Quem é do samba não enjoa de Martinho

Documentário revela a personalidade do sambista, para além da Vila Isabel

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2010 | 00h00

Dueto. Com Ana Carolina, especialmente para o DVD, Martinho gravou Filosofia de Vida    

 

 

 

 

 

 

"Eu nasci numa fazenda/ E fui criado na favela/ Namorei mulher casada/ Fui homem de moça donzela/ Treze anos de caserna/ Me deram boa lição/ Fui formado na Vila Isabel/ Fiz do samba profissão." Os versos autobiográficos abrem o documentário Filosofia de Vida - O Pequeno Burguês, que retrata uma das figuras centrais do samba carioca, hoje com 72 anos. Logo se ouve a voz mansa de Martinho da Vila. Ele começa contando que nunca planejou ser artista, e que em vários momentos pensou em parar. O sucesso não permitiu.

 

 

Rodado nos últimos dois anos, o filme, que está saindo em DVD pela MZA Music e o Canal Brasil e conta com interessantes imagens de arquivo (de shows, de velhos carnavais), emocionou Martinho demais. Não só pela homenagem, mas pelo fato de todos os seus oito filhos (cinco dos seis adultos envolvidos com música) terem aparecido na tela, assim como as fotografias de sua mãe, dona Teresa, falecida. Além dos relatos da família, o documentário traz também depoimentos de admiradores, como o pagodeiro Dudu Nobre e o poeta Ferreira Gullar, e registros de viagens com sua banda.

 

Mais do que qualquer imagem, o que arrebata é o espírito de Martinho, traduzido na fala macia, nas músicas. Nas cenas no rio, pescando (e depois devolvendo o peixe à água, para que siga seu caminho), nas passagens em Duas Barras, sua cidadezinha, no interior do Rio (onde tem sua fazenda e o Instituto Cultural Martinho da Vila, na casa em que nasceu, e que desenvolve ações sociais e culturais com a comunidade).

 

"O que eu mais gosto mesmo é o caminho até Duas Barras", ele diz, na estrada. "A vida nossa é tão corrida que a gente passa pelas coisas sem ver. Eu sou aquele que procura ter olhos de ver."

 

Esse é o Martinho da Vila Isabel, a escola de samba da zona norte do Rio da qual é símbolo desde 1965, e à qual tanto se doou, artística e administrativamente, sem nada pedir em troca; da fama com Canta Canta, Minha Gente, Madalena do Jucu, O Pequeno Burguês, Devagar, Devagarinho, Mulheres e Disritmia; da incursão africana, que vem dos anos 80; da literatura (publicou dez livros e chegou a concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras este ano).

 

Ele é o artista-síntese do boa-praça, como também o é Zeca Pagodinho, com seu jeitão "deixa a vida me levar". No texto de apresentação do DVD, mereceu as seguintes palavras do pesquisador Sérgio Cabral: "Se eu tivesse de reduzir o Brasil que dá certo a um único ser humano, este seria Martinho da Vila." Para Marco Mazzola, seu produtor e idealizador do filme, "ele parece um monge sambista".

 

Devagar. O percurso percorrido por Martinho José Ferreira de Duas Barras até aqui é riquíssimo e movimentado, e contradiz a pecha de "lento" do autor dos versos "Sempre me deram a fama/ De ser muito devagar/ E desse jeito/ Vou driblando os espinhos/ Vou seguindo o meu caminho/ Sei aonde vou chegar/ É devagar..." "Todo mundo acha que sou devagar. Mas quem faz as coisas com pressa geralmente não faz bem", brinca Martinho, falando sobre o DVD. "Às vezes, vejo que preciso desacelerar a vida. Vou para Duas Barras, não leio e-mail, não tenho blog, Facebook... Lá nem telefone pega direito."

 

Mart"nália fala da associação direta entre a figura do pai e a certeza da felicidade, do sujeito pacato, para quem tudo sempre está bom. Martinho, da satisfação que tem quando vê que basta sorrir para alguém que o estado de ânimo da pessoa se altera. "Mas isso às vezes cansa um pouco. Todo mundo quer e pede meu sorriso o tempo todo!" Como resistir?

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