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Quarto volume do 'Livro das Mil e Uma Noites' encerra trabalho de uma década

Mamede Mustafa Jarouche traduziu as narrativas de Sherazade diretamente de manuscritos arábicos

Maria Fernanda Rodrigues - O Estado de S. Paulo,

14 Setembro 2012 | 19h00

Filho de libaneses nascido em Osasco em 1963, Mamede Mustafa Jarouche nunca havia pensado em estudar árabe e ter a língua dos pais como profissão até ganhar uma bolsa de estudos do governo da Arábia Saudita em 1981. Encarou a viagem como uma aventura juvenil e passou seus 18 anos em Medina. Odiou. Nesse período, não ouviu nenhuma voz feminina - e se assustou com tamanha repressão. Mas, por outro lado, se encantou com a cultura árabe, que tanto influenciou o Ocidente e sobre a qual pouco se ouvia no Brasil daquela época.

Apesar de dizer que nunca mais voltaria àquele lugar, Mamede foi, lentamente, fazendo as pazes com o mundo árabe e hoje, três décadas depois daquela primeira viagem, ele termina seu trabalho mais importante e de maior fôlego: a tradução integral, diretamente do árabe e a partir de manuscritos, do Livro das Mil e Uma Noites. Outros também tentaram - dom Pedro II foi um deles -, mas até Mamede colocar um ponto final na tarefa o leitor brasileiro só conhecia algumas das histórias, traduzidas com base em outras traduções, com conteúdo censurado, ou adaptadas para a linguagem juvenil. O primeiro volume foi lançado pela Globo em 2005 e já teve 14 reimpressões. O quarto e último chega hoje às livrarias, no mesmo momento em que a Melhoramentos lança três adaptações de Tatiana Belinky do clássico árabe; a Contraponto edita Maomé e a Ascensão do Islã (leia texto linkado acima), escrito pelo arabista inglês David Samuel Margollouth em 1905; e a Yale University Press publica, nos Estados Unidos, The Battle For The Arab Spring, sobre a Primavera Árabe (artigo nos links relacionados), que, aliás, Mamede viu irromper no Cairo em 2011.

O som da língua ouvida em casa foi importante no aprendizado do tradutor, que na volta da Arábia Saudita prestou vestibular para Letras, na USP, e começou sua formação em árabe. A fluência veio com as temporadas que passou no exterior durante ou depois do curso, fazendo o que chama de incursão antropológica e trabalhando aqui e ali. Entre 1985 e 1986, foi tradutor na empresa brasileira de engenharia Mendes Júnior no Iraque, que estava em guerra. Em 1990, viveu na Líbia, e estava lá quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Mas quando a guerra começou, em 1991, ele já estava de volta ao País e assistiu tudo pela TV. Em 1992, começou a dar aula na USP - está lá até hoje - e só retornou ao Oriente Médio em 2000. Não parou mais e só pulou a viagem deste ano para terminar sua história com Sherazade - Mamede optou pela grafia Sahrazad -, iniciada em 1999.

Foi nesse ano que apresentou, na universidade, seu projeto de pesquisa: estudar as narrativas árabes antigas. A ideia de traduzir o Livro das Mil e Uma Noites veio depois, do amigo Joaci Furtado, então editor da Globo, e o tradutor que um dia fora privado de ouvir uma voz feminina falando a língua que estava aprendendo passou os últimos 13 anos na companhia da voz da maior contadora de histórias da literatura universal. Recapitulando: desgostosa com o destino que o rei Sahriyar estava dando às moradoras de sua aldeia - depois de ter sido traído pela esposa, ele decidiu que se casaria a cada dia com uma mulher e a mataria na manhã seguinte à noite de núpcias -, Sherazade, inteligente e instruída, corajosamente se entrega ao tirano. E, contando fábulas de terror e piedade, amor e ódio, paixão e medo, delicadeza e brutalidade, sempre com alguma lição de moral e uma boa dose de erotismo, dribla a morte durante 1.001 noites e dobra o rei.

Mamede Jarouche bem poderia ter feito o caminho mais curto, traduzindo a vulgata, que é o texto canônico, já reconhecido. Tinha a opção de verter para o português a de Breslau, publicada na Alemanha entre 1825 e 1843, ou as duas edições de Calcutá (1814-1818 e 1839-1842). Fará isso daqui a alguns anos, garante, entretanto, nesta primeira etapa, com o auxílio dos microfilmes de manuscritos que lhe foram enviados por bibliotecas de todo o mundo, optou por organizar uma obra que reunisse tudo o que um dia fez parte do Livro das Mil e Uma Noites e que, por algum motivo, foi excluído do processo final de elaboração do texto. "A vulgata é mais pobre. Quem a organizou enxugou as histórias e deixou, às vezes, o texto mais formal. Nos manuscritos antigos, encontrei coisas mais interessantes. Apesar de ter mais vulgarismos, elas são mais cheias de detalhes."

A trajetória do clássico é tortuosa e incerta. Sabe-se que no século 4.º circulou no mundo árabe um livro com um título semelhante ao que se conhece hoje, porém foi apenas na metade do século 13 que ele ganhou as características ainda presentes. Não se sabe se eram narrativas orais que foram transportadas para o papel ou o contrário. A autoria é desconhecida, apesar de ser de conhecimento geral que ao longo dos anos copistas ajudaram a completar os enredos - segundo Mamede, isso começa a acontecer no fim do primeiro quarto do Livro. Essas e outras curiosidades acerca do texto são explicadas pelo professor nos quatro volumes - os dois primeiros traduzidos a partir do ramo sírio; os outros dois, do egípcio.

