Quasar aos pedaços

Cia. de Henrique Rodovalho faz 25 anos e estreia obra que observa partes do corpo

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2013 | 02h16

Em 25 anos, a Quasar Cia. de Dança desenvolveu uma linguagem muito particular. Além de facilmente reconhecível. Mesmo para quem não conhece a fundo sua trajetória. É sobre essa identidade de traços tão definidos que se debruça Por 7 Vezes, espetáculo do grupo goiano que faz sua estreia nacional hoje, dentro da Temporada de Dança do Teatro Alfa.

Movimentos fragmentados e virtuosos se tornaram uma espécie de assinatura nas criações de Henrique Rodovalho. "A ponto de eu me questionar sobre a validade disso. Com medo de me repetir", conta o coreógrafo, diretor artístico da companhia desde sua fundação, em 1988. "Só aos poucos, depois de muitas crises, fui tomando consciência desse estilo."

Em coreografias anteriores, ele já havia se lançado a esse autoexame. Por Instantes de Felicidade, que marcou o aniversário de 20 anos, também recuperava o legado da companhia. "Mas agora acho que estou lidando com isso de uma maneira mais tranquila, encarando minhas qualidades e defeitos."

Nessa nova coreografia, Rodovalho pretende esmiuçar a própria linguagem. Ele se acostumou a "quebrar" o corpo, fazendo cada parte se mover de maneira independente. Agora, envereda pelo mesmo caminho, só que valendo-se de uma divisão pouco usual.

Ao longo da peça, vislumbra a figura humana de cima para baixo e dá especial atenção a olhos, boca, braços, coração, vísceras, sexo e pernas. "Não são as partes que eu exploro habitualmente", diz ele. "E também estou lidando com elas de forma muito pessoal. Não crio, por exemplo, uma coreografia em que os olhos ficam se mexendo. Mas onde a questão do olhar adquire papel fundamental."

São sete pedaços do corpo abordados na obra. Cada um merecedor de uma coreografia independente. "Há, é claro, pontos de contato entre as peças. Não existe um blackout separando um momento do outro. Mas é como se fossem sete coreografias em cena", observa o criador. A trilha original, assinada pelo pianista, instrumentista e compositor André Mehmari, auxilia o grupo em sua proposta. Vem instaurar climas distintos, ora intensos, ora sutis.

Ainda que não exista uma narrativa que sirva de substrato ao espetáculo, uma temática - o desejo - atravessa seus vários momentos e serve para lhe conferir certa unidade.

Na tela. A estreia de Por 7 Vezes também serve de marco inicial para o novo projeto do grupo. Há algum tempo, Henrique Rodovalho desejava relacionar-se com o cinema de maneira mais próxima. Isso acontece agora. Além das apresentações, o grupo também se prepara para ser filmado por diferentes cineastas. Sete olhares para observar cada uma das partes da coreografia.

Os nomes envolvidos ainda não foram todos confirmados. Mas já se sabe que Tata Amaral e Maria de Medeiros estão entre os convidados a retratar a Quasar através das câmeras. "Com a maturidade chegou a hora desse tipo de exposição", considera o diretor artístico da companhia.

De acordo com ele, os cineastas terão completa liberdade em suas abordagens, filmando a coregrafia pelo viés que desejarem. "Eles podem filmar só um pedaço, podem até virar a lente para o outro lado se não gostarem do que estão vendo. Só gostaria que fossem olhares externos à companhia. E que tentassem falar de nós usando apenas o movimento." A pré-estreia do filme, que é uma coprodução Brasil/França, está marcada para 2014.

Essa abertura para quem vem de fora já havia sido ensaiada por Rodovalho em seu último trabalho, No Singular. Naquele título, de 2012, o convite era para que o público subisse até o palco para dançar lado a lado com os bailarinos. Um vídeo postado no YouTube ensinava a coreografia passo a passo e sugeria aos espectadores que ensaiassem antes de ir ao teatro.

Para a próxima obra, a intenção é aprofundar-se ainda mais nessa ambição. Deixando-se contaminar por outros artistas e outras fontes. "Quero que a gente se abra ainda mais para os outros. Podemos continuar a explorar nossa linguagem, mas essas novas relações podem nos trazer um frescor, nos levar a uma reinvenção."

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