Que meia colocar em que pé?

Ao voltar de uma Semana Literária do Sesc em Londrina, passei por São Pedro, participei da Semana Gustavo Teixeira, poeta que precisa ser redescoberto pelo Brasil, e segui para Santa Cruz do Rio Pardo. Coisa boa foi rever Tatiana Nolasco, que conheci há anos numa Bienal de livro, prima da Sonia Nolasco, amiga de quem perdi contato, viúva de Paulo Francis. Encontrei-me mais com Sonia em Nova York do que depois que ela voltou ao Brasil. Pois Tatiana organizou a Quarta-Feira de Livro no Colégio Camões, em Santa Cruz. Superorganizada, cheia de acontecimentos, participação total dos alunos. Levaram escritores de primeira linha, sem olhar despesas. Ah, se cada colégio privado fizesse coisa semelhante, em vez de ficar preocupado apenas em ser o primeiro no índice de aprovações de vestibular.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2010 | 00h00

No dia anterior, ao lado de Menalton Braff, tinha participado de uma fala sobre inspiração, literatura, leitura e o significado do livro para nós e, agora, tomava o café da manhã, no hotel, com os professores Lupércio e Adriana. De repente, desviei o olhar para um muro em frente e comecei a rir.

- O que foi, perguntou Adriana. O que viu?

- Uma coisa ótima.

Tirei minha cadernetinha, anotei. Lupércio, curioso, inclinou-se, deixei que lesse. Ele riu também. É que no muro em frente havia uma série de anúncios, mas um me chamou a atenção:

"RAIMUNDO

Quase tudo para construção"

Perfeito. Atrair o freguês com o tudo, mas adverti-lo: nem tudo. Ninguém poderá acusar o Raimundo de propaganda enganosa. Um homem honesto. Coisa rara, hoje em dia, raríssima. Todos são perfeitos, são os melhores, os maiores, os únicos. Raimundo é sincero. Fiquei imaginando o freguês entrando:

- Quero um prego torto. Mas com a ponta virada para a direita.

Claro que provocaria uma questão fundamental. O prego, dependendo da posição, teria a ponta virada para a direita ou para a esquerda. No que o empregado apanhasse o prego na posição incorreta, estaria errado e o freguês reclamaria. Recusaria. Claro que o empregado poderia virar o prego e dizer:

- Meu senhor, olhe bem. O prego tem a ponta virada para a direita.

O freguês percebendo a manobra, argumentaria:

- Quer me enganar? Pensa que não vi o que você fez? Virou o prego.

- De qualquer maneira, ela agora está na posição correta, como foi pedido.

- De jeito nenhum. A posição correta é aquela em que ele se encontrava na caixa. Vá buscar a caixa de onde tirou.

O funcionário saindo, o freguês decidiria ir atrás, para ver se ele não apanhava - desta vez - um prego da caixa com ponta à direita. Nesse momento, perceberam os dois, o freguês e o funcionário, que havia apenas pregos com a ponta virada. Tanto poderia ser para a direita como para a esquerda. E mergulharam em uma dúvida lancinante: existiriam pregos com a ponta virada somente para a direita? Nesse momento, ambos deram razão ao Raimundo, a casa tem quase tudo.

Quantas vezes não vamos a um restaurante, abrimos o cardápio, escolhemos o prato, o garçom informa:

- Hoje não tem!

- Mas está escrito aqui!

- Hoje está em falta.

- Por que não riscam ou cobrem com um adesivo?

- Teríamos de imprimir um cardápio novo.

- Por que não colocam um papelzinho, como há em certos livros, avisando de uma errata?

- Por que o senhor não escolhe outro prato? Não é mais fácil?

Um amigo meu foi levado às raias da loucura por causa das meias. Apanhou um par delas da gaveta, ia calçá-las e a mulher, sabe-se lá por que razão, disse:

- Cuidado, não vá colocar o pé direito no pé esquerdo. Ou vice-versa.

Nossa, ele pensou. Uma mulher que diz vice-versa! Acho que não conheço minha mulher, ela nunca disse isso a vida inteira. No entanto, ia enfiar a meia no pé e recuou, olhou bem. Seria o direito ou o esquerdo? Virou e revirou a meia. Nunca tinha pensado nesse assunto. Para ele, as meias serviam para qualquer pé. Não há diferença. Calçou uma, achou que estava meio apertada, tirou, calçou no outro pé. Ponderou: esta deve ser deste, portanto, a outra será do outro. Ficou aliviado.

Não contava, contudo, com a angústia que tomou conta dele. Por dias e dias, ao apanhar as meias, hesitava. De que pé é esta? E esta? E se a empregada tivesse misturado as meias? Porque ele tinha várias iguais, quando gostava de uma meia comprava meia dúzia de uma vez. Ou dez, dependia. Só que agora, todas as manhãs enfrentava o dilema: direito ou esquerdo? Nem contou à mulher, aos filhos, era uma coisa muito pessoal. Não queria sobrecarregar os outros com inquietações que julgava metafísicas, íntimas. E se a casa inteira começasse a se preocupar com suas meias? Os filhos, as filhas? A própria mulher? Mas por que ela foi levantar tal problema? Teria uma razão, estaria querendo se afastar dele?

Seria quem sabe uma questão para ser levantada nacionalmente, para discutir em seminários, fazer parte de programas de governo, ser levado à Fiesp, convocar empresários, quem sabe também filósofos, antropólogos, teólogos, economistas. Todas as manhãs, sozinho, este amigo permanece horas em silêncio, meditando, refletindo, imaginando que meia colocar em que pé.

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