O volume publicado agora traz histórias que, no geral, não fazem parte da vulgata, e que abordam temas diversos. "Algumas moralistas ao extremo e outras completamente imorais", resume o tradutor. Exemplos: A Educação dos Príncipes e O Corno e a Sua Mulher. Inclui ainda a íntegra dos populares Aladim e Ali Babá e os Quarenta Ladrões - que, curiosamente, não constam dos originais árabes, tendo sido integrados ao Livro na edição francesa de Jean Antoine Galland, publicada entre 1704 e 1717.

Trabalhar com textos antigos assim tem seus desafios. "A maior dificuldade são os elementos materiais. Às vezes não conseguimos precisar o que são os objetos, já que estão fora de uso", explica Mamede. Por outro lado, a língua árabe abusa da repetição e da sinonímia. Diz-se, por exemplo, que a mulher era dotada de beleza e formosura. "O texto árabe pratica a redundância e não de forma acidental. É sistemática, e eu tenho de reproduzir isso em português. Não vou eliminar, como fez o Galland, não é?" O francês teria suprimido, a partir de determinado ponto de sua tradução, o clássico início das noites, que na versão mais breve e frequente é: "Se você não estiver dormindo, maninha, conte-nos uma de suas belas histórias para atravessarmos o serão desta noite". Noutras passagens, surge deste modo: "Na noite seguinte, o rei mais velho, Sahriyar, se recolheu à cama, juntamente com sua esposa Sherazade, deleitando-se ambos com libidinagens e amassos; após atingirem o gozo sexual por meio do contato corporal, Danyazad saiu debaixo da cama e disse: ‘Por Deus, minha irmãzinha, se não estiver dormindo, termine a sua história para a gente’".

"O texto é baseado nessas repetições. Não posso ir cortando e não acho que seja um empecilho tão grande. A pessoa tem olhos, consegue identificar a mancha textual e pular", argumenta Mamede. Ele diz que os textos são antigos, sim, mas não superados, e que sua tradução foi feita para uma língua falada hoje.

Findo o trabalho, lembra que, num primeiro momento, achou o projeto inexequível e desinteressante. "Pensei: vou ter um trabalho enorme de traduzir e ninguém vai querer publicar uma coisa tão grande." Juntos, os quatro volumes têm 1.669 páginas. O editor Joaci insistiu e Mamede entrou de cabeça, lançando os três primeiros com intervalos de um ano, em 2005, 2006 e 2007. Depois travou. Sentava-se para fazer o trabalho e se distraía com outras coisas. Foi assim até o começo de 2011, quando retomou tranquilamente a tarefa. No meio do ano recebeu o pedido da editora para que entregasse o derradeiro livro. "Acabei me entusiasmando de novo, e entrei numa maratona estafante. Mas esse entusiasmo intelectual tem uma cobrança física. Eu acordava e traduzia. Ia almoçar, traduzia. Ia jantar, traduzia." A coluna, traumatizada com uma hérnia de disco, reclamou. "Perdi a musculatura, não aguentava o peso do braço ao escrever na lousa. Vivi o segundo semestre em petição de miséria", conta o arabista, que até sonhava com as dificuldades e soluções da tradução.

Agora, o professor desacelera, cuida da coluna, caminha e trabalha, devagar, na tradução de outros três textos árabes: o tratado amoroso O Colar da Pomba, do espanhol Ibn Hazm (século 10.º-11), Recreio dos Corações com o Que não Existe em Livro Algum, tratado erótico-obsceno do tunisiano Al-Tifáshi (século 13) e Fundamentos da Política, uma espécie de Espelho de Príncipe, com suas lições de moral, política e ética, mas ditadas ao rei pelas mulheres de seu harém, do egípcio Al-Qifti (século 13).

LIVRO DAS MIL E UMA NOITES, VOL. 4

Autor: Anônimo

Tradução: Mamede

Mustafa Jarouche

Editora: Globo

(Selo Biblioteca Azul)

(528 págs., R$ 59,90)

Leituras afins

LIVRO DAS MIL E UMA NOITES, VOLS. 1, 2, 3. AUTOR ANÔNIMO. TRADUÇÃO DE MAMEDE MUSTAFA JAROUCHE (EDITORA GLOBO; 424, 360, 376 PÁGS., R$ 55, R$ 49, R$ 49, RESPECTIVAMENTE)

MAOMÉ: UMA BIOGRAFIA DO PROFETA, DE KAREN ARMSTRONG (COMPANHIA DAS LETRAS, 320 PÁGS., R$ 60,50)

MUHAMMAD: A VIDA DO PROFETA DO ISLAM SEGUNDO AS FONTES MAIS ANTIGAS, DE MARTIN LINGS (EDITORA ATTAR, 502 PÁGS., R$ 88)

UMA HISTÓRIA DOS POVOS ÁRABES, DE A. HOURANI (COMPANHIA DE BOLSO, 704 PÁGS., R$ 35)

 
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