Marina Sartório
Marina Sartório

Quem já começa a sonhar com o que fazer na pós-pandemia

Veja quem já faz planos para quando a pandemia acabar

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2020 | 05h00

Depois de tantos dias de isolamento social é natural que um pensamento não desgrude da nossa cabeça: “qual vai ser a primeira coisa que eu vou fazer quando isso tudo acabar?”. Embora a curva da pandemia da covid-19 no Brasil ainda não nos deixe enxergar a luz no fim dessa quarentena, fazer planos e sonhar é necessário e saudável. E, aliás, também não custa nada. A reportagem do Estadão conversou com pessoas que estão cumprindo a quarentena e respeitando o distanciamento por mais de dois meses. Com elas, descobrimos os mais simples e extravagantes desejos para aquele que deve ser o próximo dia mais feliz das nossas vidas.

O músico Marco Aguyar, por exemplo, sonha com uma partida de futebol. “Antes de a música arrebatar meu coração, eu tinha o futebol como paixão, eu jogava o dia inteiro quando criança, fazia as contas de quantos anos teria nas Copas do Mundo, desejava mesmo ser jogador profissional”, lembra. Então, quando a pandemia estiver controlada, Aguyar quer voltar aos campos, calçar chuteiras, vestir um uniforme, fazer gols e cair nos braços da torcida (coisa que hoje seria um risco).

A oboísta Natália Alves Chahin tem dividido o seu pensamento sobre o primeiro dia depois do fim da pandemia em dois momentos: dia e noite. “De dia, eu chamaria toda a família para um ‘almoção’ na minha casa, abraçaria e daria muitos beijos em todos”, conta. Já para o período noturno, os planos são outros: “Eu começaria em um bar com as minhas amigas. Depois, me acabaria de dançar em um forró ou samba, um lugar de música ao vivo e cheio de gente”.

Já o ator Talis Castro, que mora em Salvador, tem um desejo simples para quando puder pôr os pés para fora de casa em segurança. “Um dos grandes motivos de morar aqui é o contato com o mar. Sempre que saio de casa para fazer algo de carro, faço questão de passar pela orla, pelo Porto da Barra, pelas praias do Rio Vermelho, e vou até na Praia de Itapuã, que fica um pouco mais distante de onde moro. Quando isso tudo acabar, quero muito tomar um banho de mar, deitar na areia, tomar um sol e curtir a brisa.”

Reencontrar o mar parece um desejo recorrente de quem já se imagina fora da quarentena. “Quero ir ver o mar, tomar um bom banho de mar e contemplar o horizonte. A visita à natureza praiana será o meu re-start”, acredita o astrólogo Paulo Beni. Retomar as atividades e o trabalho também é um dos sonhos mais presentes. A professora de Hatha Yoga, Andreza Taglietti, não vê a hora de retomar sua agenda de atividades. “No primeiro minuto do dia, vou abrir minha agenda para as massagens e para as aulas presenciais de ioga. Sinto muita falta disso. Depois, será um dia de encontros e mais encontros. Almoço em família; café na padoca com as amigas; corrida no parque e encontro com a turma de amigos de meditação.”

O consultor de segurança eletrônica Marcos Sooma venceu a covid-19. Ele chegou a ser internado e, felizmente, superou os momentos mais difíceis da doença. Agora, recuperando-se em casa, começa a pensar sobre o dia em que a vida vai voltar ao normal. “Quando a pandemia acabar, meu desejo é ter de volta minha liberdade de ir e vir. Quero poder ir para o bar, restaurante. Quero encontrar a família e os amigos e poder manifestar meu carinho com abraços e beijos”, conta. “Parafraseando Cazuza: que nossos prazeres não se transformem em risco de vida.”

Assim como Sooma, a corretora de seguros Maria Renata Mendes tem como prioridade número um a possibilidade do abraço. “Quero abraçar os meus. Quero abraçar sem medo de propagar ou contrair esse vírus bizarro. Quero abraçar e ter certeza que a única coisa a ser transmitida e contraída é o amor, na sua mais pura simplicidade.”

A psicóloga clínica Sandra Quero, que também tem atuado em terapia online (plataforma Vittude), enxerga uma ansiedade galopante na sociedade pela retomada da vida de antes da pandemia. “A população demonstra baixa resiliência para as restrições de isolamento. É uma sociedade imediatista, com um olhar maior para as necessidades pessoais do que coletivas. É muito difícil controlar a ansiedade porque muitos não entendem que estamos em casa por um bem maior”, comenta.

Para a psicóloga Christiane Valle, da Conexa Saúde, a ansiedade está na base das questões envolvendo 90% dos seus clientes. “Estamos padecendo da nova rotina que nos foi imposta pelo vírus. As pessoas querem voltar a se relacionar e a ter relações sociais. Elas estão percebendo que a tecnologia não basta. Elas também estão com medo, um medo que nasce, sobretudo, dessa realidade que parece um filme de ficção.”

A terapeuta Rosi D’Portilho acredita que a maior dificuldade desse momento é que a quarentena está obrigando as pessoas a olharem para dentro. “A vida social faz com que as pessoas olhem para fora e não precisem encarar algumas situações e sentimentos. No confinamento, todos estão sendo obrigados a olhar para dentro. Isso tem causado muita ansiedade. Por isso, as pessoas demonstram tanta necessidade de ir para rua e sair do isolamento”, disse.

Já para o psiquiatra e pesquisador titular da Fiocruz Paulo Amarante, a palavra-chave para entender o primeiro impulso no pós-pandemia é “saudade”. “Saudade é a palavra. Não é nostalgia. A saudade é um fator muito importante nesse momento. As pessoas sentem falta dos amigos, familiares e lugares. E essa saudade vai mover a sociedade em um primeiro momento.” 

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