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Roberto DaMatta
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Quem fala pelo planeta?

Os cientistas, os religiosos, as pessoas comuns, os jornalistas, os povos tribais (que não têm Estado), os bilionários, a ONU ou os países? É difícil assumir o ponto de vista da totalidade (ou seja: do mundo como um conjunto interdependente) quando somos dominados pelo individualismo – pela crença segundo a qual a parte é mais importante do que o todo.

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2015 | 02h00

Essa questão está dolorosamente inscrita na nossa vida social e na Conferência Mundial sobre o Clima, reunião infelizmente abafada pela crise política nacional.

A questão é importante, sobretudo, quando sofremos os efeitos perversos das mudanças climáticas no Brasil, tomando consciência tardia das transformações que afetaram o nosso ambiente “natural” em nome de um progresso obviamente ambíguo e duvidoso. Excepcionais secas e derrames pluviais, e um funesto desastre com o rompimento da barragem de Mariana, numa região mineira de exploração secular, fazem prova desse triste e irresponsável destino que temos infligido a nós mesmos.

Há algo dramático em toda essa experiência pós-moderna com o meio ambiente como mostrei no livro Conta de Mentiroso, publicado em 1993, pois a natureza sempre foi pensada como magnífica e generosa no Brasil.

Éramos um país sem tufão, furacão e terremoto, com um clima acolhedor e rios generosos que jamais seriam assassinados.

Mas, conforme seguia a fábula, essa natureza era compensada por um “povinho” terrível controlado por “políticos” piores do que Macunaíma. Pois este não tinha nenhum caráter, o que já é muito diante dos anti-heróis mistificadores de hoje em dia.

Seria um exagero duvidar das boas intenções dos cientistas especializados em ecologia e mudanças climáticas, mas o meu ponto é saber até onde a ciência teria força para competir com as suas respectivas pátrias, as quais têm muito mais instrumentos de coação moral sobre todos eles. Afinal, a pátria moderna tem renda de impostos e forças armadas, enquanto a ciência depende de verbas e vive em instituições dispersas e dependentes.

Enquanto estadistas falam em nome de Estados nacionais onde nascemos, vivemos e morremos, cientistas não podem declarar guerra ou proibir pesquisas. Ademais, criticar uma teoria é bem mais fácil do que mudar de regime ou de nacionalidade...

Quem faz o planeta sofrer? E, mais que isso, como sabemos que ele sofre, senão pelo acesso e pelo modo em que esse enorme palco, no qual entramos sem pedir, afeta seus mais diversos habitantes e a nós mesmos.

Para uma pessoa nascida e produzida no século passado como eu, ainda soa como inacreditável que a Terra esteja mesmo sendo destruída pelo consumo voraz dos seus filhos.

Em 1948, quando entrei no ginásio, descobri que o mundo ia acabar, mas pensei que quem iria desfechar o golpe final fosse Deus, não nós. Hoje, a imprevisibilidade da previsão do tempo, uma conquista da qual meu velho pai se orgulhava, revela um planeta febril e doente.

Todos nós, ínfimos atores, sofremos com os males do palco e do teatro. Quem pede socorro ao lado de povos e países é a mãe terra. Eis o fato singular de nossa era antropocêntrica. Os humanos matam tanto ou mais e melhor do que a natureza pois, no fundo, e, de fato, não há cultura sem natureza. Um inventa o outro.

A consciência planetária é recente. Para nós, embebidos pelos valores do complexo religioso judaico-cristão-islamita, tem sido muito difícil admitir a nossa responsabilidade sobre um mundo que um Deus Absoluto e Eterno teria criado para nosso uso e gozo, o qual nos deu a prerrogativa cósmica de explorar o seu potencial infinito de riqueza. Se Deus é infinito, nós também seríamos infinitos e a terra na qual agimos com o nosso suor ou os juros jamais teria um fim.

Nossa visão tribal e, depois, nacional e global sempre foi ofuscada pelas nossas divisões internas e externas. O mundo chamado “civilizado” começa com castigos e conflitos irremediáveis entre pais e filhos; entre povos escolhidos e marginais.

A propriedade privada criou a soberania nacional territorial, a qual é, no meu entender, um elemento central da dimensão cosmopolítica dessa conferência mundial sobre o clima. Ninguém percebeu como o político e o econômico se imbricavam nessa onda de hiperconsumo como um estilo de vida e uma forma de identidade.

Voltamos à questão crucial: quem pode falar pelo planeta? As potências mais ricas que podem destruir o planeta numa guerra ou por meio de um capitalismo predatório? Ou seriam os povos tribais do deserto, das ilhas e das montanhas que não têm no território o seu foco porque, entre eles, os elos entre as pessoas são mais importantes do que os elos entre pessoas e coisas, como é nosso caso?

Como pôr em foco dogmas modernos como o progresso realizado por intenção e acaso e, ao lado dele, rever a ideia de mecanismos autogerenciados e regulados como o mercado e a lógica da produção sem discutir a soberania nacional?

Você, leitor, já avassalado com o Brasil, tem a palavra...

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