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Quebrando a cabeça

Montar um quebra-cabeça é um exercício que ilustra muito bem como nosso cérebro funciona

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2020 | 03h00

Há alguns anos, eu me deparei, não sei por quais descaminhos da internet, com um quebra-cabeça intitulado A árvore da vida, mostrando a evolução das espécies desde os organismos primordiais, passando por plantas, invertebrados, marsupiais, primatas e seres humanos. “Um dia eu compro isso”, pensei, mas adiei indefinidamente o projeto, mesmo já conhecendo as virtudes desse passatempo.

Afinal, montar um quebra-cabeça é um exercício que ilustra muito bem como nosso cérebro funciona. Esse órgão está o tempo todo buscando encontrar padrões, ligar os pontos, encaixar as peças soltas que a realidade nos apresenta. De forma nem sempre consciente o cérebro junta trechos de diálogos a olhares e gestos, lembranças de uma troca de mensagens se encaixam com uma frase solta e num segundo temos a revelação que estamos num relacionamento sério. Vai chover? Posso atravessar a rua? Ele gosta de mim? Preciso procurar outro emprego? Decisões pequenas e grandes são feitas com base nesse mecanismo.

Quando montamos um quebra-cabeça, vemos isso acontecer diante dos nossos olhos, em escala macroscópica. Olhamos as peças uma por uma, laboriosamente separando por cores, encontrando os cantos, montando um pedaço aqui, outro ali. De repente, uma peça salta aos nossos olhos e sabemos instantaneamente onde ela se encaixa, praticamente sem precisar olhar. É o cérebro reconhecendo o padrão, estocando informações, trabalhando pelo todo nos bastidores enquanto prestamos atenção nos detalhes.

É o que também ocorre quando estamos nos debatendo com um problema difícil. Por vezes vislumbramos muitos caminhos, mas aparentemente nenhum leva a uma solução. Depois de horas, dias, trabalhando naquilo, resolvemos parar. E, de repente, no momento em que estamos pensando em outra coisa, fazendo outra tarefa ou só descansando, correndo, tomando banho, a solução se apresenta para nós como se fosse uma epifania. Dá um prazer que mistura alívio e sensação de conquista, e somos tomados pela urgência de largar tudo para testar a ideia.

Encontrar o lugar correto para uma peça de quebra-cabeça traz a mesma sensação de recompensa. Se ela é menor em intensidade – trata-se apenas de um brinquedo, afinal –, por outro lado, ela se repete muitas vezes – cem, quinhentas, mil, quatro mil vezes, dependendo do tamanho da caixa que resolvemos encarar.

O fato de o quebra-cabeça concentrar no mesmo tempo e lugar essas atividades que engajam nosso cérebro e ainda nos dão prazer faz dele um exercício ótimo para distração. O regime de reforço intermitente que ele promove é capaz de nos prender por horas, desviando nossa mente para longe de outros pensamentos, como problemas e preocupações.

Não deve ter sido por acaso, portanto, que finalmente comprei A árvore da vida durante essa pandemia. E qual não foi meu espanto quando a encomenda chegou com um bilhete de desculpas pela demora enviando pela loja: as compras haviam aumentado mais de mil por cento no período, diziam.

Pelo visto, não foi só minha família que viu nos quebra-cabeças uma forma de atravessar esse caos do mundo até que as peças se encaixem em seu lugar – com perdão pelo trocadilho. 

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

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