Que mistérios tem Clarice?

Noite de estreia de Clarice Niskier como diretora teatral, no Teatro do Leblon, duas quintas-feiras atrás. Aquela Outra, de Lícia Manzo, com Cristina Flores e Tânia Costa, termina com muitos aplausos, mas Clarice nada vê nem ouve - só conferiria o resultado de seu trabalho num vídeo gravado pela produção.

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2011 | 03h07

Ela está na sala Fernanda Montenegro, ao lado, encenando A Alma Imoral, que lhe rendeu um Prêmio Shell, um Qualidade Brasil e seis anos consecutivos de casa cheia (já são 140 mil espectadores) em 23 cidades, de Belém a Porto Alegre. No Rio, seu palco primordial, o monólogo reestreou em setembro, após quatro anos bem-sucedidos em São Paulo.

As duas peças começam no mesmo horário e ficam no teatro até 18 de dezembro. Ou seja: Clarice jamais poderá assisti-la com a plateia, como gostaria. "Quando acabou a Alma, meu filho (Vitor, de 12 anos) estava me esperando: 'Mãe, a peça foi ótima, fica tranquila!' Assim recebi a boa notícia", conta.

"Foi muito louco. Cada vez que eu falava alguma coisa no palco, pensava: 'Elas devem estar bem lá'. Se eu não estava muito bem, duvidava: 'Ai, será que elas estão bem?' Acredito nessa conexão, estivemos muito juntas (a peça é um projeto de cinco mulheres, contando a autora e a produtora, Bianca de Felippes). Um pouco da energia d'A Alma estava lá, e vice-versa."

Clarice conversou com a reportagem semana passada, enquanto fazia um lanche rápido. É tudo que o período curto entre um ensaio com suas atrizes e uma sessão da peça adaptada pela atriz "judia-budista" do livro homônimo do rabino Nilton Bonder lhe permitiria - para quem ainda não assistiu, é essa aparente contradição religiosa de Clarice que serve de gatilho às discussões d'A Alma, sobre ontologia, moralidade, obediência, corpo e alma.

Após analisar o vídeo com o desempenho de Cristina (ela é Júlia, uma alta executiva) e Tânia (Dália, dona de casa), no embate reflexivo sobre suas frustrações, ela dava às duas orientações sutis. O que lhe interessa é ajudá-las, com sua própria sensibilidade feminina a chegar às motivações mais íntimas das personagens em cada fala. Júlia não quer abrir mão da carreira, mas deseja ser um pouco como a mãe da amiguinha da filha, disposta a brincar com a menina e a fritar croquetes de carne. Dália, que se casou por se sentir muito amada pelo pretendente, queria poder ser livre, nem que fosse para trabalhar meio período numa biblioteca. Liberdade - esta é a palavra-chave da peça.

As questões femininas permanecem no horizonte para Clarice: está adaptando Eu Matei Sherazade, da libanesa Joumana Haddad, livro que desmonta estereótipos da mulher no mundo árabe. Ela talvez enverede também por Segundas Intenções, de Bonder. "Mas fazer uma peça sobre ele exige um mergulho para outro lado, outra corrente. Estou muito entusiasmada com minhas pesquisas. Eu sou a cigarra e a formiga, canto no verão e trabalho no verão".

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