Silvana Garzano/AE
Silvana Garzano/AE

'Quem é da noite não pode ter problema com segurança', diz José Victor Oliva

Para o ex-rei na noite paulistana, não houve erro no que aconteceu em Santa Maria e sim crime

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2013 | 02h07

Não havia frequentador da noite paulistana, nos anos 80, que não conhecesse José Victor Oliva. O hoje homem de eventos começou a carreira aos 23 anos, inaugurando o Gallery, em parceria com Gugu di Pace, o chef Giancarlo Bolla e José Pascowitch -e o local se tornou um must na cidade. Tos queriam estar lá. Depois, partiu para fazer restaurantes: Manhattan e Mezzaluna. E porque não discos? Vieram o Banana Café, Resumo da Ópera e, por fim, Moinho Santo Antonio - que comportava 20 mil pessoas.

Nesses anos todos, suas casas jamais registraram acidentes envolvendo segurança. Horrorizado com o que aconteceu em Santa Maria, Zé Victor (como é chamado pelos amigos) tem certeza de que, pela cabeça dos donos, não passou o que defende ser o mantra de todo dono de estabelecimentos com as características da boate Kiss: "Segurança, segurança, segurança", explica. "Só depois é que vêm comida, bebida, cordialidade, diversão."

O que isso significa? "Tem de fazer saída de incêndio? Então, faz o dobro. Tem de colocar extintor de incêndio? Põe o dobro. Tem de ter bombeiro? Contrata o dobro do que é necessário. Não é questão de gastar mais, mas de dormir sossegado. Não quer dizer que não temos problemas. Temos todo dia: é alguém que enche a paciência, alguém que grita, o cara que brigou com a mulher, porque ela olhou para outro cara, gente que não paga a conta, menor de idade... Mas quem é da noite não pode ter problema com segurança. É absurdo."

Zé Victor saiu do ramo da noite porque já havia feito tudo que tinha para fazer. Criou o Banco de Eventos; depois, a Rio 360; depois, a Samba. Hoje, são 20 empresas que compõem a Holding Clube - com mais de 500 funcionários. "Quando trabalhava na noite, tinha o dobro".

A seguir, os principais trechos da conversa:

A que você atribui uma tragédia como a que aconteceu em Santa Maria?

José Victor Oliva - É algo muito parecido com tragédia de avião: o que ocorre é uma reunião de fatores, aquele negócio do dominó. Várias coisas aconteceram ali. A primeira, a maior de todas as imprudências, a coisa mais ridícula, é soltar fogos dentro de uma casa noturna. Isso é absolutamente proibido. Coisa de quem não tem noção. Produz fumaça, polui o lugar, não há nenhuma vantagem, e o efeito poderia ser conseguido com luzes ou outro tipo de técnica.

E parece que não foi o primeiro show que eles fizeram usando fogos de artifício.

José Victor Oliva - Obviamente que não havia nenhum tipo de fiscalização. Quer dizer, eles agiram de forma absolutamente inconsequente. Cada casa noturna tem uma altura - algumas têm pé direito de 10 metros, como o Credicard Hall. O Gallery tinha 4 metros. São situações distintas que precisam ser tratadas de forma distinta.

Esse foi o primeiro erro?

José Victor Oliva - Não foi um erro o que aconteceu e, sim, um crime. O mínimo que poderia ter ocorrido (se tudo tivesse dado certo) era encher o ambiente de fumaça. Ora, se não se pode nem fumar em ambiente fechado...

Que outros fatos você aponta?

José Victor Oliva - É preciso deixar claro que pode acontecer de um lugar pegar fogo mesmo que esteja tudo dentro dos conformes. Pode cair um litro de álcool no chão e, por alguma razão, pegar fogo. Agora, você tem de ter extintores. Tem de ter equipe treinada. Em um lugar com ajuntamento de pessoas, é preciso manter um bombeiro civil - aquele cara que você vê em lugares assim, vestido com uniforma de bombeiro, embora ele não seja da Polícia Militar. Trata-se de um profissional treinado para tomar todas medidas de segurança, para pegar o microfone e falar: "Saiam devagar, saiam por aquela porta, está acontecendo isso ou aquilo".

Toda casa noturna tem de ter bombeiro civil?

José Victor Oliva - É obrigatório. Em todas as casas noturnas com eventos acima de um determinado número de pessoas é obrigatório, e de responsabilidade do local, haver um bombeiro civil.

Um só ou vários?

