Bianca Capeloti/Unsplash.com
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Gilberto Amendola
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Quatrocentas mil vezes

A mala no chão indica que um dia houve uma viagem. Para onde você foi? Para onde você planejava ir?

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2021 | 03h00

Quatrocentas mil vidas, quatrocentos mil quartos vazios, quatrocentas mil vezes e contando. 

A cama está arrumada. O lençol é de um azul clarinho. Penso em um origami amoroso. Uma oração. O anjo do abismo tem seus segredos de camareira.

O abajur ao lado da cama está aceso. São três livros na cabeceira. Em um deles, desponta um marcador. Em que página a leitura foi interrompida? Partiu sem saber o final de O Sol é Para Todos. E outros tantos finais. Uma fortaleza de obras inacabadas está sendo erguida em lugar nenhum. 

Quatrocentas mil vidas, quatrocentos mil quartos vazios, quatrocentas mil vezes e contando. 

No armário, camisas penduradas obedecem uma certa lógica cromática. Qual seria a próxima a ser usada? Com qual dessas peças ele foi mais feliz? De quem ganhou essa azul? Precisou emagrecer para entrar em alguma delas? O que deve ser doado? Quem vai ser o próximo a usar uma dessas peças? 

Esses cabides vazios me comovem mais do que o vinho.

O quarto não é grande, mas tem o tamanho de um universo inteiro. O prego solitário na parede já suportou um quadro. O prego solitário na parede é como Atlas, um titã que sustenta os céus nos ombros. 

Mas mesmo ele, o Atlas, talvez tombasse agora. 

Quatrocentas mil vidas, quatrocentos mil quartos vazios, quatrocentas mil vezes e contando. 

O prego na parede é um olho mágico. Não será arrancado. Nem pelo próximo ocupante deste quarto.

O porta-retrato foi derrubado. Ninguém teve coragem de colocá-lo em pé outra vez. A mala no chão indica que um dia houve uma viagem. Para onde você foi? Para onde você planejava ir? Para onde estamos indo?

Sento na cama. Uma luz entra pela fresta da janela. Penso em um quadro do Hopper. 

Suspiro. Ou melhor: respiro fundo para ver se está tudo bem. Para saber se ainda tenho ar nos pulmões. 

Quatrocentas mil vidas, quatrocentos mil quartos vazios, quatrocentas mil vezes e contando. 

Até quando? 

 

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