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Quebrando regras

Criador de 'Breaking Bad' atribui sucesso da série à internet e à pirataria

Pedro Caiado - Especial para o Estado/Londres, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h19

Antes de estrear, Breaking Bad foi descrita pelo executivo de um grande canal como provavelmente a pior ideia para um seriado. Cinco temporada depois, no entanto, a série é hoje considerada a responsável por trazer de volta à TV um público desacreditado com o formato. Ao longo dos anos, a atração pôs em xeque os conceitos de moralidade desses tempos modernos com a história de um professor de química (vivido por Bryan Cranston) que passa a fabricar drogas, a princípio para pagar seu tratamento contra o câncer.

O enorme sucesso do programa já o levou ao Guinness World Records, por alcançar o maior índice de aprovação entre os usuários do site MetaCritic.com, uma central de avaliações postadas por críticos especializados. E, de certa forma, é possível dizer que a série também foi responsável por trazer a internet para mais perto da TV. Comunidades do Twitter, fóruns e outras rede sociais debatem com fervor as teorias e analisam cada capítulo - a mesma reação a séries de sucesso como Lost e Doctor Who. O seriado, vendido para mais de 170 países e com uma versão colombiana sendo gravada, chamada Metastasis, chega ao fim com a quinta temporada. A reta final da trama está em cartaz nos EUA mas, no Brasil, o canal AXN não informou a data de exibição dos últimos oito episódios.

Vince Gilligan, de 46 anos, o homem por trás do fenômeno e responsável por outra sensação da TV do fim dos anos 90, Arquivo X, explica ao Estado, em Londres, que o projeto quase não saiu do papel. "Quando eu apresentei a ideia pela primeira vez aos canais de TV, a recepção foi sempre de desagrado. Os executivos me olhavam chocados", disse ele entre gargalhadas, acrescentando que a HBO odiou a proposta. "Na realidade, estou surpreso que tenha chegado tão longe", afirmou ele, que se descreve como apaixonado pela ideia que, originalmente, surgiu de um comentário de um colega. "Acho interessante que o público ainda goste de Walter White. Eu perdi a simpatia por ele no meio da série, mas talvez o público o ame, pois ele é bom no que faz e as pessoas gostam de gente assim."

Breaking Bad deve a maioria de sua popularidade ao surgimento de novas plataformas, como Netflix, e à própria internet - na TV, sua audiência é considerada de nicho. "Sou muito antiquado em termos de televisão e tecnologia - não sou um cara tecnológico, estou muito velho para isso", comenta, sorrindo. "O Netflix nos salvou. Com certeza, Breaking Bad seria cancelado após a segunda temporada. Nós ganhamos muita audiência no boca a boca. As pessoas assistiam, gostavam e contavam para seus amigos. Não fossem esses serviços, ou mesmo a pirataria, sendo honesto, ninguém teria paciência de esperar reprises na TV", confessa Gilligan.

A série está longe dos padrões dos maiores sucessos da TV, que apostam, por exemplo, em elencos enormes - caso de Família Soprano e Lost. Em Breaking Bad, há apenas dois personagens principais na maior parte de todos os episódios de uma hora: o professor de química Walter White (Bryan Cranston) e o traficante Jesse Pinkman (Aaron Paul). "Mas, se você reparar bem, o seriado é muito parecido com Arquivo X, também com dois personagens principais. A estrutura é a mesma. Segui aquele padrão."

A violência na série, ironicamente, não é algo muito apreciado por Vince. "Não gosto de ver sangue na vida real e não poderia ser médico. Já gostei mais de violência em filmes. Eu entendo que Breaking Bad não é para qualquer um, mas eu sinto que aquela violência é compreensível no contexto", justifica.

Durante a entrevista, Gilligan diz que escreve sobre o que sabe. Ele então conhece os bastidores do tráfico de metanfetamina? "Nunca vendi drogas nem experimentei, mas nem o Walter White, se você observar bem, pelo menos não até agora. O Walter é um nerd de meia-idade, parecido comigo, mas quanto mais ele caminha para o lado negro, menos se parece comigo. Mas eu entendo o personagem", conta ele, desconfortável.

Sobre o processo de criar o roteiro da série, ele explica: "Nós temos de pensar qual o final deixaria satisfeitos não só os telespectadores, mas também nós roteiristas e qual o fim Walter e Jesse gostariam de ter. É duro. É como um jogo de xadrez e eu não sou bom nisso. Você tenta atacar de diferentes ângulos e pensar 20 vezes à frente. Tive ataques de ansiedade, achando que tinha estragado tudo, mas os meus roteiristas sempre me salvaram desses caminhos", explica. "Agora que está tudo pronto, talvez eu tenha o choque da minha vida quando o fim for ao ar. Talvez as pessoas se decepcionem, mas eu me sinto muito satisfeito com o final", avalia.

O sucesso de Breaking Bad gerou subprodutos. Há uma versão colombiana sendo gravada e outras em discussão na Europa. Vince confessa que trabalha em um possível seriado também para o personagem Soul Goodman, o advogado inescrupuloso de Breaking Bad: "Estou ainda trabalhando na ideia. Mas, claro, gostaria que houvesse muitas versões de Breaking Bad pelo mundo", conclui.

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