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Que fatos?

Discute-se se o que houve em 64 foi um golpe ou uma revolução redentora, e o que veio depois foi ou não foi uma ditadura de 20 anos.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2019 | 04h30

A máxima do Marx, segundo a qual a História só se repete como farsa, tem uma versão brasileira: aqui a História não se repete, se corrige. Discute-se se o que houve em 64 foi um golpe ou uma revolução redentora, e o que veio depois foi ou não foi uma ditadura de 20 anos. Uma facção sustenta que houve, sim, um golpe e uma ditadura e que os fatos confirmam isso, outra facção sustenta que nunca houve golpe e os 20 anos de ditadura foram um mal-entendido, uma terceira facção aceita que houve um golpe e uma ditadura e os fatos confirmam isto, mas que não se deve dar importância demais aos fatos. O fatos são volúveis, os fatos são tiranos, não é justo que a memória de uma nação se submeta aos fatos sem poder reagir. 

Por exemplo: por que devemos conviver com a lembrança cruel dos 7 a 1 na Copa de 2014 só por respeito aos fatos, que não tiveram nenhum respeito por nós e nosso futebol pentacampeão? Poderíamos eliminar os fatos da memória um por um, sem escrúpulos, pois se trataria da nossa paz de espírito, da autoestima nacional. Com a derrota dos fatos mandaríamos os alemães pra casa, humilhados. Não precisaríamos nem ganhar a Copa, bastaria nos livramos do 7 a 1. 

Quem acredita que podemos corrigir o passado pode se aproveitar do fato de termos um presidente que também acredita, e já anunciou isso várias vezes. Bolsonaro é da linha “Fatos? Que fatos?” como a maioria dos militares, que preferem exorcizar um passado incômodo ou insistir que salvaram a pátria, e só divergem na quantidade de truculência justificável para cumprir a missão. Não se sabe se Bolsonaro vai endossar a linha oficial de que a História se corrige ou vai deixar pra lá. De qualquer maneira, continuar negando que houve um golpe e 20 anos de um regime discricionário é continuar vivendo uma farsa.

“Marxismo cultural” é uma frase ominosa, aproxima-se demais de “macartismo cultural”, e é um pretexto para os estragos que pode fazer na educação e na produção intelectual brasileiras, se obscurantismo se impor. 

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