'Quartett', uma peça sofisticada com a atriz Isabelle Huppert

Teatro, pintura, hipermídia e performance, tudo reunido no texto de Henri Muller e na direção de Bob Wilson

Fausto Viana e Rosane Muniz, especial para o Estado,

16 de setembro de 2009 | 09h00

Cena de 'Quartett', em cartaz no Sesc Pinheiros. Foto: Divulgação

 

SÃO PAULO - "As peças de Heiner Muller são esplêndidas porque não foram escritas de uma maneira pela qual nos sentimos obrigados a entendê-las." Ufa! Robert Wilson, na abertura do programa da peça, leva o público ao alívio de captar a liberdade de entendimento sobre o que se passa em cena. Há um novo movimento nas artes visuais que tem tentado difundir a ideia da fusão total entre arte cênica, performance, pintura e hipermídia. Neste sentido, não haveria mais uma diferenciação significativa entre cenografia, instalação, exposição e outras variantes tão pertinentes aos mundos específicos do teatro e das artes plásticas. Busca-se, também, uma forma de difundir pela internet esse trabalho, potencializando o alcance.

 

O que Bob Wilson apresenta como comunicação visual em Quartett, apesar de nos palcos e não na rede, é exatamente aquilo que os "novos" reformadores da cena contemporânea buscam como novidade. Na vida do consagrado diretor texano, essa proposta já era presente no espetáculo que fez com Philip Glass em 1976 (Einstein on the Beach, que Glass queria chamar de teatro-musical e Wilson de ópera). E que Robert Wilson foi desenvolvendo ao longo da sua premiada carreira.

 

Quartett é visualmente sofisticado. Tem o apelo das grandes montagens operísticas, com recursos técnicos que dão suporte ao que aparentemente é simples e despretensioso, mas que traz inúmeras possibilidades de interpretação. Dificulta também o aprisionamento ou classificação do espetáculo em apenas uma categoria - há um tom forte da estética surrealista, mas o simbolismo está evidente aqui e ali.

 

O espetáculo traz em si o conceito dilatado de tempo, espaço e timing cênico de Bob Wilson. O espaço e o tempo no teatro já são exponencialmente diferentes do cotidiano - e Wilson eleva essa diferença ao extremo. O espectador é obrigado a viver cada pausa, cada minuto, cada palavra - "o silêncio do teatro, a razão de sua fala, será ouvido novamente", preconizou Muller. A repetição e longuidão dos blackouts, além de entradas dos atores em cena para posicionamento e trocas abertas de cenários ampliam o distanciamento.

 

Sem o entendimento desse trabalho que vai por trás, é impossível entender o planejamento do trabalho de cenografia (assinado por Wilson) e de figurinos (de autoria da frequente parceira Frida Parmeggiani). Há uma isca visual, um atrativo que faz com que o espectador - inocente - se permita entrar em uma zona de conforto, em uma data específica: é a inspiração na pintura Le Concert Champêtre, de Frans Wouters, da metade do século 17 (o quadro data de cerca de 1640 e o texto de Laclos de 1792, um século de diferença). Ao elevar a tela, a cena revela uma geometria precisa. Com poucos elementos, o ciclorama ao fundo isola o espaço e Wilson repete a luz que "irradia das profundezas, o céu é embaixo", como Muller retratou sobre Death, Destruction & Detroit II, em 1987. Uma leve e diáfana cortina se faz às vezes de espelho.

 

O espectador vai aos poucos sendo arrancado da passividade. A encenação - marcada por sonoridades próprias, ritmadas e marcantes, faz lembrar o filme A Concha e o Clérigo, de Artaud, da década de 1930. Há um confortável piano, lamento bucólico de um período, mas seguido por marcações eletrônicas de vibração irritante e música techno que, coreografadas pelo próprio Wilson, também trazem à tona todo tipo de questionamento por parte do espectador. Muitas cabeças pendem em cochilos, mas como encena sonhos em suas obras, fica a dúvida se essa não é uma etapa necessária para se acessar o inconsciente.

 

Plano após plano, cada tela vai apresentando uma nova ponte para platôs completamente fora da realidade. O artista plástico Wilson assume o espetáculo introduzindo planos mentais por intermédio de cada imagem - bi ou tridimensionais. A luz, arte que o encenador domina com maestria, interage com todas as formas construídas no palco. Cada cena é arquitetada, malignamente pensada em sutis metáforas para que o embate homem-mulher, cidadão pacífico-cidadão terrorista, ou qualquer outro antagonismo possa ser representado. No auge do embate, um disco preto é colocado no centro do palco e gira, junto com os atores, no sentido horário. No vai e volta do texto, eventualmente atores ou ele próprio viram ao sentido inverso.

 

Justamente porque a encenação se apoia em fatos cotidianos - como bem mostra o figurino de roupas comuns, sem adornos, porém de cores fortes, associadas a cada personagem e distantes de retratos históricos - que não vamos saber nunca se são apenas quatro personagens ou muitos mais. O fato é que há uma curiosa história apresentada na contracapa do programa, onde se lê que Wilson faz notas no texto de Muller com várias cores. Amarelo para a pele, azul para a carne e vermelho para os ossos. Assim, podemos classificar a roupa amarelo esverdeado da moça como um universo de sensações quase destruidoras; o vestido em tom azulado da estupenda Isabelle Hupert como uma variante da mulher fetiche, sexual, dominadora, pantera ("a arte cênica das feras") ou o que o espectador desejar enxergar como a sexualidade vencedora feminina; a roupa vermelha de Valmont como representação dos ossos... E que curioso observar que, na verdade, ele já perdeu. O que não faz dele o portador do vermelho que pertence ao apaixonado e aos heróis.

 

Às outras personagens cabe rondar o universo da morte - negro, no nosso caso. Há uma curiosa utilização do branco - mistura em porções ideais de pigmento azul, verde e vermelho. Branco é luz pura - mas também simboliza a morte nas cultura orientais pelas quais Bob transita.

 

Quartett. 105 min.. 14 anos, Sesc Pinheiros - Teatro Paulo Autran (700 lug.). Rua Paes Leme, 195, tel.: 3095-9400. Quarta, 21h. R$ 30 (esgotados)

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