Quase abaixo de zero

Imperial Bedrooms, de Bret Easton Ellis, pode ser descrito como uma extensão, sequência, meditação ou reelaboração de Less Than Zero (editado no Brasil como Abaixo de Zero, pela Rocco), o romance de estreia que colocou seu jovem autor rebelde no mapa há 25 anos. Pode também ser visto como um ato de desespero. Seja qual for a sua gênese, o que este ocioso novo livro faz melhor é demonstrar que há mais maneiras de se ficar entediado e ser enfadonho em Los Angeles em 2010 do que havia em 1985.

Janet Maslin, The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2010 | 00h00

Naquela época, as personagens inquietas, viciadas em drogas, de Ellis precisavam circular em carros caros, folhear revistas, desenvolver anorexia e ver pornografia em cassetes Betamax com o som desligado. Agora, graças ao iPhone, à internet e ao fato de terem envelhecido, as mesmas pessoas encontraram novas maneiras de continuarem aborrecidas.

Não é divertido ver Clay, a principal personagem autobiográfica de Ellis em ambos os livros, envelhecendo. Quando Imperial Bedrooms começa, ele está lamentando que "alguém que conhecemos" escreveu um livro desfavorável sobre Clay e seus amigos, e que o livro foi transformado num filme. "O escritor", como Clay chama esse autor parasita, se parece um bocado com Ellis. Mas Clay, também parece se parecer com Ellis.

O fato é que Imperial Bedrooms mal tem tempo de estabelecer esse conceito de sala de espelhos antes de abandoná-lo. A narrativa continua com Clay e reintroduz sua trupe de Abaixo de Zero. Clay é agora um escritor bem-sucedido e veio para Los Angeles para trabalhar em adaptações para o cinema. Lugares são revisitados. Eventos são repetidos.

Clay encontra seu par numa atriz manipuladora chamada Rain, que aparece numa festa de Natal. "Você quer entrar num filme?" ele lhe pergunta. Sua reposta: "Por quê? Você tem um filme onde queira me colocar?" Ellis terá escrito isso como uma conversa insípida consciente, um reflexo do oportunismo raso do meio cinematográfico? Ou ele está apenas sendo preguiçosamente pouco inspirado?

Julian, uma relíquia de Abaixo de Zero, foi horrivelmente assassinado. Clay acha que alguém o está seguindo. Mensagens de texto ameaçadoras ou contemplam a banalidade das mensagens de texto ou incorporam as múltiplas possibilidades dessa nova forma de escrita. Apesar da arte da capa de Chip Kidd, que exibe uma imagem satânica de parar o trânsito e o nome de Ellis no equivalente de sobrecapa de grandes letras em néon, Imperial Bedrooms não é chocante. É uma obra de imaginação limitada que simula com excesso de destreza os efeitos de não ter absolutamente nenhuma imaginação. TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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