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Que tédio

Assim como a sede nos impele a procurar água ou a bexiga cheia nos leva a buscar um banheiro, o tédio nos leva a procurar estímulo

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2020 | 03h00

Nada é desconfortável por acaso. Os incômodos que nos assolam no dia a dia existem para nos avisar que algo não está bem. O bumbum dói quando ficamos muito tempo sentados nos forçando a mudar de posição, protegendo ossos, músculos e ligamentos de lesões. A desagradável experiência de ter barriga roncando de fome avisa que é hora comer, evitando hipoglicemias. As pálpebras pesadas, a sensação de areia nos olhos, não deixam dúvidas que precisamos dormir se quisermos preservar nossos neurônios. Incômodos são sinais.

Por serem desagradáveis, no entanto, a humanidade não poupa esforços para encontrar meios de acabar com eles. Quando criamos os analgésicos, por exemplo, parecia que estaríamos para sempre livres da dor. Não só isso não aconteceu como nos tornamos menos hábeis em lidar com ela. Outra sensação desagradável que parecia ameaçada de extinção, mas que voltou com tudo nessa quarentena é o tédio.

Esse desconforto acontece normalmente quando nosso cérebro não está sendo estimulado. Assim como o tempo parece se dilatar quando estamos com alguma dor – um minuto com dor de dente parece durar horas –, quando estamos entediados, parece que a hora não passa. Os minutos se arrastam em câmera lenta enquanto olhamos os ponteiros do relógio. E ainda assim, quando a noite chega, nos espantamos que o dia já tenha acabado – temos a impressão de que o tempo voou. Como o cérebro marca o tempo também pela quantidade de memórias num intervalo (quanto mais memórias, mais longo parece o período), não ter registros ao longo do dia todo dá impressão de que ele foi curto – embora, paradoxalmente, tenha demorado a passar.

O tédio é um alerta para a monotonia, portanto. E assim como a sede nos impele a procurar água ou a bexiga cheia nos leva a buscar um banheiro, o tédio nos leva a procurar estímulo. Ele é um motor para a criatividade, já que empurra o cérebro para ação saindo de um estado de divagação – no qual as ideias se associam mais livremente. Pode também ser gatilho para início de uma atividade física. Mas muito tédio também nos leva a direções ruins: abusamos da comida, criamos encrenca, até em drogas ilícitas corre-se o risco de buscar o estímulo de que se sente falta.

A internet e, particularmente, os smartphones foram para o tédio o que os analgésicos foram para a dor. Parecia que nunca mais experimentaríamos o marasmo. Ao primeiro sinal de desconforto, bastaria sacar o celular e entrar numa rede social, abrir um jogo; a solução estava na ponta dos dedos. Mas assim como aconteceu com a dor, o tédio insiste em contornar esses artifícios e nos atacar. E pior, de tanto fugir fomos desaprendendo a lidar com ele e reduzindo nossa tolerância a seu incômodo.

O resultado? Estamos entediados como nunca nesses dias em que o cotidiano se tornou um pouco mais monótono para muita gente.

Inserir na nova rotina intervalos e variação entre as atividades pode ser um bom antídoto. Mas, além disso, vale a pena resgatarmos a capacidade de tolerar o tédio. É a melhor proteção para não sairmos fazendo qualquer coisa – das quais podemos nos arrepender – só para nos vermos livres dele.

 

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