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Quase octagenário, Jean Becker volta à figura de um pintor

Filho de Jacques Becker admite que a inevitável comparação corria o risco de fazê-lo paralisar. 'Sou Jean, não Jacques. O que gosto é de contar histórias, e de que sejam emocionantes'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2013 | 02h12

Filho de um ícone do cinema francês - Jacques Becker, que François Truffaut e Jean-Luc Godard idolatravam -, Jean Becker admite que, no começo de sua carreira, a inevitável comparação corria o risco de fazê-lo paralisar. "Meu pai foi um grande diretor. Nem tudo o que fez envelheceu bem, mas seus maiores filmes são referências. Ocorre que eu nunca fui como ele. Sou Jean, não Jacques. O que gosto é de contar histórias, e de que sejam emocionantes."

Conversas com Meu Jardineiro e Minhas Tardes com Margueritte foram sucessos recentes de Jean Becker nos cinemas brasileiros. Estreia hoje Sejam Muito Bem-vindos, outro bom filme do filho de Jacques e mais um centrado na figura de um pintor. "Não se conseguiria filmar escritores. A pintura é muito mais visual. Ao trabalhar no roteiro, já consigo antecipar como será a cena", ele conta. Jean Becker, que faz 80 anos em maio, tem seu público fiel, aquilo que chama de sua clientela. Ela lhe foi um tanto infiel com Sejam Muito Bem-vindos. O filme fez 300 mil espectadores nos cinemas franceses, o que pode ser um número estimável, até digno, mas Jean costuma fazer o dobro, ou o triplo.

"Houve muitos motivos. O filme estreou na reta final da eleição para presidente, havia jogos particularmente importantes no calendário esportivo, mas tudo isso são desculpas. Há quem me diga que o problema foi o ator, que é bem conhecido, mas não um astro como Daniel Auteuil e Gérard Depardieu. Fico triste por isso, porque esperava que meu filme ajudasse os franceses a verem o ótimo ator que Patrick Chesnais é."

O filme conta a história de um pintor de sucesso, mas que está insatisfeito com sua arte (e consigo mesmo). Um amigo escultor diz que ele virou um pintor de um só tema - mulheres de chapéu.

De uma maneira talvez simplista, a história de Sejam Muito Bem-vindos é a do percurso que Chesnais realiza para tirar o chapéu de suas mulheres. Casado com Miou-Miou, o personagem tenta se matar, mas não tem coragem. Ele cai na estrada e dá carona a uma adolescente também em fuga. Ela tem problema com a mãe, que se submete à violência do marido, o padrasto da garota. Jeanne Lambert tem algo da jovem Isabelle Adjani e, numa cena, ela assiste na TV a uma cena de Verão Assassino, megassucesso de Jean Becker, com a bela Isabelle nos anos 1970.

"Você a achou parecida? Mas não foi por isso que escolhi Jeanne, nem peguei a cena de Verão Assassino para me promover. Precisava de uma cena que provocasse a emoção da personagem, mostrando a relação calorosa que ela não tem com a mãe." O repórter diz que reviu recentemente Verão Assassino numa programação especial da Sala Cinemateca, em São Paulo. Acrescenta que o filme envelheceu bem. Jean Becker fica feliz. "É um de meus filmes preferidos."

Chesnais também diz, lá pelas tantas, que sua grande descoberta foi que a pintura não precisa ser bela (como a dos impressionistas). Pode ser feia (como a dos expressionistas). "Essa é uma lição de meu pai, quando fez Montparnasse 19, sobre Modigliani. A beleza é essencial, mas eu prefiro a emoção."

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