José Victor Oliva - Isso depende do tamanho da casa. Além disso, gerentes, garçons, todo mundo precisa estar treinado a exaustão para saber o que fazer naquela hora. E é necessário também explicar às pessoas sobre os procedimentos - ao estilo do que acontece nos aviões: "As saídas de emergência ficam aqui e acolá, os extintores, ali etc".

Vale para todo lugar?

José Victor Oliva - Para qualquer tipo de aglomeração. Obviamente que, em um casamento, numa festa mais sossegada, você tem um tipo de rotina. Outra coisa: tinha gente de 16 anos na boate! Não consigo entender como uma casa noturna que servia bebida alcoólica tinha gente abaixo de 18 anos. E ninguém questionou! Para se ter uma ideia, nem ao Camarote da Brahma, que é no carnaval, uma festa pública, a gente pode levar menores de 18 anos. Então, para cada situação deve haver uma política de segurança. No ramo de eventos, de show business, promoção e entretenimento, essa é a primeira coisa que se faz. Outro exemplo: todos os estádios do Brasil estão sendo remodelados, não porque estejam velhos ou feios, mas porque não têm segurança. Nós estamos gastando milhões de reais para reformar as arenas, fazer (entre outras coisas) saídas de emergência. Um estádio para 40 mil pessoas tem de ser esvaziado em oito minutos. A conta é essa - feita por engenheiros especializados em trânsito de pessoas.

Mais um problema na Kiss...

José Victor Oliva - Sim. Imagine: a porta tinha dois metros de largura; a capacidade total era de 600 pessoas, mas havia mais de 1.000 naquela noite. Olha o tamanho do problema! Venderam ingressos a mais do que a casa comportava. E o que aconteceu? As pessoas não sabiam para onde correr na hora da confusão, não sabiam a política de segurança, foram para o banheiro, onde não havia saída de emergência. Grande parte das pessoas que morreram, morreram porque correram para o lado errado.

Quando você era da noite, não devia haver tantas normas nem tanta fiscalização, mas, provavelmente, você prestava atenção nessas coisas.

José Victor Oliva - Não só eu. Não é uma questão do Zé Victor. Em São Paulo, no Rio, em cidades onde há vida noturna muito evoluída, essa preocupação existe faz muito tempo. Eu sempre falei sobre isso com os meus funcionários nas minhas boates. Agora, é preciso salientar: quando você tem um arquiteto como Sig Bergamin, Ugo Di Pace e vários outros (com quem eu trabalhei durante muitos anos), fica muito mais fácil, porque eles sabem como desenhar uma casa noturna. Não tem gambiarra. O arquiteto já vem com uma planta que vai ser aprovada na Prefeitura, em que constam as saídas de emergência, os materiais usados etc. E a tecnologia melhorou muito nesses anos todos.

Um caso como o de Santa Maria deve ser duro de assistir, né?

José Victor Oliva - Falei hoje com o Ricardo Amaral. A gente estava lamentando, porque esse é o grande pesadelo do dono de casa noturna. A gente tem uma espécie de mantra, que é "segurança, segurança, segurança"; só depois vêm comida, bebida, cordialidade, diversão. Esse tipo de acontecimento acaba com uma carreira, acaba com a vida de um produtor de eventos. E não precisa nem ser incêndio. A gente faz muito evento na praia aqui no Banco de Eventos, na Rio 360. Alguns, para mais de um milhão de pessoas. Qualquer coisinha pode dar errado. Então, essa preocupação é gigantesca.

Hoje em dia, nos eventos que produz, como cuida da segurança? Afinal, você podia ser o cara que organizou a festa dos universitários em Santa Maria, certo?

José Victor Oliva - A gente já organizou milhares de festas de universitários. É sempre a mesma coisa. São jovens que estão no auge da testosterona, que, na maioria das vezes, fumaram alguma coisa, tomaram alguma coisa, beberam... Você precisa ter um exército de seguranças treinados - até para que não batam nas pessoas, mas orientem. Orientar no sentido de "já chega, vem comigo". Fora isso, temos ambulância, posto médico, damos orientação de todos os tipos. A gente faz desde o Camarote da Brahma até eventos com milhões de pessoas. De pequenos cafés ao casamento do Marcel Telles - que foi há um mês atrás. Cada evento tem seu programa. Um é de segurança de briga, outro é de segurança de vida, outro é de segurança patrimonial, mas a segurança vem sempre em primeiro lugar.

E o problema da superlotação?

