Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Que beleza de Tim Maia

Sem querer ser cover, Tiago Abravanel arrebata a plateia do Rio

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

O ogro Shrek, o javali Pumba, d"O Rei Leão, a mãezona Edna Turnblad, de Hairspray. O ator/cantor de musicais Tiago Abravanel sempre soube que o corpanzil (1,81 metro e atuais 115 quilos) o levaria mais a papéis cômicos como esses do que aos de príncipes ou heróis. Realista, sonhou com personagens que pediam corpulência. Ao saber das audições para reencarnar Tim Maia, por uma amiga que confiava em seu vozeirão, foi um "será?" seguido de muitas certezas.

"Vim para o Rio achando que já tinham escolhido outro. No teste, cantei Não Quero Dinheiro e Eu Amo Você e uma semana depois soube que era eu. Logo me mudei para Copacabana. É a maior oportunidade da minha carreira, é muita felicidade!", vibra o jovem paulistano, que de tão cercado por cariocas - a começar pelo tijucaníssimo Tim, do qual assistiu a dezenas de vídeos -, ficou com seu sotaque neutralizado. Até já ouviu reprimenda da mãe pelo telefone: "Olha esse carioquês, menino!".

"Reencarnar" Tim é modo de dizer. Desde o início dos ensaios, dois meses atrás, o diretor, João Fonseca, orienta Tiago a buscar no texto de Nelson Motta a sua versão do cantor, que morreu depois de 55 anos de excessos em 1998, quando Tiago era um gordinho de 10.

Com o sucesso da peça (há fila na porta e propaganda espontânea nas redes sociais), fica difícil imaginar outra voz no lugar da sua - foram cogitados Sérgio Loroza e o músico Duani, que fará o cantor no cinema.

No entanto, durante as audições, para mais de 15 candidatos, Fonseca chegou a duvidar que um neto do branquelo Silvio Santos poderia viver aquele "preto, pobre e cafajeste" (autoepíteto) tão bem descrito por Nelson no best-seller Vale Tudo - Tim Maia, que dá nome ao espetáculo em cartaz no Teatro Carlos Gomes.

"A gente conhece o Tim artista. Mas não o Tim namorando, brigando. Foi tudo da cabeça do Tiago. A voz era o principal, porque são mais de 20 músicas", conta o diretor, em seu quinto musical, o primeiro biográfico.

Recém-saído de uma novela pouco assistida, Amor e Revolução, no SBT do avô, Tiago, ator desde garoto, vive as delícias da recente consagração, mas não se permite escorregar no estrelismo. Com a adrenalina a mil, tem insônia, fuma para reduzir a tensão. Dá entrevista durante a sessão de maquiagem, sem a camiseta de São Jorge e os patuás com os quais chegara ao teatro, e até mesmo com a máquina de nebulização que usa, por dica de uma fonoaudióloga, para hidratar as cordas vocais.

"Pode fotografar, sou gordo mesmo!", brinca. "Muitas vezes eu me senti mal pelo fato de estar acima do peso. Para o Miss Saigon (em que foi substituto do protagonista), fiz muitos testes, porque queriam testar minha resistência. Pediram que eu emagrecesse. Em um mês voltei com 100 quilos, 12 a menos, e consegui o papel. Em relação ao Tim, tinha a questão das diferentes fases: não sou tão gordo quanto no fim da carreira, mas não tão magro quanto na juventude", conta o jovem, que guarda a frustração de ter sido escolhido substituto de Edson Celulari como a mãe de Tracy Turnblad, mas nunca ter entrado em cena como tal (fez outros quatro personagens pequenos). "Era um dos sonhos da minha vida..."

Muito mais do que a semelhança física, conseguida com muitas camadas de base bronzeadora no rosto, colo e braços, três perucas - duas para sinalizar a fase black power dos anos 70 e uma do corte com mullet dos 80 em diante -, o bigodinho de safado e a costeleta, é a voz de Tiago, que estudou Rádio e TV e largou pela faculdade de Teatro, que arrebata a plateia. É um número melhor do que o outro.

Toda noite Nelson Motta acaba em lágrimas. "Ele pegou tudo do Tim. Se fecho os olhos, eu o ouço. Ainda por cima, Tiago sabe fazer humor. O Tim sem humor não existia", diz o autor.

Engraçado é saber que ele se sente mais seguro como ator do que como cantor. Passou a fazer aulas de teatro ainda menino, quando a mãe, a primogênita de Silvio, Cíntia Abravanel, começou a dirigir o Teatro Imprensa e a paixão por aquele universo o contagiou. Só há quatro anos foi se meter nas aulas de canto. E ele também dança bem, coisa que ninguém via Tim fazer no palco. Quando era miúdo, disse para a mãe que queria ser bailarino. O pai não achou graça e logo lhe deu de presente luvas de boxe.

Tiago morava com a mãe numa "casa das sete mulheres" antes de trocar as madrugadas pós-teatro no Planeta"s, na Augusta, pelo Stalos, em Copacabana. Cíntia já foi assisti-lo, claro, e telefona para o filho várias vezes por dia para saber se está se cuidando na nova terra. O avô ainda vai.

QUEM É

TIM MAIA

CANTOR, MAESTRO COMPOSITOR

Sebastião Rodrigues Maia (1942-1998) começou a carreira no grupo Sputniks, mas não deslanchou logo, como o companheiro Roberto Carlos. Lançou mais de 30 discos, cantou soul, música para dançar e amar, e se tornou das vozes mais conhecidas do País.

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