Que a beleza recobre os seus direitos

O francês Georges Gachot é um apaixonado pela música brasileira. Autor de Maria Bethânia - Música É Perfume, prossegue em sua série de intérpretes com Rio Sonata, para homenagear Nana Caymmi. E tem o próximo personagem em vista - Caetano Veloso, com quem já conversou a respeito do projeto.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2011 | 00h00

Gachot mostra tanto respeito por suas personagens que prefere nem chamar suas obras de documentários. "São filmes musicais mesmo, com depoimentos, mas nos quais a música está à frente de tudo, é sempre o mais importante". Daí a preocupação de criar mais um clima musical do que reviver os fatos principais da vida do personagem. Uma opção certeira, pois a arte tem mais a dizer sobre o artista do que os fatos reais de sua vida.

Sobre Nana Caymmi, em particular, ele diz ter ficado impressionado por sua cultura musical. "Ela tem mesmo uma relação muito forte com a música erudita, é dona de ouvido absoluto e conhece muita coisa. Isso é muito raro em cantoras populares." Gachot entende que essa dimensão culta ajuda a dar à voz de Nana a profundidade que impressiona seus pares e emociona seus ouvintes.

E o filme, de fato, se resolve em várias apresentações ao vivo de Nana, que, somadas a bom material de arquivo, a retrata em traços rápidos em diversas fases de sua carreira. Além de Gil, Milton Nascimento, Bethânia, Miúcha e o irmão Dori falam sobre ela. Há uma luminosa aparição de Dorival Caymmi, velhinho, no apartamento da filha, em Copacabana. Mas é a própria Nana quem dá o tom do show, desbocada, falando dos achaques da velhice ou jogando baralho com amigos e relembrando fatos do passado. E, sobretudo, cantando, quando então atinge o sublime, com a facilidade de quem bebe um copo d"água. Ou de uísque.

Há uma alternância interessante entre a voz da cantora e cenas de cartão postal do Rio de Janeiro. Mar, praia, garotos jogando bola, casais. Como já se andou dizendo por aí, imagens bonitas são hoje consideradas inconvenientes, quase obscenas e reacionárias, pois esconderiam o outro lado do Rio, os problemas sociais, a violência, as drogas. O Rio de Nana Caymmi é o da música e da poesia, que têm existência tão real quanto o outro, o das contradições sociais. A beleza também tem seus direitos. Ou não?

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