Quanto valem, ou são por quilo (os clichês)?

Novas velhas formas de produção e relatopropõem alternativaspara os altos custos que lascam os filmes nacionais

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2014 | 02h06

Tem havido no cinema brasileiro recente uma corrida aos gêneros. Terror, musical. Os resultados são díspares, mas talvez exista algo a considerar nessa vontade dos novos diretores de dialogar com o público mais jovem. Você pode dizer que o cinema brasileiro não tem tradição de suspense, apesar de certas tentativas isoladas. Justamente. Pegue o caso de Isolados. Só com má vontade para negar que o filme de Tomás Portella começa bem. Um longo plano-sequência, a câmera na mão, o clima angustiante - e uma morte violenta.

Lascados, de Vítor Mafra, é de outra natureza. Um filme teen, de estrada. Três amigos numa van, a equipe inteira cabia em outra van. Existem tantos erros de continuidade que você só tem uma alternativa. Para não se irritar, tem de entrar no clima. E talvez até se divirta com a descontração do elenco e algumas ideias do roteiro e da direção.

No Festival de Gramado, Isolados passou fora de concurso, numa homenagem a José Wilker. Ele faz um pequeno papel, sua filha Mariana Vielmond (com Renée de Vielmond) é a autora do roteiro e boa parte da equipe trabalhou em regime de cooperativa, apostando no sucesso. Os críticos bateram pesado. A acusação mais frequente é que o filme abusa dos clichês. Intervalo - está ocorrendo algo interessante, que pode ajudar no desempenho de certos filmes na bilheteria. A título de trailer, o canal Netflix apresenta, nas salas, o making of. O de Isolados mostra que o clichê, longe de ser um defeito, era um efeito buscado pelo diretor Portella.

Ele instrui repetidas vezes seus atores e técnicos na (re)construção de cenas que - pela música, o ângulo, a iluminação - estão no imaginário dos espectadores. E carrega na trilha, sob medida para deixar o público de coração na mão. Sem entrar em detalhes para não estragar as (possíveis) surpresas do relato - afinal, se o diretor trabalha com o clichê, o espectador esperto corre o risco de desvendar a trama antes da hora -, Isolados, depois do violento assassinato do começo, prossegue com a história do casal que chega a essa casa escondida na floresta.

Bruno Gagliasso faz o psiquiatra que se envolveu com a paciente, Regiane Alves. De cara, numa parada no meio do caminho, ele pede ao dono da loja de conveniência que não conte a Regiane das mortes de mulheres na floresta. O resto todo fica muito ambíguo. Alguém está enlouquecendo, ou já enlouqueceu. Alguém está matando, alguém já morreu. Na entrevista acima, Gagliasso fala do desafio contido no roteiro de Mariana Vielmond. Os personagens são estranhos. E Gagliasso toca no ponto - em geral, temos a pretensão de achar que sabemos tudo sobre as pessoas. Na verdade, não sabemos o que se passa na cabeça dos outros. E o que Isolados tenta fazer é justamente isso. Levar o público (jovem, preferencialmente) numa viagem pela cabeça de personagens mentalmente enfermos.

Grandes diretores já fizeram isso - Michael Powell (A Tortura do Medo), Alfred Hitchcock (Psicose), Roman Polanski (Repulsa ao Sexo) etc. Foram eles que estabeleceram os códigos de que o cinema industrial se apossou, e que Tomás Portella reproduz. Só para acrescentar uma provocação à informação - os filmes de Hitchcock e Powell, hoje reputados como clássicos, foram espinafrados por volta de 1960, acusados de violência excessiva e vulgaridade. Os críticos quase sempre têm dificuldade para assimilar o clichê, mesmo quando usado de forma consciente. Além do impactante plano-sequência do começo, Isolados tem uma cenografia interessante (a da casa). Quanto vale isso?

O clichê na estrada de Vítor Mafra é que os adolescentes lascados estão aflitos para perder a virgindade. Paloma Bernardi, que viaja com eles na van, já perdeu a dela há tempos, mas cria fantasias em que interpreta as heroínas de contos de fadas - Branca de Neve, a Gata Borralheira etc. São pequenos toques, mas em ambos os filmes a ideia é que o filme barato é uma alternativa para o cinema do País, tão lascado por custos altos (e sem público fora das comédias).

CRÍTICA

LONGAS QUE HOJE SÃO CLÁSSICOS

FORAM ESPINAFRADOS EM SUA ÉPOCA

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