Quase sem querer

Vladimir Carvalho, 75 anos, estava lá quando tudo começou. Agora, vai levar a história do rock de Brasília para as telas

Cristiano Bastos / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Manhã de sábado em Brasília. O cineasta paraibano Vladimir Carvalho, 75 anos, flana pelas cercanias do desértico setor de Rádio e Televisão, no centro da capital do País. Lugar hoje bem mais pacífico do que há duas décadas, quando as nuvens da ditadura estacionavam por ali. Vladimir fala sobre o seu novo longa-metragem, o documentário Rock Brasília, Ninguém Segura Essa Utopia.

Em 1988, Vladimir, à época catedrático da Universidade de Brasília (UnB), surpreendeu-se com a febre que assaltava a juventude daquela cidade. Teve então a ideia de filmar a cena roqueira do Distrito Federal. Em 80 minutos, Rock Brasília captura a insurgência de três das fundamentais bandas "candangas" surgidas ali: Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial, das quais possui íntimo e valioso arquivo contendo oito horas de imagens nunca antes exibidas. "O filme costura largamente a história do rock brasiliense. Dos derradeiros resquícios de ditadura à democrática virada", diz Carvalho. É documento para a posteridade dos 50 anos do Distrito Federal. Sua estreia será na 43.ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em novembro.

Os jovens universitários de classe média, alcunhados sob a nomenclatura de "Turma da Colina" (ou "Geração Coca-Cola"), alojavam-se nos prédios-dormitórios da UnB. Destes, muitos atraíram popularidade e fanatismo. Vladimir conta que, há 22 anos, havia um exército de 200 bandas alistadas pela cidade. Porém, não se sabe onde nem como viabilizavam espaços para tantos shows ou se havia público para tal. É dessa leva que surge o "trovador solitário" Renato Manfredini Júnior, Renato Russo.

O documentário trará outros personagens da cena, como Phillipe Seabra, da Plebe Rude, e Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, flagrados em momentos cruciais de suas carreiras. As cenas de shows capturadas por Vladimir, às quais o Estado assistiu com exclusividade, são impressionantes. Uma delas mostra o pandemônio no qual se converteu o show da Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha. No dia 18 de junho de 1988, fazia um ano que a banda não pisava na cidade. Antes de enfrentar a desvairada turba de 50 mil pessoas, Renato Russo - no auge de seu messianismo involuntário - concedeu a Carvalho uma entrevista que está no longa.

Altamont. Outra imagem mais nonsense é a filmagem do pomposo casamento de Philippe Seabra, líder da Plebe Rude. "O documentário foca no mais genuíno produto da cultura brasiliense. Ou seja: o rock", defende o diretor.

O Estádio Mané Garrincha foi o cenário em que centenas de fãs se digladiaram durante o fatídico concerto da Legião Urbana "não ocorrido", no dia 18 de junho de 1988. Nessa noite, a turba de 50 mil pessoas fez Brasília viver seu dia de Altamont. Cerca de um ano e meio após a última passagem da Legião pela cidade natal, ninguém queria perder a volta de Renato Russo. "Eram milhares dispostos a sangrar em nome do "salvador"", lembra o editor do magazine franco-brasileiro Brasuca, o brasiliense Daniel Cariello. "A Legião era amada tal qual os Beatles em Liverpool", compara.

Um fanático conseguiu invadir o palco e enlaçar Renato Russo na metade da música Conexão Amazônica. Está tudo filmado. "Renato xingou a plateia e a plateia devolveu. Clima de guerra civil", diz a testemunha ocular, que tinha 14 anos à época. O guitarrista e um dos fundadores da Legião, Dado Villa-Lobos, não comenta o episódio. "Para não macular a biografia da Legião Urbana", diz.

Outro lance polêmico do rock federal envolveu a novata Plebe Rude e a Legião num festival em Patos de Minas (MG), em 1981. Ao final das apresentações todos foram para o xilindró. Alegação: teor contestatório das composições. No show, a Plebe tocou Voto em Branco e a Legião atacou de Música Urbana 2. Foram soltos após a polícia ser informada que todos ali eram rebentos de políticos e diplomatas da capital do Brasil. O fundador da banda, Phillipe Seabra, que também é consultor do filme, conta que esta seria a primeira vez que a Plebe tocaria fora do Distrito Federal. "O Renato viu na oportunidade a première de sua nova banda e resolveu nos chamar", pontua Seabra, elemento que vinha sendo sondado para ser o guitarrista da Legião.

A equipe de Vladimir vai agora retornar a Patos de Minas com a banda para recontar a história. "Seria a oportunidade de fazermos as pazes com a cidade", afirma Seabra, que chama o acontecimento de "a maior operação policial da história de Patos de Minas desde que a comitiva de Getúlio Vargas passou por lá a caminho de Barbacena."

Eduardo e Mônica. Outro "causo" a ser retratado é sobre as lendas por trás do hino de amor que embalou uma geração, Eduardo e Mônica. O artista circense Marcelo Behr é um dos Eduardos nos quais Renato buscou inspiração. A canção baseia-se em três Eduardos e três Mônicas diferentes. "Renato tinha bloquinhos nos quais anotava tudo para depois editar", revela Behr.

Sempre que via um casal que dava certo, segundo o amigo, o cantor regozijava-se. Mesmo se não fosse com ele. Os traços da personalidade do amigo estão em estrofes como "e ele jogava futebol de botão com seu avô". O camelinho citado na canção, na verdade, é a bicicleta que ainda hoje Behr pedala no Parque da Cidade, igualmente referendado na composição. Marcelo, entretanto, afirma que Russo inspirou-se totalmente nele para compor Acrilic on Canvas, escrita na casa de Behr: "Conversávamos muito sobre história da arte, pontos de fuga, Renascença, perspectiva. Ele me perguntava a respeito dos pigmentos e misturas das tintas e assim nasceu a música", relembra.

A artista plástica Leo Coimbra era amiga íntima de Renato e foi uma das musas inspiradoras de Mônica. Leo nunca estudou Medicina, como diz a letra. Mas, por conta de suas vaciladas no manuseio dos pincéis, estava sempre "com tinta nos cabelos." Os dois eram bons amigos e passavam até cinco horas falando ao telefone.

"Grande parte dos momentos mais especiais passei ao lado dele", conta Leo. Enquanto a movimentação rocker se desenrolava, Leo, com 20 e poucos anos à época, cuidava de dois filhos pequenos e fazia traduções para um jornal da cidade. "Não participei e não influí nele. Claro que frequentando a nossa casa, Renato escreveu algumas letras lá e fomos, durante certo tempo, um bom e fraternal refúgio para ele." Algo que se pode vislumbrar além da suposta musa. Saudosa, a pintora fala do amigo com saudade: "Na minha casa ele era pessoa da família. Nem já famoso deixava de me acompanhar à escola de meus filhos. Tinha, claro, que dar muitos autógrafos no caminho. Nossa convivência era bem tranquila. Durante a temporada em que morei em Washington, passei a escrever para ele com frequência. Mas o Renato preferia me telefonar."

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