Eduardo Nicolau/AE
Eduardo Nicolau/AE

Que coisa de criança!

Eles fazem música de gente grande quando pensam nos pequenos. Aqui, Adriana Calcanhotto entrevista Arnaldo Antunes. E vice-versa

Nathalia Molina / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Era para ser um encontro entre dois artistas, mas teve participação especial. Há três semanas, Arnaldo Antunes recebeu Adriana Calcanhotto em sua casa, em São Paulo, para um bate-papo. Partimpim, alter ego infantil da cantora, aprontou uma peça e apareceu por lá. Entrando na brincadeira, Antunes fez perguntas também para a pequena. "Qual a sua sobremesa predileta?" "Chocolate." Está explicado. Partimpim não resistiu à visão dos pedaços partidos sobre a mesa naquela tarde chuvosa. Nem ao assunto: música para criança.

Antunes e Adriana estão lançando DVDs de seus projetos infantis. O Pequeno Cidadão - disco gravado por ele com os amigos Antonio Pinto, Edgard Scandurra e Taciana Barros, com a participação dos filhos dos quatro músicos - estreia no formato. Já a cantora está satisfeita com o resultado de Partimpim Dois, o segundo DVD de seu heterônimo. A dupla também participa do festival Natura Nós no domingo dedicado ao repertório infantil, no próximo dia 17, na Chácara do Jockey.

A conversa rolou cheia de afinidades. Até das mais corriqueiras. Por acaso, eles têm o mesmo toque de celular. Filho de pianista, filha de baterista. A infância de ambos foi embalada por música erudita e canções brasileiras. "Eu tinha uma tendência a gostar mais da música que não era considerada infantil porque tinha uma impressão de que estava sendo subestimada, na maioria do tempo", disse Adriana. Hoje, com Partimpim, ela faz a mágica de transformar músicas de adulto em sucessos da garotada.

Já Pequeno Cidadão saiu da rotina dos artistas com seus filhos. "Fazíamos músicas para brincar, comer, pôr para dormir. Então, a gente quis registrar essas coisas, chamando os filhos para participar", contou Antunes. Para ele, a convivência com as crianças acaba aparecendo em tudo o que faz. "O olhar infantil é inspirador."

À noite, Calcanhotto voltou para o Rio com um DVD do Pequeno Cidadão, com dedicatória para Partimpim. Ao ver os adesivos que vêm na caixa, animou-se: "Adoro colar adesivos!" Quem gosta? A Adriana Calcanhotto ou a Adriana Partimpim? "A Partimpim." A sapeca estava brincando de esconde-esconde.

Repórter: O que ouvia na infância?

Antunes: Lembro que eu tinha uma vitrolinha com compactos. Tinha Beatles, Jovem Guarda. Para criança mesmo, só ouvia a Coleção Disquinho.

Adriana: Comigo é parecido. Tenho essa memória da Jovem Guarda, tinha também uma vitrola com uns discos. Mas eu achava isso um pouco chato. Preferia ouvir a música que meu pai ouvia, instrumental basicamente. Eu tinha uma tendência a gostar mais da música que não era considerada infantil porque tinha uma impressão sobre a música infantil de que estava sendo subestimada, na maioria do tempo. Gostava de ouvir outras coisas. Acho que as crianças ouvem o que está no mundo.

Antunes: A maioria dos discos da Partimpim é de canções que não foram feitas para crianças, mas se tornam música infantil quando a Partimpim grava. Como que se dá isso?

Adriana: Saiba (de Antunes, gravada em Partimpim) é uma canção assim. Me dá um clique. Eu ouço e sei.

Antunes: É maravilhoso. A tradução acaba acontecendo com facilidade, as crianças realmente entendem aquilo como música para elas. É lindo, acho que tem a ver com esse insight.

Repórter: Vocês aprenderam algo com essa experiência de música infantil? Teve um retorno da criançada?

Adriana: Sim, o meu projeto era fazer uma discografia. Eu não tinha interesse em fazer show, encarnar um personagem, mas as crianças me levaram para o palco.

Repórter: O que fazem tem de agradar primeiro os pais ou os filhos?

Antunes: Eu não penso nisso.

Adriana: A gente tem que se divertir.

Antunes: No Pequeno Cidadão, a gente já fazia isso no ambiente familiar. Temos filhos e já fazíamos músicas para brincar, para comer, para pôr para dormir. A gente só quis registrar essas coisas, chamando os filhos para participar. Claro que a gente quer fazer um disco que nos satisfaça esteticamente, então a gente imagina que os pais também devem curtir porque, enfim, a gente não quer fazer um disco tolo, mas que criança gosta.

