'Quase Diário', artigo de Affonso Romano de Sant'Anna

17.5.84- Dia 13, à noite, Pedro Nava matou-se  com um tiro de revólver na cabeça, mais ou menos às 9 da noite, a 50 metros de sua casa, na Glória, junto a um pé de árvore. O  País traumatizado, pois ele era bonachão e estava no auge da glória literária. Sobral Pinto, Ziraldo e Drummond não queriam aceitar a tese do suicídio, apesar de o revólver ser do Nava, de ele ter pólvora nos dedos, etc. Surpresa geral. Agora, torna-se público que era um deprimido e que o suicídio é um tema em sua obra. Em entrevistas sempre revelava  que não gostava da vida. Com efeito, esse depressivo, na véspera, fora tirar pressão do Francisco Assis Barbosa.

25 de fevereiro de 2012 | 03h00

O assunto dominou a conversa em todos as rodas e classes sociais. Acho esse suicídio mais incômodo que o de um jovem: o jovem é mesmo impaciente. Por não compreender o sentido, desespera-se. Mas o velho deveria estar acostumado. Pelo visto, não.

E, no entanto, Pedro Nava fazia planos: para o aniversário, etc. Como será esse curto-circuito repentino? Numa entrevista, ele ja dissera que ninguém deve se admirar de velhos que, de repente, dão um tiro na cabeça.

Mas sempre me lembro da Dolce Vita de Fellini, daquele personagem "raffiné" que escutava música clássica, sabia sânscrito e, no entanto, se mata e mata os dois filhos, deixando a mulher que chega em casa, desesperada.

Outro dia alguém me disse de uma mulher que estava se preparando para sair, já com o cabelo enrolado e, que, no entanto, enfiou a cabeça no forno do fogão e se matou com gás.

Penso que poderia escrever um artigo, mas deveria ser um poema, um poema que falasse: 1) da solidão do suicida, 2) do imprevisto, 3) da crueldade consigo e conosco, 4) do seu direito de fazer isso, 5) do absurdo da vida, 6) que o homem não é o único animal que se mata (acabei depois fazendo o poema "O Suicida").

A Globo me chama: pede um poema sobre isso. Tenho que ir lá para receber o dinheiro de outras colaborações e, na sala, esperando a Diléa Frate, começo a esboçar algo num envelope que tenho nas mãos, sem saber no que vai dar:

     Um tiro na memória

         A mão que inscreveu outros

         Apagou sua própria estória.

Depois da conversa com outros da equipe do "Jornal da Globo", concluo que seria impossível, difícil, fazer o que estava começando a esboçar: queriam um texto que acompanhasse a câmera saindo da casa dele e indo até o lugar do suicídio. Reportagem/poesia? O risco, digo, é cair no melodramático.Todos concordam. E como, depois, eu mostrasse à Diléa aqueles versos, ela os pediu como quem não quer nada. À noite, na TV, além da entrevista que dei, sai o primeiro verso como título da reportagem e a leitura do texto do poema fechando o programa.

Na sua obra ele diz que não há nada de bom na vida, a não ser o ato sexual. E pensar que ele passou 82 anos se torturando, adiando a própria morte…

Affonso Romano de Sant'Anna é escritor, autor de 'Drummond: O Guache no Tempo' (Record), entre outros livros

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