nos acontecimentos de maio de 1968, Jean-Pierre Duteil, um dos protagonistas da invasão da faculdade de Nanterre e hoje militante e editor. Depois dos eventos daquele mês, Duteil colaborou com outros sete colegas revolucionários na criação do jornal Passer Outre, que conseguiu se sustentar por três números.   A partir de 1974, ele assume a direção da publicação La Lanterne Noire, participando ainda de movimentos da Organização Revolucionária Anarquista. Em seguida, torna-se um dos diretores da Organização Comunista Libertária, dividindo seu tempo com um acampamento agrícola formado por refugiados latino-americanos. Na década seguinte, inicia colaborações com jornais e revistas que, apesar das baixas tiragens (e das vendas menores ainda), buscam manter acesa a chama revolucionária.   Com a comemoração dos 40 anos do mês em que invadiu a faculdade de Nanterre, Duteuil participou de uma série de eventos relativos à data, como um encontro na cidade de Perpignan, na segunda-feira passada. Além do debate, aproveitou ainda para promover seu livro Maio 68 - Um Movimento Político, no qual assinala: "A França não se entedia, a luta de classes não era uma fila do departamento de antiguidades, a classe operária não fez sua despedida. Em maio de 68, surgiram também novas formas de organização que se refletem, 40 anos depois, nos comitês de ação, com o desejo de autonomia e a desconfiança diante das estruturas sindicais e políticas."   A resistência e o inconformismo parecem continuar intactos em outros nomes, como Raoul Vaneigem, autor de A Arte de Viver para as Novas Gerações, lançado no Brasil apenas em 2002, sob a chancela da editora Conrad. Membro de um grupo de nome estranho, Internacional Situacionista, ele era um dos artistas, intelectuais e ativistas que orbitavam em torno do francês Guy Debord (1931-1994), e que tinham como principal missão o combate contra o que chamavam de espetacularização da sociedade.   Metaforicamente, o grupo via a humanidade como uma entediante peça de teatro na qual uma minoria ocupava o palco e uma multidão assistia calada na platéia. Assim, o situacionistas defendiam a participação ativa dos indivíduos em todos os segmentos da sociedade, incentivando uma luta contra todas as monotonias da vida cotidiana moderna. O grupo, que surgiu nos anos 1950 e incensou decisivamente o movimento de 68, curiosamente saiu de cena em 1972, quando percebeu que a popularidade conquistada estava justamente espetacularizando o trabalho. A obra de Vaneigem, porém, incentivou herdeiros como o escritor Hakim Bey, autor de panfletos reunidos em Caos - Terrorismo Poético & Outro Crimes Exemplares, que a Conrad publicou em 2003.   "Trata-se de um ato num Teatro da Crueldade sem palco, sem fileiras, sem ingressos ou paredes", escreve Bey, buscando atualizar as táticas revolucionárias de 1968. Ele criou o conceito de ZAT (Zona Autônoma Temporária), que incentiva grupos a promoverem ações favoráveis a mudanças.   No Brasil, o conceito de ZAT também influenciou artistas. Em 2006, sua essência inspirou o processo de criação do Coletivo T1, formado por 13 dançarinos que propunham uma reflexão sobre ativismo cultural. E, ainda no mesmo ano, o tal ZAT foi usado de forma mais debochada.   Em Fortaleza, foi anunciada a mostra Geijitsu Kakuu, do artista japonês Souzousareta Geijutsuka. O Museu de Arte Contemporânea do Ceará divulgou maciçamente o currículo do artista, que não falava português. Uma única assessora de imprensa, Ana Monteja, intermediava entrevistas com o ilustre expositor.   Depois de a mostra ser amplamente divulgada, descobriu-se que Souzousareta Geijutsuka quer dizer "artista inventado". Na verdade, tal japonês não existia, era uma invenção de Yuri Firmeza, artista plástico então com 23 anos. A assessora de imprensa era Irina, namorada de Firmeza. E o plano tinha a cumplicidade do diretor do museu, Ricardo Rezende. Citando Hakim Bey, o artista justificou o ataque contra as estruturas de controle, especialmente das idéias.   Mais atenção ao ensino e à cultura, pregava Firmeza, seguindo um conceito também defendido pelo francês Hugues Lenoir, outro que também pode figurar no grupo de descendentes do Maio de 68. Professor e diretor de pesquisas de Ciências da Educação e diretor do Centro de Educação Permanente da Universidade Paris X, ele é autor do livro Educar para Emancipar (Editora Imaginário), no qual defende que educação e sindicalismo revolucionário estão ligados em um mesmo projeto - aquele de uma classe operária culta porque emancipada, emancipada porque culta. Um caminho a ser semeado.

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