Adriana: Fui picada por várias coisas em momentos diferentes até que saquei "vou parar de pensar e vou fazer". Achei um pouco que as crianças estavam sem alternativa, elas tinham um único modelo naquele momento.

Antunes: O que eu acho legal da Partimpim também é isso de a Adriana ter criado uma persona.

Repórter: Até o site é separado.

Adriana: Tudo é separado. Os contratos são separados.

Antunes: É uma artista que se fantasia, tem outra atitude de palco, outra banda, outro tudo. Isso é incrível é que nem os heterônimos do poeta Fernando Pessoa.

Repórter: Vamos para as suas perguntas? (Arnaldo tinha anotadas perguntas para Calcanhotto, para Partimpim e para as duas.)

Antunes: Para a Partimpim: você já tentou se enrolar como um tatu-bola?

Adriana: Já, diariamente. (risos)

Antunes: Dorme de luz acesa ou apagada e de porta aberta ou trancada?

Adriana: Durmo de lua acesa.

Antunes: Qual é seu brinquedo preferido? E sua brincadeira preferida?

Adriana: Brincadeira preferida é fazer show, brinquedo, guitarra.

Antunes: Você tem medo de boneca que fala?

Adriana: Tenho (gargalhadas)

Antunes: Qual a sua sobremesa predileta?

Adriana: Chocolate.

Antunes: Para a Adriana: você às vezes faz de conta que é a Partimpim?

Adriana: Fazer de conta não, mas já pensei "Por que não fico mais impregnada de Partimpim? É tão feliz, tudo para ela é mais fácil. Por que não pego carona?" (risos)

Antunes: Nos seus discos você compõe, nos discos da Partimpim são só canções de outro autores.

Adriana: No Partimpim Dois, têm canções dela, mas ela não é compositora, ela pode brincar de compor. Com essa banda agora ela fica muito mais solta. Se quiser tocar, toca. Se não fez o dever de casa, a banda segura. No começo do projeto, eu tinha mais ideia de que ia compor e acabou que essa ideia de descontextualizar, "isso aqui, apesar de não ter sido escrito com essa intenção, tem a ver", esse lado ficou mais forte.

Repórter: A cobrança é menor por ser para criança?

Adriana: Exatamente porque é para criança precisa ter muita atenção, rigor, capricho. Essa mentalidade "é para criança", eu tenho horror a isso. Não sei de onde sai, mas existe. Como é para criança pode ser mais barato, pode ser feito com menos recurso, tempo, desejo, tudo menos.

Repórter: Os adultos acabam também gostando?

Adriana: No show dá para ver essa junção dos adultos com as crianças e o que acontece a partir daí. Os adultos ficam completamente reféns daquele comportamento. As pessoas mais velhas são as que mais fazem bagunça, mais gritam, sobem na mesa, viram criança. É demais, isso é um privilégio.

Antunes: O show do Pequeno Cidadão tem uma coisa que no da Partimpim acontece também, no fim as crianças todas vão dançar lá na frente, vira uma rave infantil (gargalhadas).

Repórter: E as perguntas para as duas?

Antunes: A Partimpim se dá bem com a Calcanhotto? Às vezes elas brigam? (risos)

Adriana: Às vezes elas brigam. Porque são diferentes. A Calcanhotto não gosta de barulho, a Partimpim faz barulho. A Calcanhotto não gosta de acúmulo de objetos, a Partimpim acumula. Elas mal andam juntas porque não têm muito a ver. É até uma pergunta que eu ia fazer sobre o DVD que você gravou. Você acha que o trabalho do Pequeno Cidadão oxigena o seu trabalho "adulto"?

Antunes: Acabo fazendo muita coisa diferente, então acho que uma coisa tira um pouco a concentração daqui e traz o frescor que acabo usando.

Adriana: E as crianças aparecem nas outras coisas?

Antunes: Aparecem em tudo o que faço, de alguma forma. O olhar infantil é inspirador. Mas não é, assim, nada previsto para criança.

Adriana: Para os amigos dos teus filhos, você é o cara do Pequeno Cidadão?

Antunes: Não, tem muita criança que gosta do Iê Iê Iê. Hoje mesmo no lançamento do Pequeno Cidadão (do DVD) tinha uma mãe com uma criança que veio falar para mim "Eu gosto do Iê Iê Iê. Quando vai ter show?". As coisas se misturam, não tem jeito.

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