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Sérgio Augusto
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Quatro datas fatídicas

Terça-feira fez 60 anos que uma hemorragia cerebral matou Sergei Prokofiev. Imagine a comoção popular provocada pela morte do grande compositor russo. Imagine a repercussão na imprensa local e o congestionamento de repórteres na Praça Vermelha, perto da qual Prokofiev passou seus últimos anos de vida. E fique imaginando, porque nada disso, à exceção da morte do compositor, aconteceu no dia 5 de março de 1953.

Sérgio Augusto,

09 de março de 2013 | 02h00

De fato houve em Moscou, naquele dia, muita agitação popular e jornalística em torno de um morto, só que o defunto não se chamava Sergei, mas Josef, nem compunha música, era um ditador, o soba de todas as Rússias. Quis o pérfido destino que Prokofiev entregasse a batuta justo no dia em que Stalin finalmente bateu as botas. A coincidência foi a última humilhação imposta pelo líder soviético ao compositor que tanto perseguira, chantageara e penalizara desde o final da década de 1930.

Os funerais de Stalin tomaram conta das ruas e do noticiário. Nem sequer na principal publicação russa dedicada à música clássica o obituário de Prokofiev ganhou o merecido espaço: uma página contra 115 reservadas à louvação de seu algoz. Por três dias as multidões que faziam fila para as exéquias do tirano impediram que o corpo do compositor fosse levado para a sede do sindicato da classe para ali ser velado. A história, como quase sempre acontece, acabaria fazendo justiça aos dois.

Estamos a três anos do quarto centenário de outra indesejável coincidência: a morte, em 23 de abril de 1616, de Shakespeare e Cervantes. Mesmo que a diferença de calendários (os ingleses ainda adotavam o juliano no século 17) possa pôr em dúvida essa sincronia, uma coisa é indiscutível: os dois pilares da literatura ocidental efetivamente nos deixaram ao mesmo tempo, no máximo com pouco mais de uma semana de intervalo.

Fatalidade dessa envergadura, nunca mais. Duvido que o mundo tenha condições de produzir um novo Cervantes e um novo Shakespeare, e o acaso ouse despachá-los para o além no mesmo dia. Ou com apenas 24 horas de diferença, como aconteceu com F. Scott Fitzgerald e Nathanael West.

Autores dos dois romances mais percucientes sobre Hollywood, Fitzgerald (O Último Magnata) e West (O Dia do Gafanhoto) ganhavam a vida como roteirista quando, em 21 de dezembro de 1940, um enfarte fulminou o primeiro, em Los Angeles, e um acidente automobilístico matou o segundo, na tarde seguinte. West vinha de uma caçada, com a mulher, no fim de semana; profundamente abalado com a notícia da morte do grande amigo e aflito para chegar logo a Los Angeles, ultrapassou um cruzamento rodoviário e bateu de frente com outro carro. Dessa vez ninguém ofuscou ninguém no noticiário. West só se tornaria uma celebridade literária depois de morto; Fitzgerald andava tão por baixo e recluso que muita gente se surpreendeu ao sabê-lo ainda vivo em dezembro de 1940.

Ao contrário de Fitzgerald, o também desterrado em Hollywood Aldous Huxley morreu no auge da fama. Mas no dia errado. Em outra data, teria sido destaque nos telenoticiários e ganharia as manchetes. Em 22 de novembro de 1963, sua morte, de complicações de um câncer na laringe, virou notícia secundária, banida para uma página interna do jornal. Com seu rifle, Lee Oswald matou o presidente John Kennedy e os obituários do escritor inglês.

Vítima da mesma coincidência, o romancista, poeta, crítico e teólogo irlandês C.S. Lewis, mais conhecido como autor de As Crônicas de Nárnia, morreu quase na mesma hora do atentado em Dallas, mas seu enfarte fatal (em Oxford, Inglaterra) chegou atrasado às folhas e sem direito a espaço nobre. Lewis também era chamado de "Jack" por familiares e amigos, embora não fosse John, e sim Clive; mas só um professor de filosofia de Boston deu bola para essa afinidade do cronista de Nárnia com o defunto mais ilustre daquela trágica sexta-feira.

Peter Kreeft, o tal professor, chamou atenção para esse irrelevante detalhe num pequeno romance em que fantasiava um encontro, no além, dos três mortos em 22 de novembro de 1963, a que deu o título de Between Heaven and Hell (Entre o Céu e o Inferno). Lançado em 1982, é, como esclarece o subtítulo, um diálogo póstumo sobre a fé entre Kennedy, Huxley e Lewis, naquele limbo onde as almas dos que não cometeram pecados graves devem purgá-los antes de chegar ao paraíso, ou seja, no purgatório, o fórum de debates favorito de Kreeft.

O católico Kennedy representa o cristianismo moderno; o teísta Lewis, o cristianismo conservador; o panteísta Huxley, o cristianismo orientalizado. Os dois primeiros discutem Jesus como encarnação de Deus; Lewis e Huxley se dividem na dúvida: seria Jesus uma divindade ou apenas um grande sujeito? Kennedy é o primeiro a dar as caras. Chega perguntando a Lewis que lugar é aquele. Bom demais para ser o inferno, responde Lewis; tampouco é o céu, do contrário já teria visto Deus, especula o teólogo. Aí entra Huxley, saudando a dupla e bendizendo a ocasião: "Com vocês de companhia até dá gosto morrer". E o triálogo teológico segue seu rumo socrático por uma centena de páginas.

Que eu saiba, a ninguém ocorreu a ideia de forjar um encontro post-mortem de Prokofiev com Stalin. É farinha para o biscoito fino de Tom Stoppard e o pastelão de Robert Coover, que, no entanto, teriam de se virar para conseguir uma vaga para Stalin no purgatório ou então deslocar o tête-à-tête para o inferno, o que seria uma tremenda sacanagem com Prokofiev, que apenas pelo que compôs e sofreu merecia o paraíso.

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