Quem interpreta quem?

Em 1974, passei cinco dias no castelo do Burgo Warteinstein, numa localidade próxima de Viena, Áustria, para tomar parte num seminário patrocinado pela Wenner Gren Foundation for Anthropological Research sobre "rituais seculares". Num muito acatado dia de folga das competições para ouvir - como é rotina nos encontros acadêmicos -, quem tinha as melhores teorias sobre os rituais, inclusive a teoria de que o conceito de ritual era uma bobagem teórica, fiz algo inesquecível. Acompanhado dos meus velhos e queridos amigos Victor Turner e Richard Moneygrand, fui ao Auersperg Palace para assistir à ópera As Bodas de Fígaro, do grande Amadeus Wolfgang Mozart.

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2012 | 03h08

Chegamos cedo e como estávamos interessados em rituais, queríamos observar o que Victor Turner chamava, com sua imaginação habitual, toda a "curva performativa" que é parte das atividades humanas encapsuladas em tempo e espaço especiais, em contraste com a ilimitada e aberta vida diária, na qual não temos hora ou lugar para o que pode ocorrer conosco.

Moneygrand, motivador da nossa ida ao concerto e que sabia tudo sobre Mozart, falava entusiasmado da vida e da obra do gênio com Turner, enquanto eu me impressionava com a orquestra que, no grande palco, afinava suas notas, retomava acordes e ensaiava pequenos trechos da peça a ser tocada, lembrando um jovem prestes a fazer vestibular ou um conferencista ensaiando o seu texto. Disso resultava uma tremenda confusão de sons que invadiam o ar sem nenhuma diretiva ou alvo.

Então, debaixo de aplausos veio o maestro e, com a sua batuta, fez-se o milagre. Num segundo mágico, surgiu em todo o seu esplendor a música de Mozart e o mundo fez sentido.

Moneygrand comentava o virtuosismo dos profissionais vienenses; Turner falava em liminaridade, como sempre. Eu, acostumado àquelas tardes com mamãe tocando Ernesto Nazareth, Eduardo Souto, Franz Liszt, Cole Porter e Lamartine Babo ao seu piano, pensava com os meus botões: é a orquestra que interpreta o Mozart ou, pelo contrário, é Mozart quem comanda tudo, interpretando a orquestra?

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Em 2002, o famoso cantor e roqueiro, ex-jogador de futebol e coveiro, Rod Stewart, gravou o Grande Cancioneiro Americano e, com belos arranjos, cantou os clássicos de Irving Berlin, Cole Porter, George e Ira Gershwin, Rogers e Hart, Vincent Youmans e outros. Vendeu mais do que todos os antropólogos que conheci, aqui e "lá fora", com todos os seus livros e economias. Tenho todos os seus CDs. Um deles me foi gentilmente presenteado pelo meu caro amigo João Emmanuel numa noite de autógrafos.

A voz é fraca, o modo de cantar não tem nem a técnica nem a dramaticidade italiana de Sinatra, Tony Bennet ou Dean Martin ou o toque mavioso ou solene de um Nat King Cole ou Billy Eckstine. Mas as músicas pegam. Sempre ouço com prazer todas essas canções na voz de Rod, pois elas têm o poder mágico de lavar a minha alma e enxaguar o meu coração.

Um dia, porém, entendi tudo. Quem cantava as músicas não era o Rod Stewart. Muito pelo contrário, eram as canções que se cantavam por meio de sua voz. Afinal, quem canta quem? Tal como as análises dos mitos era, ela própria, uma mitologia, conforme ensinou Claude Lévi-Strauss, seu grande pensador?

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No número de 27 de fevereiro a capa da revista The New Yorker traz uma ilustração intrigante do desenhista Bruce McCall. Eis um artista cujo trabalho tem um toque de criticismo surrealista e por quem eu tenho uma enorme admiração, pois sou um desenhista frustrado por uma dupla ausência: a do danado do talento e, pior que isso, do tal esforço que - dizem, pois falar é fácil - constitui 99% da genialidade.

Naquela quinzena de entrega dos Oscars, um prêmio pelo qual alguns matariam a própria mãe; outros passariam fome e frio; e todos sentem uma inveja funesta dos vencedores, McCall desenhou cinco estatuetas - cinco Oscars - em volta de uma mesa de um restaurante, cujas paredes são decoradas com fotografias de artistas que receberam tal honra no passado, mas já passaram, não se sabe mais quem foram. Os Oscars, tornados vivos pelo artista, têm em suas mãos sem dedos taças de Martini e champanhe. Nos seus pratos há restos do seu lauto jantar e todos eles olham com o seu olhar petrificado e desumanizado pelo ouro de que são feitos, pequenas estatuetas de humanos em traje de gala. Todos os Oscars têm essas figuras premiadas nas mãos e estão prestes a comê-las como sobremesa.

Pergunta-se: é o premiado quem recebe o prêmio (e por ele fica marcado, como quer a nossa vã filosofia) ou é o prêmio quem recebe o premiado, como sugere a ilustração de McCall?

Afinal, somos nós que interpretamos a sociedade e o mundo no qual nascemos sem pedir; ou é o mundo que se escreve inapelavelmente em nós? De tal modo que nós nem percebemos a nossa ingenuidade quando pensamos que somos nós quem recebemos os Oscars quando, na verdade, são eles que nos recebem e, como todo signo de sucesso descabido, nos devoram?

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