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Quanto vale uma palestra?

Descobri a sabedoria nas histórias recitadas por pretas baianas a Tia Amália, irmã do meu pai

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2021 | 05h00

Desde os meus 18 anos eu vivo de “dar aulas”. Lembranças embaçadas mostram um eu criança inventando casos no salão de um navio do Lloyd Brasileiro, quando meus pais saíram de Manaus retornando a Niterói. Não me lembro dos contos, mas não esqueço do olhar enlevado dos que ouviam o menino falador cuja felicidade era ter o seu narcisismo recompensado com barras de chocolate.

Descobri a sabedoria nas histórias recitadas por pretas baianas a Tia Amália, irmã do meu pai. A que “ficou pra titia” e, solteirona, foi uma figura marginal na nossa casa. Seres periféricos enxergam com mais claridade e, como Titia, dissipam suas angústias contando histórias até hoje gravadas no fundo do meu velho coração. 

Seria esse o valor de uma palestra? Sim, porque tudo o que é transferido tem valor. Mas além de narrar coisas fantásticas, Titia fazia como Lévi-Strauss: dizia o que estava por trás, mas era visto como estando na frente das histórias. Uma delas era a do estudante pobre cuja paixão por uma moça rica fez com que realizasse o seu amor, vendendo a alma ao Diabo. Variante do Fausto, a história me perseguiu nos pesadelos com o Diabo me ofertando fama e fortuna.

Foi a oposição entre ricos e pobres que me revelou a hierarquia brasileira. Esse vinco de uma desigualdade estrutural. Um traço tão importante que há todo um inabalável sistema político-legal desenhado para mantê-lo. Volto a pergunta: quanto vale uma palestra? Ou, por que não, esta crônica?

O rabino Abrão Zinder foi convidado para falar e para susto da congregação, exigiu um honorário. Tal como no Brasil e nas histórias de Tia Amália, não havia honorário; pois jamais nos ocorre recompensar sabedoria. 

O mestre, porém, foi claro: ou eu recebo 10 mil dólares ou não faço a palestra! Houve rebuliço na sinagoga que, reitero, como ocorre no Brasil, julgava que dar aulas e fazer palestras são tão banais quanto descobrir que a moralidade publica está sendo permanentemente sabotada porque na política não há honra, há lorota. 

Mas como saber é tão básico quanto comer, arrumaram o honorário e o rabino fez a palestra.  Falou tão sabiamente que até os sovinas e burros chegaram às lágrimas – essas lágrimas que separam a arrogância, conforme me revelou um amigo do coração, citando seu encontro com um ministro (mas também professor) o qual classificou o papel de professor – o que sou – como uma “merreca” (uma pútrida mistura de merda e meleca). Animador, não?

Quando o rabino acabou, ele chamou o líder do grupo e devolveu os 10 mil dólares. Entre o espanto (como é que alguém pode devolver 10 mil dólares depois uma atividade tão fácil) e a indignação (é muito dinheiro por um saber que os estúpidos recusam), o homem perguntou por que ele praticava tal alucinação. Ouviu então, com o parvo olhar dos imbecis, que realizar uma palestra com 10 mil dólares no bolso era bem diferente do que fazer uma preleção gratuitamente...

Fiz muitas palestras, mas ainda espero pela aula de 10 mil dólares. Como professor, garanto que dar aulas não é aconselhável numa sociedade na qual a ignorância é encorajada, poder político é malandragem ou pura estupidez, e a corrupção é a madrinha da vida pública.

Pois ser professor é professar. É tentar realizar a cambalhota do entendimento que evita o sorriso boçal. É a causa perdida de tentar entender a colisão para evitar os remendos que, como estamos vendo, empatam com a piada imoral. 

Há, ouço há 85 anos, inteligentes e burros no Brasil. Claro que os primeiros são brancos, “doutores” e homens; os outros são pretos “ignorantes” e mulheres. 

O lado mais vergonhoso dessa crença é a sua permanência. Pois tudo indica como, governo após governo, direita após esquerda, nada fazemos para acabar essa polaridade. Polaridade, aliás, que só pode ser atacada por um sério sistema educacional. É somente nas escolas e com os que “dão aula” – esses professores “merrecas” construtores da riqueza das nações – que ela será quebrada.

Infelizmente, o esforço imoral para manter privilégios por falta de instrução é prova de que o negacionismo é mais antigo do que pensa o nosso lamentavelmente vão bolsonarismo. 

São os 10 mi dólares do conferencista pagos sem nenhuma palestra...

PS: Para Carlos Augusto e Celestinha.

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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