José Victor Oliva - Não pode ter superlotação. Ponto! Acabou! A gente vive um momento em que grandes eventos estão vindo para o Brasil. Copa, Olimpíada... É o momento de mostrar que podemos transformar torcedores em turistas, entendeu? O melhor que pode acontecer para o Brasil é que o país se torne um lugar onde as pessoas venham, desfrutem e falem: "Vou voltar com a minha família". Agora, para isso, a gente não pode se limitar a fazer só jogos de futebol e eventos olímpicos muito legais. Temos de ter qualidade, desde o aeroporto até os táxis, e com preços bons. Mais do que tudo: a pessoa precisa se sentir segura. Lembra quando a gente ia a Nova York e não podia se aventurar no Harlem? Então, agora está lindo, maravilhoso. Quer dizer, tudo tem conserto. Miami, que era uma cidade 'cucaracha', de quinta categoria, virou um paraíso para brasileiros. Cartagena, na Colômbia, era um lixo e se tornou destino turístico espetacular. A gente tem de olhar para a Copa e os Jogos Olímpicos com esse espírito. 

No quesito segurança, você acha que o Brasil melhorou? O que falta?

José Victor Oliva - Acho que falta uma política clara e dura em relação à responsabilidade. Esse negócio de dar problema e o cara não ir preso é um absurdo total.

E a fiscalização?

José Victor Oliva - Existe fiscalização. A gente sabe que existe. Ela pode ser muito bem feita. Não sei como é em Santa Maria, mas conheço a de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Ela existe e é bem feita.

Uma tragédia como essa não aconteceria num grande centro?

José Victor Oliva - Não dá para dizer isso, mas posso afirmar que fiquei tristíssimo com o que aconteceu. Imaginei todas as noites em que isso poderia ter acontecido comigo. Fico imaginando o que é perder um filho numa tragédia assim. Porque não foi um raio que caiu, entende? Foi uma bosta de um sinalizador, uma coisa absolutamente ridícula. Se o cara não levasse o sinalizador, nada teria acontecido. Bastava o dono da boate proibir entrar com aquilo: "Na minha boate, não!". Pronto. Simples. Mas não foi o que aconteceu. Acabaram com a vida deles e a de muitas famílias. A gente precisa ficar maduro em relação a grandes eventos, porque vamos receber todos!

O que o Brasil pode aprender com essa tragédia?

José Victor Oliva - Já tive milhares de problemas no Camarote da Brahma, por exemplo. Mas nenhum, graças a Deus, relativo à segurança. Já teve briga, já teve gente querendo invadir. Afinal, lá tem cerveja, não milk shake. E todos podem beber à vontade. Então, as pessoas ficam alteradas. O que podemos aprender? Que é preciso investir em segurança. A gente tem reuniões e reuniões e reuniões sobre o assunto. Depois que a segurança está absolutamente dominada, aí falamos de cenografia, bebida, música etc. E de como chegar ao evento, porque não se trata apenas da segurança do local. Estamos falando da segurança dos ônibus, do estacionamento, dos funcionários, entende?

O velho mantra...

José Victor Oliva - O mantra. Eu gosto muito do fato de os judeus, todo ano, falarem sobre o Holocausto. Gosto mesmo, porque é para lembrar, é para colocar na cabeça das pessoas que aquilo não pode acontecer outra vez. O problema do Brasil é simples. Há pouco tempo atrás, tivemos aqui em São Paulo um monte de gente morta, fuzilada. Daqui a pouco, ninguém se lembra mais. Há poucos anos, um menino, no Rio de Janeiro, foi arrastado por um carro. Parece que ninguém se lembra mais. Um desfile de acontecimentos, um mais pavoroso que o outro, que acabaram em morte. E as pessoas, parece, já se acostumaram. A falta de segurança, a falta de amor à vida, a falta de autoestima chegou a um ponto que é o desastre do dia. Hoje, uma moça foi assaltada, o cara deu um tiro na cabeça dela. Isso já virou uma carnificina, a tal ponto que tenho medo de que esse assunto, de alguma forma, vire banal. Foram mais de 230 pessoas que morreram na Kiss. Mas não tem o mesmo charme que o avião da Air France que caiu, há alguns anos. Não tem o mesmo charme, mas o número de vítimas foi quase o mesmo. 

Por isso é preciso ficar lembrando sempre...

José Victor Oliva - E as pessoas precisam ser punidas de acordo. Todos têm de receber a punição devida. Para que a gente comece a cair na real. Acho que é isso.

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