Quem diria... Miles Davis no Brasil

Miles Davis vem aí. Nos 20 anos de sua morte, o Brasil terá o privilégio de abrigar a grande exposição We Want Miles, estreada em 2009 em Paris com o subtítulo Le Jazz Face à Sa Legende (o jazz face à lenda). Miles fisicamente se foi, mas sua lenda está cada vez mais viva. Em 2009, o baterista Jimmy Cobb, único sobrevivente da banda que gravou 50 anos antes o LP clássico Kind of Blue, apresentou-se em São Paulo com a So What Band, reconstituindo a gravação histórica. No Rio, um show-cover do álbum fez parte da série Clássicos do Jazz ao Vivo. E também foi lançado aqui o livro Kind of Blue: A História da Obra-Prima de Miles Davis, do jornalista Ashley Khan. (Raros álbuns na história da música mereceram um livro inteiro.)

, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2011 | 00h00

Não estaríamos aqui diante de um excesso de museologia? Um comportamento em choque frontal com a essência do jazz: o aqui-e-agora? O mito da liberdade total da improvisação encerra suas contradições e, na ausência dos grandes criadores, que foram cantar em outra praia, a prática dos "tributos" se torna cada vez mais prestigiada e procurada.

A exposição We Want Miles, em outubro de 2009, na Cité de la Musique de Paris, foi um tremendo sucesso de público. No ano passado, instalou-se em Montreal, Canadá. Os organizadores da mostra já visitaram os locais brasileiros e ficaram satisfeitos com as instalações do Centro Cultural do Banco do Brasil (Rio) e do Sesc Pinheiros (São Paulo). O evento acontecerá em agosto e setembro, coincidindo com a data da morte de Miles, 28 de setembro. Curador da exposição, o jornalista e jazzófilo francês Vincent Bessières contou com o apoio dos herdeiros de Miles e de músicos e outros profissionais ligados à sua carreira, mas teve dificuldades em reunir instrumentos, objetos e roupas e negociar o empréstimo de tais raridades com seus donos. Levou dois anos para montar a mostra, dividida em módulos fechados, cada um com a trilha sonora do período. O ambiente Miles Ahead cobre a fase de 1955 a 1962 e reproduz o famoso estúdio da Columbia na Rua 30 em Nova York - uma antiga igreja armênia convertida em centro de gravações - que seria depois demolido.

Todo amante do jazz lembra o que fazia quando soube da morte de Miles, naquele sábado de 1991, 28 de setembro. Poucas pessoas lembram o que Miles fazia em 1974, quando soube da morte de Duke Ellington, em 24 de maio, dois dias antes de Miles completar 48 anos. Ele tocava no Brasil, num momento de crise, e chorou copiosamente. Lembra o trompetista em sua autobiografia: "Comecei a pensar seriamente em me aposentar da música em 1974. Estava em São Paulo, Brasil, e tinha bebido um montão de vodca e fumado alguns baseados - coisa que nunca fazia, mas estava me divertindo muito e disseram que era da boa". Resumindo a ópera, nosso herói foi acabar entubado num hospital e quase morreu. "De 1975 até o começo de 1980 não cheguei a pegar no trompete." Mas Miles - comparado a Picasso pela quantidade de fases que atravessou em sua arte - retornou aos palcos e às gravações nos anos 1980, improvisando em cima dos novos sons: pop, funk, Michael Jackson, Prince.

Que se cuide o vigia da mostra We Want Miles: como no filme Uma Noite no Museu, o fantasma do trompetista é bem capaz de aprontar por volta da meia-noite. Na onda dos tombamentos que assolam o patrimônio da humanidade, sugiro alguns bens imateriais milesianos para incrementar a exposição:

1.) A frase do romancista Antônio Torres sobre a interpretação de My Funny Valentine por Miles, com surdina: "Um cão uivando para a Lua".

2.) Os meros - e preciosos - um minuto e quarenta segundos de Prenda Minha - Song N.° 2, no álbum Quiet Nights - pequena pérola da colaboração de Miles com o gênio orquestral Gil Evans.

3.) O episódio em Paris durante a gravação da trilha de Elevador para o cadafalso (1958), de Louis Malle. Um fragmento de pele se descolou do lábio de Miles e ficou preso no interior do bocal do trompete. Ele seguiu tocando. O que seria um defeito para ouvidos mais ortodoxos foi acolhido pelos técnicos de gravação e o sopro à flor da pele de Miles ficou eternamente preservado para os cultores da arte do acaso.

4.) A love story do século 20 - a Musa do Existencialismo e o Picasso do Jazz - que só não vingou porque eram apegados demais a suas cidades do coração: Juliette Gréco a Paris, Miles Davis a Nova York. Seria genial estampar em grandes letras nas paredes da mostra o depoimento de Juliette: "Soube da morte de Miles quando voltava a Paris de carro, ouvi a notícia no rádio e a vida para mim ficou subitamente terrível. Todos nós ficamos um pouco mais sozinhos. Pela primeira vez na vida, senti que me tinham roubado a juventude. Ele está sempre conosco, sua música, é claro, mas também sua imensa presença, seu humor irônico, mas carregado de respeito, seu riso estranho, seu rosto magnífico, esculpido como uma estatueta egípcia. Quando nos encontramos das últimas vezes, tive a impressão de que Miles era eterno".

ROBERTO MUGGIATI É PESQUISADOR, AUTOR DE IMPROVISANDO SOLUÇÕES

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