arquivo pessoal
Beatriz Zaremba Dias Ranieri, de 6 anos arquivo pessoal

Quarentena aumenta tempo de exposição de crianças e adolescentes em frente às telas

Baixo nível de concentração, falta de empatia e instabilidade emocional são alguns exemplos dos prejuízos, segundo especialistas

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2020 | 05h00

Débora Zaremba é mãe de Beatriz, de seis anos. A pequena usa a tecnologia para fazer as lições de casa e lives com a escola durante o isolamento social por causa da pandemia do novo coronavírus. Além disso, Bia usa bastante o tablet e o computador para ver vídeos, jogos e ouvir música. “A frequência aumentou com a quarentena, já que as brincadeiras fora de casa, idas ao cinema e teatro não são possíveis, além da escola que preenchia boa parte do dia”, afirma Débora. Ela conta que, muitas vezes, a filha não quer parar de ver vídeos para fazer outra atividade, mas que tenta impor limites. “O horário do dever normalmente é negociado. Na idade dela, eu preciso estar junto para acessar o site da escola também”, diz. 

A situação é a mesma na casa da Vanessa Müller. Mãe de Manuella, de sete anos, e de Miguel, de cinco, tenta administrar as aulas online das crianças com a diversão. Mas não é tarefa fácil. “Meus filhos utilizam tablet após os dever que eles têm a fazer. Eu deixo no máximo uma hora por dia para eles poderem usar como diversão. Com essa quarenta, a frequência aumentou pois, como não estão indo ao colégio e estamos ficando dentro de casa, eles pedem para ficar mais tempo no tablet”, avalia. Vanessa Müller relata que, às vezes, as crianças ficam irritadas quando o tempo de autorização para ficar com o tablet termina. “Eles não gostam, ficam muito irritados quando dá o tempo determinado para eles utilizarem o tablet para diversão. Acho que com toda criança acontece isso. É um momento  de lazer deles mais tudo tem limite”, enfatiza.

Que mãe ou pai nunca ofereceu o celular à criança para realizar alguma atividade urgente ou até mesmo para descansar um pouco? Essa é uma situação que se tornou rotineira até mesmo antes da pandemia. No livro “A criança digital: Ensinando seu filho a encontrar equilíbrio no mundo virtual”, da editora Mundo Cristão, o antropólogo e especialista em relacionamentos Gary Chapman e a escritora Arlene Pellicane, alertam que não se deve perder de vista os impactos negativos do uso exagerado das telas (televisão, videogame, smartphone e outros) durante a fase de crescimento da criança. “O baixo nível de concentração, falta de empatia e instabilidade emocional são apenas alguns exemplos desses efeitos prejudiciais para o desenvolvimento da sociabilidade infantil”, enumera o editor da Mundo Cristão, Daniel Faria.

Em tempos de isolamento social, o desafio agora para os pais é conseguir identificar se o filho está por tempo demais diante das tecnologias. “Com essa quarentena, tudo acabou se fundindo: o entretenimento dele, o dever e as relações sociais praticamente estão na mesma plataforma. Não sei mais onde começa uma coisa e termina a outra. Então, acho que os limites se quebraram um pouco nessa quarentena. Ele não vê muita diferença entre estar na aula, com amigos ou parentes em conversas, ou em jogos, ou desenhando. Está tudo homogêneo e tudo no mesmo canal”, observa Vanessa Di Sevo, mãe de André, de 15 anos. 

O adolescente participa das aulas online, das 7h às 13h, e realiza todos os trabalhos da escola com excelência. Mas o que preocupa a mãe é o tempo que André fica conectado. “Ele faz tudo pelo celular. Ele dá risada quando a gente fala que tem agenda ou bloco de notas, físico, né? Ele usa tudo online. Ao mesmo tempo, praticamente todas as vezes que a gente pede para ele dar um tempo das telas, ele fica irritado. ‘Ah, eu já vou’, ele diz. Ou adia a tarefa. Ou a gente pega mais no pé e ele fica bravo, de má vontade. Não consegue largar da tecnologia. Levei ele pra passear ontem para ver se saia um pouco do tablet ou do computador”, afirma.

As grandes dúvidas que muitos pais têm são: como conciliar o uso de aparelhos digitais com uma rotina saudável? Até que ponto os recursos tecnológicos afetam a sociabilidade da criança? Qual é a medida ideal de tempo que os filhos podem passar diante das telas?

