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Que Horas Ela Volta

Durante muitos anos quem trabalhou lá em casa foi a Solange. Ela veio da Bahia. Ela era nossa empregada. Fazia tudo. Mas o principal era que brincava comigo. Quando ia dando 17h, eu já descia pra cozinha e perguntava: Sô, vamos jogar? E ela me respondia que ainda tinha muito serviço. Era a hora que eu punha a mão na massa e assumia a louça enquanto ela varria. 

Fábio Porchat, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2015 | 05h00

Queria que ela terminasse logo pra irmos até de noitão no Banco Imobiliário. Eu com 10 anos ela com 20 e poucos. Brigávamos durante a partida, um puxava o cabelo do outro, riamos de besteiras, assistíamos Topázio no quarto dela, uma novela mexicana do SBT bem novela do SBT, disputávamos casinha a casinha, hotel a hotel e a noite sempre terminava bem. Mesmo quando a minha mãe chegava e eu e a Solange corríamos escada abaixo reclamar pra ela dos arranhões que os dois tinham no corpo. Os dois ficavam de castigo. E no dia seguinte, mais jogatina. 

Minha mãe trabalhava a tarde toda e a noite, geralmente, meus pais saíam para alguma exposição de arte. Eu dava aulas de português e matemática para a Solange que chegou analfabeta e saiu lá de casa com uma letra muito mais bonita que a minha. Brigava com ela porque o certo de pronunciar L, M, N era éle, ême, êne e não lê, mê, nê. Não lembro quanto tempo a Solange ficou lá em casa, me lembro que bastante, mas um belo dia ela foi embora. Casou, teve filhos, enfim, seguiu a vida. 

A Solange veio logo depois da Edivalda. Edivalda cuidou de mim desde quando não tenho memória, até quando já começo a me lembrar das coisas. Trabalhou lá em casa por um período longo. O que guardo na memória é um carinho muito grande por essas mulheres que ajudaram a me criar. 

No filme “Que horas ela volta?” Regina Casé é Val, a empregada de uma família rica que cuida do... Fabinho. (Pra você ver como são as coisas.) A vida dela vira de ponta cabeça quando a sua filha “de verdade” vem do nordeste pra morar com ela e questiona o hierarquia estabelecida na casa dos patrões. Val é “praticamente da família”. Só que não é. Não pode sentar a mesa para comer, não pode entrar na piscina, não pode tomar o sorvete X, não pode um monte de coisa. A relação patrão/empregada faz parte da nossa cultura. Convivi com isso a vida toda. 

O abismo social que separa as pessoas no nosso país tinha que ser combatido diariamente. Apesar do que representa esse hiato, fico muito feliz de ter tido essas mulheres na minha vida. E gostaria de agradecê-las por tudo o que fizeram por mim e pela minha família. Vá ao cinema e assista “Que horas ela volta?”. O filme fala muito de você, leitor do Estadão. E obrigado Regina Casé, por me ensinar sempre tanto, seja como a Val ou seja como Regina.

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