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Quem eram os malditos mesmo?

Ícones irreverentes ganham tributos de jovens cantoras

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2011 | 00h00

Gurus do inconformismo, ícones da música anticomercial, inovadores e provocadores naturais, eternos inquietos. Compositores como Tom Zé, Sérgio Sampaio, Jards Macalé, Jorge Mautner, Luiz Melodia, Torquato Neto, Walter Franco, Itamar Assumpção e outros, quando surgiram, foram logo considerados estranhos no ninho, rotulados como "malditos", antipopulares, "difíceis" de ouvir e rotular.

Hoje, com o mercado de discos falido e legiões de artistas procurando fazer o que bem entendem sem se preocupar com venda, eles estão finalmente entre os iguais. O tempo também está do lado deles, vivos ou mortos. Os ex-malditos agora são gênios compreendidos por uma juventude em busca de algo mais genuíno e fora do comum. Nada mais natural, então, como deixa claro a cantora Camila Costa, que eles sejam benditos entre os expoentes da nova geração, que homenageiam quatro deles a partir de hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.

Além de Camila, estão na programação Andreia Dias cantando Sampaio, Anna Ratto interpretando Tom Zé (com participação de Anelis Assumpção) e a banda feminina Chicas celebrando Mautner. Além de Zeca Baleiro no show com o cancioneiro de Sampaio, Macalé e Mautner participam dos próprios tributos.

Camila idealizou a série Bendito É o Maldito Entre as Mulheres e inicia a programação hoje cantando Macalé. Ele sozinho com seu violão já é um show à parte e vai dar mais do que uma canja. Camila vai cantar clássicos e lados B ("se é que isso é possível"), como No Meio do Mato e Pontos de Luz. "Não foi fácil realizar esse projeto, mas estou bem feliz com o que consegui, com o patrocínio do CCBB. É a primeira vez que fico do lado de cá, da produção", diz a cantora, que escolheu todo o elenco e assina a direção musical dos shows. A banda que a acompanha só tem feras: Sacha Amback, Marcos Suzano e Rodrigo Campello.

Ecos tropicalistas. Os contemporâneos de Tom Zé, que mantém uma certa atitude roqueira aos 74 anos, são minoria entre seu público. Os shows do mais paulistano dos baianos são sempre lotados de jovens, como aquele que gerou o DVD O Pirulito da Ciência, de 2010. Recentemente, ele teve dois de seus álbuns mais importantes - Todos os Olhos (1973) e Estudando o Samba (1976) - relançados em vinil no Brasil. Chocantes desde as capas, um deles, como se sabe, foi responsável por sua ressurreição artística.

Quando David Byrne deparou com aquele emaranhado de arame farpado num sebo de LPs de São Paulo, uma imagem descabida na associação com um estudo sobre o samba, acreditou estar diante de algo inusitado, que merecia atenção. E fez mais do que isso. Agora Tom também teve os três "estudos" sobre o samba, o pagode e a bossa reunidos na caixa de LPs Studies of Tom Zé - Explaining Things So I Can Confuse You, nos EUA, pela Luaka Bop, gravadora de Byrne. Tom Zé foi e continua sendo o mais radical dos tropicalistas e suas experiências ecoam na geração que surgiu logo depois dele, na virada dos anos 1960 para os 70.

O carioca Mautner, que acaba de completar 70 anos, conquistou novas plateias ao integrar a sensacional Orquestra Imperial. Nos shows, sua participação é reverenciada tanto pelos músicos quanto o público. Seu clássico Maracatu Atômico (parceria com Nelson Jacobina) o tornou mais popular a partir da regravação antológica de Chico Science e Nação Zumbi no álbum Afrociberdelia (1996), que vai ser relançado em vinil pela Polysom.

Malditos. Um tributo a Sérgio Sampaio (1947-1994), com participações de Macalé, Melodia, Marcia Castro e Zeca Baleiro lotou o Sesc Pinheiros em 2009. A cantora baiana, aliás, já começou com o pé dentro dessa história. Seu bem-sucedido álbum de estreia, Pecadinho (2007), tinha basicamente só canções de "malditos". Mais além foi Zeca Baleiro, o David Byrne de Sampaio, ao recuperar gravações inéditas do compositor capixaba e lançar o CD Cruel, em 2006.

Aos 67 anos, o carioca Macalé ganhou um expressivo documentário, Um Morcego na Porta Principal, de Marco Abujamra e João Pimentel, em 2008, e continua se apresentando no circuito alternativo, com banda ou só tocando seu violão e cantando.

Apesar do experimentalismo, das ideias "malucas" expressas nas letras, eles todos têm alguma ligação com o samba. Foi essa faceta que primeiro aproximou Camila Costa de Macalé. Integrante do grupo carioca Sururu na Roda, dedicado ao samba, ela também abriu o leque para outras linguagens no primeiro trabalho solo. "Macalé foi o que mais me chamou a atenção, por ter gravado o disco 4 Batutas & 1 Coringa (1987), em que cantava Geraldo Pereira, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola e Lupicínio Rodrigues", diz Camila.

"Fiquei surtada quando ouvi esse disco pela primeira vez, mas tem também o que ele gravou com Moreira da Silva. O que encanta no Macalé é que ele tem uma obra que é popular e ao mesmo tempo muito contemporânea - isso todos eles, de uma maneira geral, mas falo especificamente de Macalé porque foi o que escolhi para cantar, com o maior orgulho, carinho e espírito de irreverência."

Esse é o "ponto de luz" que diz tê-la tocado profundamente: o lance duplo entre a reverência ao que é consagrado e a irreverência criativa, além da ligação com a literatura. "Discutir essas questões foi muito importante para mim e para a minha geração por meio da música desses compositores", diz Camila. "Justamente por eles estarem de certa forma à frente da maioria, é que eles continuam falando diretamente aos jovens ainda hoje", aponta a cantora.

"Os assuntos, as temáticas, as profundidades, a ligação com a coisa experimental, os caminhos harmônicos, sempre reverenciando o que é da nossa cultura popular, mas também transformando aquilo em algo diferente. Acho que talvez o jovem pressuponha dessa liberdade, que eles sempre representam."

PROGRAMAÇÃO

Hoje

Camila Costa Canta

Jards Macalé

Convidado: Jards Macalé

Dia 8

Andreia Dias Relê

Sérgio Sampaio

Convidado: Zeca Baleiro

Dia 22

Anna Ratto Interpreta

Tom Zé

Convidada: Anelis Assumpção

Dia 1º/3

Chicas Celebram

Jorge Mautner

Convidado: Jorge Mautner

BENDITO É O MALDITO ENTRE AS MULHERES

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, telefone 3113-3651. 3ªs, às 13 h e 19h30. R$ 6. Até 1º/3.

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