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Sérgio Augusto
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Quase memorabilia

Tudo bem que a vida de um homem, segundo David Hume, não tenha maior importância para o universo do que a de uma ostra, mas foi no mínimo negligente despachar o corpo de Anton Tchecov, morto na Alemanha, em trem de carga até Moscou dentro de um caixão carimbado com a palavra "Austern" (ostras, em alemão). Por falar em Hume - cuja citação acima é uma cortesia de Evandro Affonso Ferreira, que a fez de epígrafe ao romance Minha Mãe se Matou Sem Dizer Adeus - tanto engordou o filósofo que, ao ajoelhar-se diante de uma mulher para pedi-la em casamento ao estilo antigo, no chão ficou sem forças para se soerguer, que mico. Não me lembro se a pretendida dama se mandou sem dizer adeus ao filósofo.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2014 | 02h03

De outros detalhes, sim, me lembro.

Que, por exemplo, "je me souviens" é a divisa de Quebec, no Canadá francês, e também o título de um stream of remembrance de Georges Perec, que inspirou um solilóquio mnemônico escrito por Geraldo Mayrink e Fernando Moreira Salles, apropriadamente intitulado Memorando e levado ao palco por Irene Ravache e Paulo José, já lá se vão uns bons 20 anos.

Que Balzac, quando jovem e sem recursos para comprar uma mísera aquarela de rua, desenhou uma grande moldura na parede de sua água-furtada e nela escreveu "peinture de Raphael".

Que Robert Rauschenberg, quando jovem e sem grana, no final dos anos 1940, tentou quitar com dois quadros seus os aluguéis atrasados de um apartamentinho no Village, mas o senhorio fincou pé nos US$ 15 que o pintor lhe devia.

Que Vermeer morreu teso, sem pagar a um padeiro de Delft o pão que comprara para alimentar todas as 13 bocas de sua família.

Que Flaubert, zeloso mas distraído, deu olhos castanhos a Madame Bovary num capítulo e olhos pretos noutro.

Que Aquiles, por ser destro, na descrição de Homero, não podia ter enfiado sua lança no pescoço de Heitor com a mão esquerda, conforme se vê num desenho de Rubens exposto no Museu de Roterdã.

Que William Faulkner por pouco não levou bomba na Universidade de Mississippi. Em inglês.

Que Jacques Derrida foi duas vezes reprovado no exame de admissão à École Normal Supérieure.

Que Georges Bernanos, fugindo do nazismo, planejava ir para o Uruguai, mas não resistiu aos encantos de Minas Gerais e aqui ficou.

Que Wagner tocava piano mal, e Berlioz nem isso.

Que Balzac tinha tanto medo de raios e trovões que não só trancava todas as janelas como acendia todos os lampiões da casa e tapava os olhos com uma venda.

Que Ibsen morria de medo de cachorro.

Que Vinicius de Moraes se impressionou com o sovaco de Ingrid Bergman, que sobre a cabeça do poeta passou numa banca de jornais de Los Angeles, e o fotógrafo Paulo Garcez com as pilosas e ruivas axilas de Silvana Mangano, num coquetel no Copacabana Palace.

Que a primeira ópera que Arturo Toscanini viu na vida (aos 4 anos) foi Um Baile de Máscaras, de Verdi, e também a última que regeu, 83 anos depois.

Que T.S. Eliot não lutou na Primeira Guerra Mundial por causa de uma hérnia e Ezra Pound, por seu estigmatismo.

Que as duas estrelas de cinema favoritas de Ludwig Wittgenstein eram Carmen Miranda e Betty Hutton.

Que o tabagismo salvou a vida de Bernard Shaw em 1948, quando o avião em que viajava caiu na Noruega matando toda a ala dos não fumantes.

Que Manuel Bandeira, muito entendido em música popular, adorava ouvir João Gilberto tocar e cantar.

Que Otto Lara Resende fez crítica de cinema no começo do jornal Última Hora, anonimamente, como Rubem Fonseca faria, duas décadas depois, em Veja.

Que prestígio mesmo tinha o marchand Ambroise Vollard, retratado por Picasso, Cézanne, Matisse, Braque, Bonnard e Renoir.

Que Picasso foi o único artista plástico do século 20 fotografado por Cartier-Bresson, Brassaï, Man Ray, Lee Miller, Robert Doisneau, David Douglas Duncan e Cecil Beaton.

Que na primeira versão da lenda de Pandora, escrita por Hesíodo seis séculos a.C., a caixa era um vaso.

Que Winston Churchill foi um dos primeiros a encomendar de Londres à livraria Shakespeare & Co. de Paris um exemplar de Ulisses, de James Joyce.

Que, no final da vida, Nietzche assinava seus postais como "Kaiser Nietzsche".

Que Guimarães Rosa se gabava de escrever em pé, como Hemingway, em seu apartamento da rua Francisco Otaviano.

Que Pedro Nava, quando jovem, era, segundo Blaise Cendrars, a cara de Raymond Radiguet.

Que Anthony Burgess enxergava tão mal que de uma feita entrou numa agência bancária de Stratford-on-Avon e pediu um drinque.

Que o Padre Nosso do ateu Jacques Prévert começava assim: "Pai Nosso que estais no Céu, não desceis daí".

Que Ismael Nery previu que ia morrer com a idade de Cristo e morreu mesmo aos 33 anos.

Que Millôr Fernandes previu que ia morrer, como seus pais, aos 36, mas conseguiu viver mais meio século.

Que para evitar que o menino Edmund Wilson passasse 16 horas por dia a devorar livros sentado numa poltrona, deram-lhe de presente um uniforme de beisebol, que ele, feliz da vida, vestiu, voltando a sentar-se na mesma poltrona para prosseguir em sua leitura, agora fantasiado de jogador.

Que no funeral de Verdi, a pedido do morto, não se ouviu uma nota musical.

Que no relógio de Baudelaire não havia ponteiros, apenas um aviso: "É mais tarde do que você pensa".

Que foi no apartamento do jornalista José Guilherme Mendes, no Leblon, em 1960, que Jean-Paul Sartre, cercado de intelectuais da terra, perguntou: "Où sont les nègres?"

Que Albert Camus, numa embodiada visita ao Rio em 1949, detestou o Cristo Redentor. Como Gore Vidal detestaria, 38 anos mais tarde.

Que Manuel Bandeira foi companheiro de Paul Éluard e Gala, futura musa de Salvador Dalí, num sanatório para tuberculosos em Clavadel, na Suíça.

Que David Markson, o escritor americano pós-moderno, morto em 2010 e a quem devo mais do que a inspiração da coluna desta semana, passou anos a repetir a expressão "Als ick kan", sem saber em que língua falava. Apaixonara-se por sua eufonia e seu sentido. "Als ick kan" (o melhor que posso fazer) é importação holandesa, celebrizada pelo pintor flamengo Jan van Eyck, que sempre a punha em suas pinturas.

Depois da comezaina natalina, isto é o melhor que posso fazer.

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