Quatro vozes de uma narrativa

Volta e meia encomenda-se a escritores obra coletiva, seja para reescrever conto de Machado de Assis (Missa do Galo - Variações sobre o Mesmo Tema, 1997), ecoar o universo de Guimarães Rosa (Quartas Histórias, 2006), ou dar enredo a temas como os sete pecados capitais (1964). Mais raro é propor, para além de textos justapostos, o desafio de uma autêntica sequência narrativa, quando cabe a cada autor partir do que já está lavrado (como ocorreu com O Mistério dos MMM, 1964). Trata-se, nesse caso, de buscar sincronização possível entre inevitáveis diferenças, admitindo-se como harmonizáveis as dissonâncias de estilo, de perspectiva e de valores pessoais, engatadas num compromisso mínimo de continuidade. Sobre o tema proposto para este Sabático - réveillon - escreveram dois autores portugueses (Valter Hugo Mãe e Inês Pedrosa) e dois brasileiros (Ronaldo Correia de Brito e Carol Bensimon). Resultou dessas quatro vozes um conto singular, exercício de criação diante do qual me coube o exercício do comentário crítico.

Alcides Villaça,

31 de dezembro de 2011 | 03h00

O passo inaugural, geneticamente privilegiado, foi concedido ao escritor português (angolano, de berço) Valter Hugo Mãe. Abdicando do que modernamente um réveillon conota como efusão borbulhante e espetáculo urbano, para além do sentido de "ceia da véspera", o narrador imergiu na atmosfera densa, poética e primitiva de um vilarejo solitário no alto de um monte, habitado tão somente por dois casais muito velhos, moradores das pontas opostas do povoado: uma casa junto a uma igreja e a outra junto a um precipício. Com a proximidade da passagem de ano, deseja o casal da ponta do precipício sediar a ceia em comum, honra de que nunca abriu mão o voluntarioso casal da ponta da igreja: eis a tensão a desdobrar-se. Não escapará ao leitor o espelhamento caprichoso entre dois casais de personagens e dois casais de autores, que ensejaria, por exemplo, lances de uma prosa debruçada sobre si mesma ou investidas ao modo de Pirandello - opções que (feliz ou infelizmente?) ninguém abraçou. É franca, também, a abertura para a escalada de uma alegoria moral ou religiosa, a partir da dualidade essencial dos espaços da igreja e do precipício. O narrador concentrou-se, todavia, nas figuras humanas, nas suas cogitações, nas tensões surdas, constituindo um tempo pesado e muito significativo que transpira eternidade e promove a suspensão algo transcendente dos velhos solitários. Já é, quase inteiramente realizado, um conto de atmosfera, em que o esfumado é mais revelador que o traço.

Na parte seguinte, essa temporalidade meio impalpável é abandonada pela escritora gaúcha Carol Bensimon, que preferiu investir num flashback narrativo e encontrar uma origem mais realista de tudo, quando o povoado tinha outros habitantes e os protagonistas eram jovens e solteiros. É quando a aparição de um homem desconhecido, que surge e morre misteriosamente, aciona um novo registro para a história, marcadamente erótico, tensionado pela vigilância da religião (o olho de Deus, os acordes do órgão). Três dos protagonistas ganham nomes e corpos desejosos, destacando-se a personagem Ana Maria, no centro na narrativa. Uma angulação feminina, provocadora, acaba por se sobrepor àquele vigilante e potente "olho lá em cima, espiando", tão ativo no início desta parte. Frase final: "Sobre as nuvens, o olho já não via mais nada". Esquivando-se ao tema do réveillon e suspendendo a densidade temporal da primeira parte, o segundo investe num enquadramento causal e materialista dos fatos, com personagens mais determinadas e dramáticas.

O escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, na parte que lhe compete, cuida sobretudo de Pedro, agora protagonista e dividido entre pecados e conversões, entre "vender a alma a Satanás ou tornar-se o mais devoto servo de Deus". Há o esforço evidente, por parte do autor, em ligar seu entrecho ao da primeira parte: faz menção aos "quatro velhos" em que as personagens se transformarão e aos "temores de uma festa", que os aguarda no futuro. Na sucessão de dois milagres que ocorrem com Pedro, aventa-se um terceiro, acionado com reticências e servindo como presumido gancho para a quarta e última parte. Tais operações acabam por revelar um tanto indiscretamente a intenção que tem o autor de manter acesas algumas chamas das partes anteriores, que lhe queimam um pouco as mãos. Sente-se algum alívio dele nesta reticente frase final: "O terceiro milagre seria..."

Tal gancho ostensivo foi recusado, com algum humor e mesmo irritação, pela escritora portuguesa Inês Pedrosa, que assim inicia a parte final: "- Chega de cismar em milagres, homem. Milagre bastante é estarmos nós ainda sobre a terra, não entendes?" Essa fala parece responder ao narrador anterior, mas é dita pela personagem Elvira, já velha, ao seu velho marido Pedro. Essa velhice em nada recupera a do tempo mito-poético da parte inaugural: povoam-na as lembranças de explorações eróticas, de um aborto quase fatal, de desejos aceitos e consumados. A ceia de ano-novo ressurge como foco de tensão, recuperando algo da primeira parte, mas tudo se suspende diante da ação catastrófica da natureza, que numa tempestade faz a casa da ponta do abismo nele despencar. O casal da casa da igreja acolhe os desabrigados e passam a conviver, para sempre, em dias que "não lhes custam a passar; nenhum é igual ao outro". Um final edificante, que desarma todos os tumultos.

Sim, nenhum dia é igual ao outro, ninguém é igual a ninguém: concluída a tarefa coletiva, sobram questões que interessam. Que terá sido mais decisivo para marcar essas passagens de bastão: as oscilações provenientes dos desvios de ordem narrativa ou das matrizes próprias de cada estilo? A busca de algumas linhas de continuidade ou suas quebras ostensivas? A adoção do imaginário poético e intemporal ou a das âncoras num realismo mais corpóreo e cotidiano? Bem que as respostas de alguns leitores poderiam vir a somar-se e representar a recepção do público. De meu posto privilegiado de leitor de primeira hora a quem foi dada a palavra, confesso que gostaria de ter visto andar tudo o que podia a história dos velhos acionada por Valter Hugo Mãe. Ninguém, senão ele, poderia concluí-la na trilha já pisada.

Ia falar ainda sobre a ação do arbitrário e do aleatório na criação literária, mas me ocorreu a matéria mesma das nossas histórias de vida. Não sei quem as narra, quem nos fez personagens, nem se cuida de preservar tema e estilo nas narrativas que produz.

ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP, AUTOR DE PASSOS DE DRUMMOND E O INVISÍVEL, ENTRE OUTROS

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