Em “A criança digital: Ensinando seu filho a encontrar equilíbrio no mundo virtual”, Gary Chapman e Arlene Pellicane sugerem práticas para impedir que a tecnologia atrapalhe o desenvolvimento de habilidades básicas de relacionamento, como afeto, gratidão, controle da raiva, perdão e atenção. Decisões simples como deixar o celular em outro cômodo durante o jantar, estipular horários fixos para o uso do vídeo game e estabelecer um “feriado” em que a família toda possa ficar longe das telas são o suficiente para iniciar uma mudança positiva na vida da criança.

Descubra se seu filho está ficando tempo demais no computador ou usando o celular

O livro “A criança digital: Ensinando seu filho a encontrar equilíbrio no mundo virtual” contém ainda uma ferramenta útil para ajudar os pais a avaliar se o tempo diante das telas está prejudicando ou não a saúde dos filhos. 

Basta preencher as dez questões a seguir com os números 0 (nunca ou raramente), 1 (de vez em quando), 2 (geralmente) ou 3 (sempre), e então somá-los. Se a pontuação atingida for menor que 10, isso significa que seu filho não parece passar muito tempo diante das telas e é capaz de atuar dentro de limites saudáveis. 

Com uma pontuação de 11 a 20, a criança pode estar muito dependente das telas, e será preciso monitorar esse tempo com mais cuidado. Agora, se a pontuação ultrapassa 21 pontos, talvez seja hora de recorrer a orientação e ajuda profissional.

( ) Seu filho se irrita quando você pede que ele saia da frente da tela para jantar ou realizar outra atividade.

( )  Seu filho pede que você compre um aparelho digital, como um tablet, mesmo depois de você ter dito não.

( ) Seu filho tem dificuldade de terminar o dever de casa porque está ocupado vendo televisão ou jogando vídeo game

( )  Seu filho recusa-se a ajudar nas tarefas domésticas porque prefere brincar com aparelhos eletrônicos.

( )  Seu filho insiste para jogar vídeo game ou brincar com outra atividade diante das telas mesmo depois de você ter negado.

( ) Seu filho não pratica atividades físicas por ao menos uma hora ao dia.

( ) Seu filho não faz contatos visuais frequentes com outras pessoas da família.

( )  Seu filho prefere jogar vídeo game a brincar ao ar livre com os amigos.

( )  Seu filho não gosta de nada que não inclua aparelhos eletrônicos.

( )  Quando você proíbe o uso de aparelhos eletrônicos por um dia, seu filho fica irritado e manhoso.

A tecnologia é um bem que precisa ser bem usado. “No mundo virtual, tudo funciona com base em recompensas imediatas. Na vida real, porém, temos de exercer a paciência, saber dialogar e abrir mão de prazeres instantâneos em prol daquilo que é mais duradouro”, conclui o editor da Mundo Cristão, Daniel Faria.

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Vídeos trazem experimentos científicos para fazer em casa com crianças

Iniciativa faz parte da campanha Curiosity Labs e disponibilizará 10 vídeos ao longo das próximas semanas

João Pedro Malar*, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2020 | 15h55

Com a quarentena devido ao novo coronavírus fazendo as crianças a passar o dia todo dentro de casa, os pais precisam ser criativos para distrair e ocupar os filhos. Uma campanha busca ajudar nessa tarefa, com a publicação de vídeos que ensinam experimentos científicos que podem ser feitos em casa.

A campanha recebeu o nome Curiosity Labs, ou Laboratório da Curiosidade, em português, e irá publicar dez vídeos ao longo das próximas semanas com experimentos fáceis de fazer em casa e apenas com o uso de materiais comuns no ambiente doméstico.

A ideia é não apenas entreter as crianças, mas também ensiná-las sobre vários aspectos do mundo da ciência e despertar a curiosidade e o amor pela área. Com a prática, é possível aprofundar conhecimentos e ver como se aplicam na realidade.

Os vídeos serão publicados nas redes sociais da empresa de biotecnologia Merck Life Science Brasil, idealizadora da campanha. Nos perfis da empresa no Instagram e no Facebook já é possível encontrar alguns experimentos, como o de um balão auto-inflável.

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais

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