"Quem está brigando e por que?"

Aqui é Stefan Ponek, da rádio KSAN, de São Francisco. A turnê dos Stones acabou. Houve quatro partos, quatro mortes e muito tumulto. Soubemos que alguém foi esfaqueado até a morte por um membro dos Hell´s Angels, mas nada foi confirmado até agora. Os Hell´s Angels fizeram o possível numa situação difícil. Charlie Watts ouviu e riu nervosamente, com um misto de ironia e melancolia no rosto. O relato do locutor, em 1969, estava sendo acompanhado pelos Stones em carnes & ossos. Tinha acabado o concerto de Altamont e ainda era impossível fazer um balanço da tragédia. Essa sensação de descontrole, de impotência face ao comportamento da multidão, tudo isso está em Gimme Shelter, o que faz o mérito do documentário - além do registro cru dos fatos, naturalmente. A ironia de Gimme Shelter não está só no título da música que dá nome ao documentário, em contraste com a violência na platéia. Está também na revelação da incoerência entre o culto de uma vida desregrada, solidária, regida pelo livre arbítrio, e o aproveitamento mercantilista desse modo de vida. Os Stones chegam a Altamont de helicóptero, com suas botas de couro de cobra, camisas aveludadas, cachecóis vermelhos e os casacos de couro com franja. Ficam boquiabertos com a multidão de 300 mil pessoas, a fila de carros estendendo-se sobre as colinas como uma cobra sonolenta. Eram apenas garotos deslumbrados com a fama e a riqueza súbita. Os irmãos Maysles e Charlotte Zwerin, diretores do filme, despacharam suas câmeras entre o público e mostraram partos, gente chapada andando pelada pelo campo, adolescentes sem expressão nos olhos, namoricos ingênuos e todo tipo de cena. Também acompanharam a rotina dos Stones, saindo do hotel, num trajeto bucólico entre o Holyday Inn e o estúdio Muscle Shoals. Mick era bonitão naquela época, léguas de distância da uva passa que é hoje. É engraçada e doce a cena do grupo ouvindo Wild Horses no estúdio, malucões, pés para o alto, jovens e ainda encantados com o que faziam. No meio do show, quando começa a pancadaria e os Hell´s Angels botam pra quebrar, Mick tenta acalmar a platéia, já sem a capa vermelha e a cartola. Ele grita: "Pessoal, quem está brigando e por quê?" Keith Richards pára, olha no meio da multidão e de repente aponta: "São aqueles ´fucking´ Angels!", vocifera. E ameaça, sem obter qualquer resultado: "Esse cara aí! Se não parar... Não haverá música." "Esse Mick Jagger culpou os Angels", disse Sunny, um dos porta-vozes dos Hell´s Angels. "Nós bancamos os otários para esse idiota". O estúpido troglodita disse que tudo começou porque mexeram com as motocicletas de sua gangue. Os Stones foram acusados de reponsabilidade pela contratação dos sujeitos para a segurança da região em volta do autódromo - embora não soubessem como terminaria aquilo nem tivessem consciência de que era uma mistura explosiva. Mas era tarde, de qualquer forma, para a geração da contracultura. Organizar aquilo, tornar aquele desvario coletivo fonte de renda e manter tudo sobre controle teria um preço alto para o mundo hippie. Os Angels, claro, racistas como eram, mataram um negro, o que mostrava que aquele ideário de Paz & Amor também não estava sendo distribuído equitativamente. O fato é que nada mais seria como antes.

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